Delegado destaca erros dos controladores no acidente
15/05/2007 - 20:25
O delegado da Polícia Federal Renato Sayão Dias afirmou que as falhas identificadas no comportamento dos pilotos do jato Legacy - que colidiu com o avião da Gol em setembro do ano passado - seriam suficientes para provocar o acidente, mas as investigações também revelaram uma série de irregularidades no trabalho dos controladores de vôo que potencializou o risco de choque entre as aeronaves, que matou 154 pessoas.
O delegado destacou, em depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Crise Aérea, que a investigação conduzida pela Polícia Federal não focou a atuação dos controladores - que está sob responsabilidade da Aeronáutica, por se tratar de militares -, mas uma série de procedimentos apurados nos depoimentos dos controladores de Brasília e de Manaus demonstrou que pelo menos quatro erros foram cometidos por esses profissionais.
Em primeiro lugar, segundo Sayão, não houve uma autorização clara do plano do vôo a ser seguido pelo jato Legacy. Além disso, não foi cobrada do Legacy a mudança de 37 mil pés para 36 mil pés de altitude a partir do espaço aéreo de Brasília. O terceiro erro, segundo o delegado, ocorreu quando os controladores perderam o sinal do transponder e do TCAS - aparelhos que permitem o monitoramento do vôo - e não tomaram providências para corrigir a falha. Por fim, quando houve transferência do controle da aeronave de Brasília para Manaus foi passada uma informação errada sobre a altitude do Legacy. Os controladores de Brasília disseram que o jato estava a 36 mil pés, mas ele estava a 37 mil pés de altitude.
"Houve o desligamento involuntário dos equipamentos do Legacy ao longo de aproximadamente 50 minutos, e o procedimento de isolamento do jato não foi adotado, nem o avião da Gol foi avisado", afirmou. Ele considera que o desligamento do transponder e do TCAS foi involuntário, porque a atitude, de tão arriscada, "seria equivalente ao suicídio". Para se desligar esses equipamentos, explicou o delegado, é necessário que se aperte duas vezes um botão do painel, e o aviso de que eles estão desligados é uma luz branca e discreta com a inscrição "transponder off".
Pontos do relatório
O delegado acrescentou que o relatório elaborado por ele analisou basicamente três pontos: o plano de vôo, o funcionamento do transponder e do TCAS e falhas de comunicação entre os pilotos e o sistema de controle aéreo. Segundo ele, nos três pontos houve falhas "involuntárias" dos pilotos do jato Legacy.
Em relação ao plano de vôo, Sayão criticou a decisão de se levantar vôo com informações incompletas sobre o trajeto a ser percorrido. "As normas obrigam um detalhamento completo do plano de vôo, com as altitudes relativas a todos os trechos, mas os controladores em seus depoimentos disseram que é praxe manter uma conversa lacônica, apenas com a informação do primeiro trecho. Os pilotos erraram ao iniciar a viagem apenas com essas informações", disse.
Durante o período em que os equipamentos ficaram desligados, houve sete tentativas de comunicação em diferentes freqüências de rádio, mas nenhuma permitiu contato entre o jato e os controladores. O delegado minimiza a possibilidade de existência de uma "zona cinzenta" na região que impeça a comunicação desse tipo, uma vez que outras aeronaves que estavam na região estavam com contatos normais. Sayão acredita que o problema foi motivado pelo fato de os pilotos e os controladores não terem conseguido combinar as freqüências adequadas para a conversa.
Contradição em diálogo
O delegado apontou ainda pelo menos uma contradição no diálogo entre o comandante do Cindacta de Manaus e os pilotos do Legacy, logo após o acidente, quando os pilotos religaram os equipamentos para emitir mensagens de emergência. Segundo Sayão, o militar perguntou se o TCAS estava funcionando no momento da colisão, e o piloto do Legacy respondeu que não. Incrédulo, o comandante repetiu a pergunta: "Como assim, sem TCAS?" O piloto então respondeu, em inglês: "TCAS is off" (desligado).
Logo em seguida, há um ruído na gravação - e o delegado suspeita que poderia ser alguém falando em inglês para o piloto mudar sua versão e dizer que o equipamento estava ligado. Depois, após nova indagação, o piloto recapitulou: "TCAS is on". O laudo pericial, no entanto, não deixou dúvidas de que o aparelho estava de fato desligado. Reportagem - Rodrigo Bittar
Edição - Marcos Rossi
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