Empresária fica em silêncio na CPI do Carf
Assim como vários outros convocados pela CPI, Cristina Mautoni, acusada de intermediar pagamento de propina em troca da aprovação de medidas provisórias, compareceu amparada por um habeas corpus e não respondeu as perguntas
02/06/2016 - 12:37

A empresária Cristina Mautoni, sócia da empresa de consultoria Marcondes e Mautoni Empreendimentos e Diplomacia Corporativa, usou o direito constitucional de não se autoincriminar e permaneceu calada durante quase duas horas de interrogatório em audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Carf.
Cristina é esposa de Mauro Marcondes Machado, ex-diretor da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos (Anfavea). Há um mês os dois foram condenados pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal, por envolvimento em esquema de compra de medidas provisórias (MPs) que beneficiaram as empresas do setor automobilístico MMC Automotores (fabricante Mitsubishi) e o Grupo Caoa (que monta veículos Hyundai).
Segundo a denúncia do Ministério Público, a partir de investigações da Operação Zelotes, da Polícia Federal, as empresas pagaram R$ 32 milhões para agentes públicos, por intermédio do casal, em troca da aprovação de MPs que prorrogaram incentivos fiscais a indústrias automotivas instaladas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Cristina foi condenada a seis anos e cinco meses de reclusão, em regime semiaberto, por associação criminosa e lavagem de dinheiro. Marcondes, por sua vez, recebeu pena de 11 anos e 8 meses de prisão, inicialmente em regime fechado, por associação criminosa, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
Marcondes já compareceu à CPI, mas se recusou a responder as perguntas dos deputados. Assim como o marido, Cristina compareceu à CPI amparada por um habeas corpus que deu a ela o direito de permanecer calada.
“Vou obedecer à recomendação do meu advogado e ficar calada”, disse, no início da audiência. Ela repetiu a mesma frase diversas vezes quando questionada pelos deputados.
“Em depoimento à PF a senhora disse que não sabia dos motivos dos pagamentos de R$ 80 milhões à sua empresa. Como explica?”, perguntou o relator da CPI, deputado João Carlos Bacelar (PR-BA). “Vou permanecer em silêncio”, respondeu.
Acusações
Ao investigar Mauro Marcondes e Cristina Mautoni, a polícia descobriu pagamentos de R$ 2,5 milhões do escritório deles para uma empresa de marketing esportivo de Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula.
Na Justiça, os dois negam qualquer pagamento de propina. E os advogados de Luís Cláudio alegam que a empresa do filho do ex-presidente Lula prestou uma consultoria para o escritório Marcondes e Mautoni.
“Como a senhora explica pagamentos a Luís Cláudio Lula da Silva?”, perguntou o deputado Izalci (PSDB-DF). “Vou permanecer calada”, respondeu Cristina.
Sem quórum
A reunião da CPI foi encerrada em função do silêncio da depoente e devido à falta de quórum para votar requerimentos de convocação, como os do presidente o Banco Bradesco, Luiz Trabuco; do presidente do Grupo Gerdau, André Gerdau; e do dono da Cervejaria Petrópolis, Walter Faria – investigados por suspeita de terem usado esquema de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) para se livrar de autuações da Receita Federal.
No final da reunião, os deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Delegado Éder Mauro (PSD-PA) discutiram, depois que o último acusou o PT e o ex-presidente Lula de se beneficiarem do esquema de corrupção no Carf.
“Para fazer acusações genéricas contra a esquerda é preciso ter moral. E quem faz isso responde a inquéritos por tortura de criança e extorsão”, disse Chinaglia.
“Não respondo um inquérito não. Respondo a mais de 40, na Justiça e na Corregedoria de Polícia do Pará”, respondeu Éder Mauro, que é policial civil. “Mas nenhum por corrupção”, completou.
“Um dos processos é por extorsão, que envolve cobrança de dinheiro”, rebateu Chinaglia.
Reportagem - Antonio Vital
Edição - Marcia Becker