11/06/2018 19:35 - Educação
Radioagência
Câmara reconhece funk como manifestação cultural popular digna do cuidado e proteção do Poder Público
Você está escutando o funk mais ouvido do mundo na história da plataforma de streaming de músicas Spotify. E Anitta é também a representante do funk brasileiro mais escutada fora do Brasil em 2017 e 2018, segundo dados do próprio Spotify, que tem 170 milhões de usuários espalhados por 65 países.
De acordo com a plataforma, o consumo de playlists de funk brasileiro aumentou 3 mil e 400 por cento fora do País nos últimos dois anos. Se o Brasil for incluído, o aumento no consumo de funk foi de 4 mil e 700 por cento.
O gênero tem suas raízes no Brasil da década de 1970, a partir do funk dos Estados Unidos, com expoentes como James Brown e influências do jazz e de ritmos africanos. Já na década de 1980, o som eletrônico de DJs comandava os bailes nos subúrbios do Rio de Janeiro. E os concursos de rap entre os frequentadores dos bailes na década de 1990 ajudaram a disseminar o gênero.
MC Marcinho, autor de Glamurosa, começou a carreira nesse momento.
"Eu comecei com o funk em 1994, na época de festivais de rap. O funk veio com uma força muito grande aqui no Rio de Janeiro. E existiam os festivais de galera, com as equipes de som, e eu fui numa dessas festas e vi a caravana da Furacão 2000, que na época existiam vários MCs, já cantavam, fiquei encantado, falei, 'ah, vou fazer uma letra e vou tentar'."
Na mesma época, outro adolescente se inscrevia em uma série de concursos, ganhando a maioria deles. MC Leonardo é autor, junto de seu irmão, MC Junior, do "Rap das Armas", que, apesar de ser de 1995, ganhou mais projeção após ser incluída no filme Tropa de Elite, de 2007. Leonardo afirma que o funk mudou sua vida, e luta até hoje para que o gênero seja reconhecido como patrimônio cultural. Segundo ele, é preciso garantir proteção para que os bailes funk, alvo de perseguição especialmente no Rio de Janeiro, não sejam extintos.
E é justamente isso o que busca fazer uma proposta aprovada pela Câmara (PL 4124/08), que reconhece o funk como manifestação cultural popular digna do cuidado e proteção do Poder Público. O texto assegura aos artistas do funk o respeito aos seus direitos e ao movimento funk a livre realização de suas atividades e de manifestações como festas, bailes e reuniões.
Para MC Leonardo, a proposta é um instrumento de mudança.
"O baile funk vai acontecer, agora a gente vai discutir como. O problema é que o Estado, com a sua polícia, não acha que o funk tem problema, ele acha que o funk é o problema. A gente não precisa de incentivo de dinheiro, a gente precisa de proteção. O baile funk é um espaço cultural e tem que ser respeitado como tal. Tem que sair da pasta da Segurança Pública e ir pra pasta do Ministério da Cultura, da Secretaria da Cultura. O lugar do funk é aí."
Mas apesar da aprovação da proposta na Câmara não significa que o funk não continue sendo muito mal visto por uma parcela da sociedade. No ano passado, o morador de São Paulo Marcelo Alonso apresentou uma ideia legislativa ao Senado, pela ferramenta E-Cidadania. A ideia era criminalizar o funk como crime de saúde pública contra a criança, os adolescentes e a família. Por ter recebido mais de 20 mil apoios, a ideia chegou a ser debatida pela Comissão de Direitos Humanos da outra Casa legislativa, mas foi rejeitada.
A página Funk é um Lixo, do Facebook, tem mais de 260 mil seguidores. Um dos administradores da página, Arthur Satheler acredita que funk é "cultura da bandidagem".
"Um dos meios de se demolir a sociedade é minando suas culturas e sua moral. E o funk faz isso. É uma exploração de sexualidade, uma disseminação do mau gosto, uma influência bárbara. Funk faz apologia ao estupro, às drogas, ao crime."
Tanto para MC Marcinho como para MC Leonardo, o funk sofre perseguição por uma série de motivos, alguns principais. Você ouve primeiro Leonardo, em seguida, Marcinho:
"Fundamentalmente é o racismo, né. É um som que tem realmente a sua característica negra e favelada."
"Incomoda muita gente, né. É um som que vem da periferia, que vem da classe baixa, vem do favelado, muitas das vezes."
O autor da proposta aprovada na Câmara, deputado Chico Alencar, do Psol do Rio de Janeiro, afirma é preciso garantir o espaço do funk na cultura brasileira.
"Eu cada vez me convenço mais de que o funk é uma expressão popular e artística de alto valor. E aqui quem fala e quem faz o projeto é alguém que não vem dessa escola, dessa cultura e nem é meu ritmo predileto. O funk que defendemos é aquele que foi reconhecido, um hit, que diz 'Eu só quero é ser feliz, viver tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar, que o pobre tem seu lugar'".
A proposta que reconhece o funk como manifestação cultural popular digna do cuidado e proteção do Poder Público já passou pelas comissões da Câmara, mas ainda precisa ser analisada pelo Senado.








