Mulheres de Palavra

Oficina da Câmara quer conscientizar e ressaltar papel da mídia no combate à violência política de gênero

28/05/2026 - 08h00

  • Entrevista: Jornalistas Cristiane Bernardes e Thaís Fascina

A escola da Câmara sediou, na última terça-feira (26), uma oficina sobre o papel da imprensa e dos comunicadores na conscientização e no enfrentamento da violência política contra mulheres. Participaram jornalistas e influenciadores de vários estados do brasil e do Distrito Federal.

A formação foi promovida pelo Observatório Nacional da Mulher na Política da Câmara dos Deputados, dentro da campanha “Políticas Seguras nas Redes”, realizada em parceria com a delegação da União Europeia no Brasil e com apoio institucional da ONU Mulheres.

A jornalista Cristiane Bernardes diz que a violência política contra as mulheres “é um fenômeno multifatorial, que demanda variadas estratégias para seu enfrentamento”. Segundo ela, “a oficina ministrada na última terça, na Escola da Câmara, é uma iniciativa que já estava em nossos planos há bastante tempo, porque entendemos que o letramento de gênero é uma das formas mais eficazes de prevenir a violência política contra as mulheres”.

Cristiane afirma que os veículos de mídia, os jornalistas e os influenciadores digitais “têm um papel essencial, em termos de visibilidade para a pauta, para o debate das soluções e da conscientização da sociedade para o problema”.

Cristiane Bernardes diz que o principal objetivo da campanha “Políticas Seguras nas Redes” é conscientizar a opinião pública brasileira sobre a importância de enfrentar o aumento acelerado da violência política, especialmente nos ambientes digitais em um ano eleitoral.

“Dentro da campanha, desde o ano passado estamos desenvolvendo oportunidades de intercâmbio entre as parlamentares brasileiras e europeias”, afirma Cristiane. “E disseminando pesquisas sobre a legislação e as boas práticas de casas legislativas nos dois contextos, sobre a cobertura noticiosa da atuação feminina na política e sobre os discursos que circulam nas mídias sociais sobre as parlamentares, além de estimular o debate entre assessores, jornalistas, influenciadores sobre o assunto”.

A jornalista Thaís Fascina, pesquisadora de violência política de gênero contratada pela delegação da União Europeia, que ministrou a oficina, diz que “o tema da violência política é urgente”. Ela afirma que o tema surgiu recentemente, por volta de 2018, com a morte a vereadora Marielle Franco.

Thaís questiona o papel da imprensa na cobertura de casos de violência política de gênero. “Precisamos pensar como melhorar essa cobertura. Ninguém nasce sabendo”, prega. A jornalista diz que a circulação da informação e a divulgação dos casos ajudam no combate à violência política de gênero.

Ela afirma que a vítima, muitas vezes, acaba sendo mais exposta do que o próprio agressor. “A imprensa também coloca a denúncia como uma versão, e não como um crime”. Thaís também diz que não se pode noticiar cada caso como “algo isolado”. “A violência é um recado para todas as mulheres, de que esse espaço (político) não pertence a elas”, diz. “É algo que está enraizado no Brasil e no mundo”.

Na opinião de Thaís Fascina, “não se pode falar em democracia plena sem a participação política das mulheres”. Ela lembra que as mulheres compõem 53% da população brasileira, mas representam apenas 20% da Câmara e do Senado. A jornalista cita países como México e Equador, que aprovaram a paridade na representação parlamentar. “Lá, são 50% de homens e 50% de mulheres”, diz.

Thaís Fascina afirma que, quando eleitas, as mulheres enfrentam outro problema: a inviabilidade. Ela chama a atenção para o fato de que mulheres não estão em papéis de liderança nem presidindo comissões importantes do parlamento. “São várias as ações neste sentido: desqualificação e deslegitimação da mulher, assédio, ameaças de estupro e de morte, empurrões e até corte do microfone”, enumera. “Faz parte deste discurso dizer que a mulher é burra ou que deveria estar em casa, cuidando dos filhos”.

Cristiane Bernardes diz que a oficina conseguiu reunir um grupo qualificado de comunicadores e formadores de opinião para promoção de uma mudança cultural importante. Segundo ela, também provocou “uma reflexão sobre como as nossas percepções culturais e crenças impactam no exercício da democracia”.

Segundo ela, a campanha deve entrar no ar nas mídias sociais da Secretaria da Mulher, da Câmara dos Deputados, da delegação europeia e da ONU Mulheres nos próximos dias. “Haverá também o lançamento de um hotsite com os materiais produzidos para quem quiser divulgar em suas redes sociais e instituições, sem nenhum custo”.

Para o ano que vem, explica Cristiane, haverá um seminário internacional com especialistas e parlamentares, para discutir soluções e iniciativas de prevenção da violência política.

Apresentação: Mauro Ceccherini 

Coluna semanal sobre direitos das mulheres em debate na Câmara e na sociedade. Uma parceria da Rádio Câmara com o Observatório Nacional da Mulher na Política.

Quinta-feira, às 8h, no programa Painel Eletrônico. Reprise em 4 horários: sexta, às 18h; segunda, às 11h; terça, às 22h45; e quarta, às 6h. Mande sua sugestão pelo WhatsApp: (61) 99978.9080.