Tema: crise política
29/09/2006 - 10:49
Agência Câmara: Houve mudança na cultura política, tanto da parte de eleitores como de candidatos, em razão da crise política dos últimos dois anos?
Antônio Octávio Cintra - É difícil saber isso, não vejo uma situação terminada. Existem várias teses sobre os motivos da possível reeleição do Lula. Um deles é que os 10 milhões de famílias que receberam o Bolsa Família irão votar nele de qualquer jeito. O Lula chegou à Presidência com uma legitimidade muito grande, pois representou uma mudança significativa no País; afinal, foi o primeiro líder popular, de origem sindicalista a chegar ao poder. Creio que essa legitimidade ele perdeu, e vai ter um segundo governo muito difícil. O presidente perdeu a aura que o protegia, foi moralmente corroído e o PT virá enfraquecido nesta legislatura.
A crise colaborou para que haja uma visão ainda mais negativa da política. O argumento do Lula foi o de que o atual governo não era pior que os outros, mais isso acabou com o capital moral dele. A tendência é de que ele fique nas mãos do PMDB e, em caso de crise econômica - o período de tranqüilidade internacional pode acabar -, o governo pode fraquejar.
Em relação aos eleitores, eu não sei. O povo não sabe muito sobre o escândalo, é algo remoto, lá de Brasília. Quando um político aparece na televisão, as pessoas não sabem se ele é o acusador ou o corrupto. A percepção popular sobre esses problemas ainda tem que ser estudada.
Bolívar Lamounier - Não sei dizer se houve mudança. Se houve, foi para pior, a julgar pelo apoio eleitoral que aparentemente será dado a partidos e indivíduos atolados em irregularidades. Sou um pouco mais otimista quando penso em médio prazo. Os escândalos do ano passado tiveram o condão de quebrar a hegemonia ideológica de uma certa esquerda, abrindo campo para um debate mais sério sobre o País.
David Samuels - Não. Isso é algo triste de perceber, mas quando eu estudo a opinião pública por meio de sondagens fica claro que muitos brasileiros parecem quase esperar por corrupção na política.
Fábio Wanderley Reis - Não há razão para apostar em uma modificação importante da cultura política. A cultura tem a ver com aspectos muito mais arraigados, duradouros, que dificilmente seriam afetados diretamente pela crise. Inclusive, no auge da crise no ano passado, com tudo o que ela teve de importante e com toda a ressonância, nós vimos algo que corrobora o aspecto de cultura negativa, corrupta: o fato de que grandes lideranças, de diferentes partidos, aderiram imediatamente ao mote de que o caixa dois é algo comum.
José Álvaro Moisés - Estou concluindo uma pesquisa feita em 2005, e os dados confirmam que há uma parte da população com maior adesão aos valores democráticos. Para essas pessoas, a democracia é vista como um ideal. Contudo, quando analisamos o funcionamento prático da democracia, de forma pragmática, aumentam as críticas. Há um baixo nível de confiança no Congresso e nos partidos políticos, por exemplo.
Essas pesquisas nos permitem observar três aspectos principais: há um amadurecimento da cidadania, que vê a democracia como um valor em si mesma; há uma surpresa ou decepção com o modo como as instituições funcionam na democracia, uma vez que elas não são suficientes para garantir todos os direitos; e uma parte das pessoas mais críticas tem a opinião de que a corrupção aumentou, e prefere excluir partidos e o Congresso do jogo político.
Lúcia Avelar - A aposta no PT foi muito alta; é um partido feito da sociedade organizada, mas que jogou esse capital fora. Nesse ponto, contudo, eu sou otimista: perdemos com a crise do PT, mas a cultura da participação continua. Os grupos surgidos na década de 70 podem estar em um dilema sobre em quem vão votar, mas novas instituições participativas surgem a todo momento. Há uma proliferação de ONGs, que podem ser, por um lado, um fator de despolitização do debate, mas por outro sabemos que há entidades fortemente politizadas. Muitas dessas instituições são amortecedores dos conflitos, mas algumas têm reivindicações.
Luiz Pedone - Por incrível que pareça, com todo esse "mar de lama", para usar uma expressão antiga, não vejo uma reação, uma indignação por parte do eleitor médio. No episódio do impeachment do ex-presidente Fernando Collor, por exemplo, havia gente nas ruas, movimentos sociais e organizações. Hoje não vejo nada disso.
Em 1º de outubro, podemos ter uma surpresa, mas o eleitor também pode continuar votando como sempre. Não acho que tenha mudado a cultura política, exceto para uma pequena parcela da sociedade urbana. Essa parcela tem buscado na internet e em outros meios as informações sobre os candidatos, mas são as pessoas que têm acesso ao computador, uma parcela muito pequena, talvez 3 ou 4 milhões de cidadãos que não representam nem 5% do eleitorado. Culpo os partidos por não explorarem mais a questão, mas também eles estão todos envolvidos. O horário eleitoral gratuito tem que ser repensado na sua forma, pois não atende aos objetivos de informar a população. Nesse ponto, o papel de outras instituições como o Jornal da Câmara e a Agência Câmara é fundamental.