02/06/2016 20:23 - Saúde
Radioagência
Médica critica tendência em classificar microcefalia como má-formação do crânio
A médica Vanessa van Der Linden, que acompanhou o início da epidemia de microcefalia no Brasil, criticou, nesta quinta-feira (02), a tendência de classificar a doença apenas como uma má-formação do crânio dos bebês. Ela debateu o tema em reunião da comissão externa da Câmara que acompanha iniciativas do governo contra o Zika vírus. Segundo a médica, as crianças com a síndrome enfrentam outras complicações, como a alta irritabilidade (algumas crianças choram muito), a epilepsia, a redução na visão e problemas digestivos.
Van Der Linden comanda a equipe médica da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) de Recife, em Pernambuco, estado com 358 casos confirmados de microcefalia. Para a médica, o tratamento deve privilegiar a reabilitação caso a caso, para evitar que o diagnóstico de má-formação da cabeça, por si só, defina o futuro dessas crianças.
"Uma criança que não se alimenta bem, ela pode engasgar e ter complicações, uma criança que é durinha, se eu não trato, se eu não alongo, se não faz fisioterapia ela vai ter deformidades que doem, como deformidade no quadril ou nos pés e, lá na frente, ela não vai nem conseguir sentar direito. Então, a reabilitação tem dois objetivos: estimular um potencial que existe e melhorar a qualidade de vida para as crianças que estão em quadro grave."
Já a coordenadora Geral da Saúde da Pessoa com Deficiência, Vera Lúcia Mendes, chamou atenção para a necessidade de dar suporte psicológico às famílias.
"Quantos abandonos e desestruturações familiares a gente poderia ter prevenido se esta mãe, mesmo antes de saber (da microcefalia), pudesse conversar e receber suporte? Então tem um trabalho importante da atenção básica, dos fonos, dos fisios (fisioterapeutas), de vários profissionais, das equipes médicas, pediatras, neuros (neurologistas), ou seja, é uma força tarefa grande. A gente tentou mobilizar toda a rede SUS."
A deputada Carmen Zanotto (PPS -SC), ((uma das que solicitou o debate)), reconheceu a importância do trabalho do Ministério da Saúde, mas disse que é preciso redobrar a atenção quanto ao cumprimento das normas.
"Uma coisa é o que está no conteúdo do papel, outra é aquilo que efetivamente acontece lá na base, lá no município que é onde a gente têm as pessoas que precisam dessa assistência, em especial neste momento, nesta epidemia do Zika."
Durante a audiência na comissão externa que acompanha as ações contra o Zika vírus, a diretora do Departamento de Proteção Social Básica do Ministério do Desenvolvimento Social, Maria Helena Tavares, avaliou como efetiva a ajuda dada pelo governo às famílias com bebês portadores de microcefalia. Hoje, a família com renda de, no máximo, 220 reais por pessoa têm direito a um salário mínimo, ou seja, R$ 880, por mês. Para a médica pernambucana Vanessa Van Der Linden, porém, o valor não é suficiente e as regras podem excluir muitas famílias. É o caso daquelas formadas por pai e mãe, com renda de um salário mínimo, e que aguardam o primeiro filho.








