Tema: renovação da Câmara

29/09/2006 - 10:46  

Agência Câmara: Quais são as expectativas para a próxima legislatura? Haverá grande renovação?

Antônio Octávio Cintra - Em geral, historicamente há uma renovação bastante substancial da Câmara, em torno de 40% dos parlamentares. Sinceramente, não saberia responder. Pode ser que voltem todos os envolvidos no "mensalão" e no episódio das sanguessugas. Acho, contudo, que vai haver mais atenção da imprensa para esses casos.

Bolívar Lamounier - Não tenho grandes expectativas. Haverá provavelmente muita troca de pessoas, mas pouca ou nenhuma renovação de substância, como seria desejável. Creio que muitos dos envolvidos em corrupção conseguirão voltar para a Câmara, graças à recuperação eleitoral do presidente Lula e ao sistema eleitoral vigente, que provoca um descolamento quase total dos eleitos em relação à sociedade.

David Samuels - Eu realmente não tenho grandes expectativas. A renovação deve ser bem alta, especialmente aquela relativa às eleições passadas. Isso, em parte, é conseqüência dos escândalos de corrupção, mas não acho que a renovação leve necessariamente à qualidade legislativa. Nós temos experimentado alguma mudança aqui nos Estados Unidos, e o impacto dela não é completamente positivo.

Fábio Wanderley Reis - Provavelmente vamos ter alguma renovação, produzida pela insatisfação causada pela crise de 2005. Entre as observações que precisam ser feitas é que, em boa medida, os escândalos envolvem gente nova, de primeiro mandato. Não há nenhuma razão para presumir que os novos sejam os puros, os bons, os virtuosos. Sem falar da campanha negativa, que pode resultar em um grande número de votos nulos, que dificilmente podem ser vistos como saídas reais - ao contrário, podem agravar as condições no Congresso.

José Álvaro Moisés - Como a esfera de competição do Congresso é maior, quando desvalorizado ele se transforma em centro de transações comerciais que envolvem a corrupção, a compra de votos, a troca de partidos, coisas muito graves. Nessa situação, são oferecidos à população sinais de que é assim que as coisas funcionam. Seria positivo que houvesse grande renovação do Congresso, provocada pelos partidos e pelos eleitores. Seria interessante que as pessoas envolvidas nos escândalos não fossem eleitas, mesmo que não tenha sido comprovada a participação, pois o envolvimento é sinal de que algo está muito errado. Entretanto, para que isso ocorresse, seria necessário um debate e mais informação qualificada. Por isso, eu suspeito que essa renovação vá acontecer em um grau limitado.

Lúcia Avelar - Não creio que vamos ter uma renovação muito grande em curto prazo, mas as gerações novas poderão apontar uma renovação. A política muda muito lentamente. Os instrumentos de renovação da Constituição de 1988 foram conseqüências da pressão da sociedade organizada e há muitas instituições que ainda mobilizam a sociedade - a Igreja é uma delas. A sociedade está mais sensível, as pessoas querem mudar o sistema. Porém, isso não é fácil, afinal o capitalismo foi sábio em despolitizar o debate.

Luiz Pedone - A cada legislatura, a expectativa de renovação da Câmara vai crescendo. Desde a Constituinte, a Câmara tem mudado muito rapidamente. Nos últimos anos, o número de deputados que não são políticos profissionais tem aumentado consideravelmente.
Nessa legislatura, provavelmente haverá algum efeito das histórias do mensalão e dos sanguessugas. Não sei se os 70% da população de baixa escolarização recebem as informações diretamente, mas eles acabam recebendo alguma informação indiretamente. Os deputados envolvidos vão sofrer muitas conseqüências. Mesmo assim, eu sou um pouco pessimista. Acho que é preciso mais do que isso para uma renovação total. O eleitor médio brasileiro é muito esquecido, tende a um voto fácil, que tem a ver com as pessoas que ele conhece, ou com benefícios pessoais para alguém da família. Não sou otimista quanto à qualidade da renovação.

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