Ex-diretor da Dersa nega denúncia de desvio de verbas para campanha do PSDB
29/08/2012 - 21:44
O engenheiro Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da empresa rodoviária do governo de São Paulo (Dersa), negou denúncias de desvio de dinheiro de obras do Rodoanel de São Paulo para campanhas do PSDB. Em depoimento nesta quarta-feira (29) na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira, Souza – também conhecido como Paulo Preto – disse ainda que nunca favoreceu a construtora Delta e que não conhece o contraventor Carlinhos Cachoeira.

Segundo matéria da revista IstoÉ, o ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antônio Pagot teria dito que uma parte do aditivo de R$ 264 milhões do Rodoanel de São Paulo teria sido desviada para campanhas de José Serra à Presidência da República e de Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo. Outro percentual teria sido destinado ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.
O próprio Pagot afirmou na terça-feira (28), em depoimento na CPMI, que a informação sobre o desvio não passou de uma "conversa de bêbado em botequim".
Paulo Souza afirmou que o aditivo foi feito por recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério Público Federal. Apesar de se dizer contra a medida, Souza disse que ela foi útil para evitar que as empresas pudessem questionar na Justiça um reajuste de 38% depois da conclusão da obra.
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O TCU questionou os valores das obras do trecho oeste do Rodoanel. O Ministério Público Federal teria proposto um encontro de contas, com o apoio do TCU e da Procuradoria-Geral do Estado, o que teria gerado um Termo de Ajustamento de Contas (TAC) para liberar "o menor aditivo de obra pública no País", segundo Paulo Souza.
Pressão
Pagot disse na terça-feira que Paulo Souza o pressionou para que assinasse o aditivo, mas negou ter dito que parte desse dinheiro seria desviada para as campanhas eleitorais.
Paulo Souza disse que aceitaria fazer acareação com Pagot sobre o aditivo. “Eu não fiz pressão no Pagot, fui fazer gestão.”
Souza disse que, segundo entendimento da Advocacia-Geral da União (AGU), não cabia ao Dnit assinar o TAC. Já Pagot afirmou que não assinou o documento porque não aceitou fazer a obra do Rodoanel por empreitada global.
O TAC acabou sendo assinado pelo Ministério Público, pelas empresas contratadas e pela Dersa.
TCU e MPF
O relator da CPMI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), e o vice-presidente, deputado Paulo Teixeira (PT-SP), afirmaram que o TCU e o MPF precisam prestar esclarecimentos à comissão sobre o aditivo. Segundo Cunha, é de se estranhar a ação dos órgãos. “Com anuência do MPF, deu-se validade ao aditivo. Creio que é fundamental um questionamento da CPMI ao TCU.”

De acordo com Teixeira, os dois órgãos deram um ar de legalidade ao aditivo. “O procedimento feito pelo TCU e pelo MPF, na minha opinião, é ilegal. Se isso vira moda, podemos gerar um grande prejuízo à sociedade", afirmou.
Para o líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR), a convocação de Paulo Souza foi um equívoco político. “Tinha objetivo, mas ele fez um passeio na CPMI.” Segundo ele, a vinda do ex-diretor da Dersa autoriza a convocação do deputado federal José de Filippi (PT-SP), tesoureiro da campanha presidencial de Dilma Rousseff. Na época da convocação de Paulo Souza, a comissão rejeitou chamar o parlamentar. Ambos foram citados por Pagot em reportagem da revista IstoÉ.
O deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP) afirmou que Paulo Souza mostrou honestidade e transparência, até com bom humor. “Sua presença foi muito mais um rigorismo de disputa política do que fatos para comprometê-lo.”
Demissão
Segundo Paulo Souza, foi uma ingratidão ter sido demitido oito dias depois de entregar “as três maiores obras deste País” em 34 meses, em referência ao Rodoanel e à revitalização da Marginal Tietê e de outras rodovias da capital paulista. O ex-diretor entregou à CPMI 25 DVDs com documentos que comprovariam sua inocência.
“Não saio desta Casa sem entregar todos os documentos comprobatórios do que eu falar”, disse, acrescentando que pediu a Deus para falar na CPMI para se defender.
Paulo Souza foi nomeado diretor de Engenharia da Dersa em 2007, no governo José Serra (PSDB). Sua saída ocorreu em 2010, pouco depois da entrega da obra do Rodoanel, já sob a gestão de Alberto Goldman, ex-vice de Serra, que renunciou ao cargo para disputar a Presidência da República.
Delta
Segundo Paulo Souza, a única obra da empreiteira Delta relacionada à Dersa foi o lote 2 da revitalização da Marginal Tietê. Ele disse que se encontrou duas vezes com o dono da construtora, Fernando Cavendish, e que nunca houve nenhuma irregularidade da Delta no relacionamento com a Dersa.
Souza disse que houve dois aditamentos, de 24,9% cada um, nas obras de revitalização da Marginal Tietê. Segundo ele, esses aditivos se justificam por mudanças que precisaram ser feitas por causa de desvios de estruturas no subsolo da capital paulista.
A obra continha quatro lotes na Marginal Tietê, e a Dersa licitou dois, um deles ganho pela Delta. “A Delta participou de todas as licitações. Ela perdeu todas por preço a maior. A única obra que a Delta tem na Dersa é na marginal, que representa 1,9% dos valores licitados. Todas as demais ela perdeu por preço a maior”, disse.
De acordo com Paulo Souza, o contrato inicial da Delta era de R$ 172 milhões e foi para R$ 215 milhões com o aditivo. A Sobrenco, empresa que participava do mesmo consórcio, subiu o contrato de R$ 114 milhões para R$ 143 milhões.
Dinheiro de campanha
Souza também negou denúncia publicada em 2010 pela imprensa de que havia “desaparecido” com R$ 4 milhões destinados à campanha de José Serra. Ele desafiou alguém a comprovar a denúncia e disse que gostaria de saber quem é seu inimigo (que teria inventado essa história).
O ex-ministro do Governo FHC e vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, teria dito à imprensa que o engenheiro havia arrecadado R$ 4 milhões com empresários para a campanha de José Serra à Presidência em 2010 e teria desaparecido com o dinheiro. Essa informação teria sido confirmada pelo tesoureiro-adjunto do PSDB, Evandro Losacco.
Camargo Correa
Em relação a uma lista em que seu nome aparece como um dos beneficiários de esquema investigado pela operação Castelo de Areia, da Polícia Federal, Paulo Souza disse que nunca foi chamado, citado ou comunicado sobre a operação. Vi [meu nome em] uma lista apócrifa”, disse. A operação apurou suposto esquema de remessa ilegal de dinheiro da construtora Camargo Corrêa para o exterior por intermédio de doleiros que atuam no Brasil e em outros países.
Assad
O empresário Adir Assad, que ficou em silêncio no depoimento de terça-feira, era um atleta conhecido de Paulo Souza. “Todos os triatletas treinam no mesmo lugar. Desconheço se ele trabalhou como subcontratado. Ele nunca entrou na Dersa.” Assad é apontado como dono das empresas JSM Terraplanagem e SP Terraplanagem, entre outras, que teriam recebido aproximadamente R$ 48 milhões da Delta Construções para pagar propinas e financiar campanhas, segundo a PF.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli