Cidades e transportes

Ex-secretário de Transportes de SP defende financiamento das tarifas

Durante comissão geral no Plenário da Câmara, Lúcio Gregori diz que é preciso garantir o direito a todos. Professora da USP, Marilena Chauí afirma que desoneração de impostos de empresas de ônibus alimenta lucro de cartéis.

09/07/2013 - 11:44  

Gabriela Korossy / Câmara dos Deputados
Comissão geral para discutir a política tarifária do transporte coletivo municipal de passageiros. Ex-secretário de Transporte de São Paulo, Lúcio Gregori
Lúcio Gregori considera que quem tem mais deve pagar mais para financiar o transporte.

O ex-secretário municipal de transportes de São Paulo Lúcio Gregori defendeu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 90/11, da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que inclui o transporte no grupo de direitos sociais. “Só um processo de financiamento das tarifas é garantia para exercer esse direito por todos. Paga mais quem tem mais, menos quem tem menos, e não paga quem não tem”, afirmou Gregori, que participou da gestão de Erundina na prefeitura da capital paulista (1989-1992).

Durante comissão geral no Plenário da Câmara, ele afirmou que um transporte público de qualidade custará muito caro e será inacessível se não houver forte financiamento das tarifas. Gregori criticou o modelo atual de concessões de transporte público que cria, de acordo com ele, “feudos ou capitanias” em estados e municípios. “Empresas por mais de 80 anos operam no mesmo estado ou metrópole. A cartelização com concessões ad infinitum resulta em falta de competitividade.”

Gregori disse que as isenções tributárias feitas pelos governos é uma contradição com a necessidade de se financiar o transporte público. “Seria muito mais sensato aumentar as receitas do Estado por reforma justa”, defendeu.

Para aplicar a PEC da mobilidade urbana como direito social, Gregori sugeriu a criação do Código Nacional de Desempenho de Transporte Coletivo. “Assim como temos meta de inflação, temos de ter o código”, afirmou. Esse código traria exigências como câmbio automático e ar-condicionado para ônibus, além da proibição de usar chassis de caminhão para ônibus. “Isso [estrutura de caminhão] é para porco e não para gente. Eu não gosto de ser tratado como porco.”

Gabriela Korossy / Câmara dos Deputados
Comissão geral para discutir a política tarifária do transporte coletivo municipal de passageiros. Professora titular do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, Marilena de Souza Chauí
Para Marilena Chauí, modelo atual de transporte reflete sociedade oligopólica e autoritária.

Sociedade vertical
A professora de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Marilena Chauí disse que a lógica atual do transporte público no País reflete a sociedade brasileira “autoritária, oligopólica, vertical, que opera sob a forma do favor, da tutela e que não cria espaço público republicano”.

Segundo ela, as metrópoles atuais dividem-se em um centro privilegiado e uma periferia excluída, sem direito a nada. Marilena Chauí também criticou a desoneração de impostos para empresas de ônibus. “Não podemos continuar a defender esses carteis e alimentar seu lucro indiscriminado.”

O debate sobre a política de transporte público prossegue no Plenário.

Continue acompanhando essa cobertura.

Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Marcos Rossi

A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura 'Agência Câmara Notícias'.