Aracruz Celulose é alvo de graves denúncias
07/05/2003 - 18:26
A Comissão de Direitos Humanos ouviu hoje várias denúncias à empresa Aracruz Celulose, acusada de promover envenenamento de seus funcionários e destruição do meio ambiente no Norte do Espírito Santo, em decorrência do uso indiscriminado de herbicidas. A empresa não enviou representante para a audiência, apesar de a Comissão ter enviado convite com 30 dias de antecedência.
A Aracruz é uma multinacional que atua na região há 30 anos com monocultura de eucalipto para a produção de celulose.
CALAMIDADE
O representante da Federação dos Órgãos para a Assistência Social e Educacional, Marcelo Calazans, disse que nesses 30 anos de permanência da empresa no Espírito Santo tem sido verificada situação de calamidade na região, especialmente nos municípios litorâneos do Norte, em função do modo de produção arcaico e depredatório adotado pela empresa.
Ele criticou ainda o fato de que o Governo, por meio do BNDES, emprestou R$ 840 milhões para a construção de uma terceira fábrica de celulose no Espírito Santo, que vai gerar apenas 173 empregos diretos.
Na opinião de Calazans, o Estado tem sido conivente com a política da Aracruz. Segundo afirmou, 96% do que é produzido são destinados para a exportação na América do Norte, Ásia e Europa. A empresa produz dois milhões de toneladas de celulose branqueada por ano, provocando depredação no meio ambiente pelo uso de agrotóxico, contaminação dos trabalhadores e rios destruídos.
CONTAMINAÇÃO DE TRABALHADORES
De acordo com o representante do Movimento dos Pequenos Agricultores, Derly Cazali, milhares de trabalhadores estão contaminados e três crianças morreram. Elas tiveram contato direto com embalagens de veneno largadas pela empresa embaixo de árvores. Cazali afirmou que a empresa explora os agricultores da região a partir de contratos de trabalho prejudiciais. Ele garantiu que os agricultores que plantam eucaliptos são obrigados pela Aracruz a usar agrotóxicos.
O representante dos agricultores apresentou dados demonstrando que a empresa de celulose está tomando conta de toda a área do estado do Espírito Santo em detrimento de plantação de outras culturas, como a do café, cuja produção foi reduzida pela metade depois da chegada da Aracruz Celulose.
Cazali destacou que, enquanto o café gera mais de 200 mil empregos diretos, a Aracruz gera apenas 4.800 empregos.
O depoente criticou o Governo anterior por ter repassado R$ 1 bilhão para a Aracruz no ano passado a título de empréstimo, enquanto para a agricultura familiar do País inteiro foram disponibilizados, no mesmo período, R$ 600 mil. "Plantação de eucaliptos não é alimento e o estado, que tem sido tão conivente com essa empresa, precisa repensar essa postura", afirmou.
MASSACRE DE FUNCIONÁRIOS
O representante dos ex-trabalhadores mutilados da Aracruz Celulose, Jair Alves de Lima, que trabalhou na empresa durante 17 anos, afirmou há pouco na audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, Meio Ambiente e Minorias que nunca tinha visto tantos trabalhadores morrerem em uma empresa como viu durante o período em que trabalhou na Aracruz. De acordo com ele, o que ocorria lá "era um verdadeiro massacre, morriam trabalhadores embaixo de tratores, amassados por árvores quando da derrubada das mesmas e, principalmente, contaminados por agrotóxicos e benzina".
O ex-trabalhador informou que a empresa tem capatazes armados e que os empregados, ainda que não concordem, são obrigados a assinar avisos prévios para a demissão.
Segundo Jair Lima, muitos trabalhadores entraram com ações na Justiça contra a empresa e os processos sumiam ou ficavam parados. Ele assegurou ter conhecimento de que 1.079 ações estão paradas na esfera judicial.
O representante dos ex-trabalhadores mutilados da Aracruz garantiu que os funcionários que se acidentavam no trabalho nunca recebiam indenizações.
AMEAÇAS DE MORTE
Lima disse também que, após ter denunciado a empresa, sua casa foi metralhada e passou a receber ameaças de morte. Em função disso, o ex-trabalhador mandou a família toda para Minas Gerais, apesar de ainda estar morando sozinho no Espírito Santo.
O representante da comunidade dos quilombolas, Domingos Firmiano dos Santos, que falou à Comissão ntes do ex-trabalhador, informou que atualmente 70% do território onde mora estão ocupados por eucaliptos. Neste momento, está com a palavra o representante da Secretaria especial de Direitos Humanos, Perry Cipriano.
GOVERNO VAI REAGIR
O representante da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Perry Cipriano, afirmou que todas as denúncias serão analisadas durante reunião amanhã, às 10 horas, na Secretaria de Direitos Humanos. Estarão presentes representantes de diversos ministérios, da Polícia Federal, Funai, Secretaria de Igualdade Racial, Fundação Palmares, Ministério Público e INSS.
De acordo com Cipriano, o Governo pretende, a partir de amanhã, agir de maneira articulada com todos os órgãos que foram convidados para a reunião. Em uma próxima etapa, vão procurar a empresa para que ele se explique com relação às denúncias. "Não adianta um técnico ir isoladamente, é preciso que a ação seja articulada". Enquanto o INSS vai verificar se a empresa está fazendo o recolhimento corretamente, a Polícia Federal vai apurar a possível existência de guarda armada.
O deputado Fernando Gabeira (PT-RJ) sugeriu que a Comissão de Direitos Humanos constitua uma comissão externa para investigar a empresa in loco e cobrar soluções. Caso não haja resultados, Gabeira propõe que a Comissão faça uma campanha internacional denunciando as irregularidades cometidas pela multinacional.
Por Mauren Rojahn/PR
(Reprodução autorizada mediante citação da Agência)
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