Tema: América Latina
29/09/2006 - 10:59
Agência Câmara: Qual a situação política do Brasil em comparação ao resto da América Latina?
Antônio Octávio Cintra - Excetuando o Chile, que já está mais institucionalizado e adiantado nas reformas (por exemplo, na reforma da Previdência), creio que não estamos em pior situação. O Hugo Chávez, presidente da Venezuela, está navegando no petróleo, mas aquilo não é um modelo adequado. Não sei se o Néstor Kirchner, da Argentina, conseguirá manter o crescimento por muito mais tempo. A moratória prejudica e a institucionalização deles está muito atrasada, a Justiça depende do Executivo. Além disso, há a velha demagogia, é o velho populismo. Estamos melhores do que a Bolívia também, e o México atualmente vive uma crise eleitoral.
Bolívar Lamounier - Já foi melhor. Atualmente, não sei. Ainda não temos demagogos do tipo Chávez [Hugo Chávez, presidente da Venezuela], mas há sinais preocupantes de retrocesso na democracia.
David Samuels - O Brasil está melhor do que alguns países, não tão bem quanto outros. Certamente, muito melhor que a Bolívia, o Equador, o Peru, a Colômbia ou a Venezuela. Sem falar nos países da América Central, onde a corrupção é pior e a democracia é muito mais frágil. O Brasil parece razoavelmente estável, em comparação com essas nações.
Fábio Wanderley Reis - O Brasil tem uma característica negativa muito séria, que é a herança de desigualdade. As conseqüências políticas são evidentes quando analisamos dados que revelam que o Brasil é o campeão negativo nas deficiências manifestadas pelo eleitorado, no que se refere ao interesse pela política e pela informação. Que o Brasil perca para a Argentina, que desde o começo do século passado era um país próspero, vá lá. Mas perder para todos os demais no que se refere à informação do eleitorado, aí é realmente muito negativo. Os dados recentes são desalentadores.
José Álvaro Moisés - Estamos melhores que outros em alguns pontos. Conseguimos superar uma situação de crise com o mecanismo do impedimento de um presidente, mas em outro momento não percebemos que a corrupção está muito próxima do presidente e não conseguimos coibi-la e puni-la. Obviamente, ninguém pode ser considerado culpado antes de ser julgado, mas não pode haver uma legislação que sirva para acobertar, para promover a impunidade, com foro privilegiado. Nisso estamos atrás.
O Chile e a Argentina, por exemplo, têm índices muito melhores de escolarização. O México tem há mais tempo um programa similar ao Bolsa Família, mas eles já estão em um processo de crítica sobre os pontos de estrangulamento, com a percepção de que os programas transformam os pobres em dependentes do Estado. Há dificuldades no Equador, e outros países têm ameaças de golpe.
Em relação ao respeito pelos direitos civis, estamos muito aquém. E o sistema partidário brasileiro é extremamente disperso, também não somos bom exemplo nisso. As legendas não representam segmentos de opinião, e muitas vezes são usadas apenas como uma espécie de alpinismo social. As estruturas partidárias do Chile e da Argentina são muito mais consolidadas, com maior identidade de referência entre partidos e eleitores. No Brasil, hoje há muitas trocas de partidos, o que acaba não oferecendo referencial para o eleitor ver o partido como instrumento de representação.
Luiz Pedone - Temos o voto menos partidário, entre todos os países da América Latina, ao contrário de Chile e Argentina, por exemplo.