26/11/2025 19:42 - Segurança
Radioagência
Estudo apresentado na Câmara mostra que mulheres negras são maior parte das vítimas de feminicídio no país
ESTUDO APRESENTADO NA CÂMARA MOSTRA QUE MULHERES NEGRAS SÃO MAIOR PARTE DAS VÍTIMAS DE FEMINICÍDIO NO PAÍS. A REPÓRTER MARIA NEVES TEM OS NÚMEROS.
Dez anos depois da promulgação da Lei do Feminicídio, em 2015, o registro de morte de mulheres em função do gênero cresceu 176%. Passou de 527 casos no primeiro ano para 1.455 em 2024.
Ainda segundo o estudo, das mulheres assassinadas nesse período de dez anos unicamente por serem mulheres 68% eram negras. Além disso, os dados apontam que, enquanto o feminicídio de mulheres brancas apresentou leve declínio, esse tipo de violência aumentou entre as pretas e pardas.
Os dados fazem parte da pesquisa "Quem são as mulheres que o Brasil não protege?” apresentada na Câmara dos Deputados como parte das atividades dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra Meninas e Mulheres.
Como ressaltou a especialista em gênero Jackeline Ferreira Romio, da Fundação Friedrich Ebert, que realizou o estudo, esses números mostram que as políticas para contenção da violência contra mulheres precisam levar em conta raça e classe.
“Existem populações que estão muito vulnerabilizadas e sofrem de violências múltiplas, e isso impacta em eventos extremos como a mortalidade por feminicídio. Para que essa política chegue às mulheres negras, as políticas precisam ser interseccionais, considerar a relação entre o racismo e a violência de gênero. Então, se não tivesse o racismo institucional, aqui a gente não ia ver essa concentração de 70%.”
Jackeline Romio destacou ainda que esses números da segurança pública são subestimados, porque nem todas as mortes violentas de mulheres são investigadas. Segundo a especialista, os dados da saúde mostram que entre 3 mil e 500 e 4 mil mulheres morrem por causas violentas no Brasil todos os anos. Destas, estima-se que em torno de 2 mil e 500 sejam vítimas de feminicídio.
“No Brasil a gente tem uma epidemia de feminicídios, porque quando vai cruzar com os dados da saúde, que são maiores, chega a dar 10 por cada 100 mil mulheres, e isso é quando se começa a registrar uma epidemia.”
O Brasil já assumiu o primeiro lugar em número absoluto de feminicídios na América Latina e no Caribe. Segundo Jackeline Romio, 11 mulheres morrem por dia na região em função do gênero, quatro são brasileiras.
Na opinião da coordenadora no Projeto Reconexão Periferias, Bárbara Martins, o problema do Brasil hoje não é a falta de leis, mas de protocolos administrativos para combater violência de gênero e raça.
“O artigo 37 da Constituição dispõe que a administração pública deve ser eficiente e organizada. E quando ela não é, ela se torna inconstitucional. Então a gente está falando aqui de uma violação da Constituição a partir do não comprimento dos protocolos administrativos que dispõem a Lei de Feminicídio.”
Bárbara Martins defendeu a necessidade de responsabilizar o Estado brasileiro por não adotar os protocolos necessários para combater a violência de gênero, especialmente com o recorte racial.
A secretária da Mulher na Câmara, deputada Jack Rocha (PT-ES), afirmou que estuda a elaboração de um projeto de lei para responsabilizar por improbidade administrativa gestores públicos que deixarem de aplicar o orçamento destinado a reduzir desigualdades de gênero e de raça.
“É difícil colocar uma emenda dessas numa Lei de Responsabilidade Fiscal, mas nós precisamos começar a discutir esse olhar de economia e formação de orçamento para a redução das desigualdades, e combater a violência só não do ponto de vista de julgamento das medidas protetivas e do âmbito da violência, mas, enquanto cidadãs sujeitos de direito.”
A apresentação da pesquisa "Quem são as mulheres que o Brasil não protege?” foi realizada na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher em Parceria com a Secretaria da Mulher.
Da Rádio Câmara, de Brasília, Maria Neves








