05/11/2025 19:44 - Cultura
Radioagência
Movimentos periféricos reivindicam aprovação de lei nacional de fomento à cultura da periferia
MOVIMENTOS PERIFÉRICOS REIVINDICAM APROVAÇÃO DE LEI NACIONAL DE FOMENTO À CULTURA DA PERIFERIA. O ASSUNTO FOI DEBATIDO NA CÂMARA, E A REPÓRTER MARIA NEVES ACOMPANHOU.
Representantes de movimentos culturais periféricos reivindicaram, em audiência pública na Câmara dos Deputados, a aprovação de uma lei nacional de fomento à cultura da periferia. Como explicou a representante do Movimento Cultural das Periferias Andressa Lima de Souza, a cidade de São Paulo conta com uma lei semelhante desde 2016. Mas ainda é o único caso no país.
De acordo com o representante do Bloco do Beco, um coletivo cultural da periferia de São Paulo, Allan Anjos Dantas dos Santos, atualmente quase nada dos recursos das leis de fomento à cultura chega às regiões mais pobres. Allan dos Santos relatou que uma pesquisa realizada pelo Bloco do Beco em parceria com a Universidade Federal do ABC mostrou que 33% das verbas captadas por meio da Lei Rouanet ficam concentradas em São Paulo.
Esse porcentual, segundo o ativista, correspondeu a 1 bilhão de reais em 2024. Desse total, apenas 1% teria sido destinado a projetos periféricos.
“Então, o que estão mostrando esses dados? Que basicamente a lei Rouanet está reproduzindo em desigualdades históricas. O que acontece, basicamente, é uma inversão do que é a política pública. É, basicamente, uma lógica contrária, de reforçar desigualdades históricas.”
Ainda de acordo com Allan dos Santos, somente a região de Pinheiros, na capital paulista, faz captação de recursos da Lei Rouanet em valor igual ao que é destinado às regiões Norte e Nordeste juntas.
O assessor do Ministério da Cultura Lindivaldo Olveira Leite Júnior defendeu a estruturação do Sistema Nacional de Cultura. De acordo com ele, essa é uma oportunidade de condicionar a destinação de recursos a critérios relacionados a ações afirmativas e participação social. Para isso, no entanto, ressaltou ser fundamental a mobilização popular.
“Infelizmente, parte dos municípios, dos estados, tem dificuldade com a participação social. E a gente precisa dessa relação com a sociedade, com movimentos fortes, importantes, como o movimento cultural das periferias, e o conjunto dos movimentos culturais brasileiros, para nos ajudar a impulsionar a participação social no território, para o uso do recurso da política nacional Aldir Blanc, e também para a gente avançar nas políticas de fomento.”
Outro representante do Movimento Cultural das Periferias, Fernando Ferrari de Souza, inclusive, sustentou que a lei da cidade de São Paulo só foi aprovada por pressão dos movimentos sociais. O deputado Alfredinho (PT-SP), que era vereador na época da aprovação da lei, concordou que ela foi resultado da pressão popular, e acredita que, com mobilização, a lei nacional também pode ser aprovada.
“Eu participei da aprovação da lei de fomento à periferia, e que essa galera aqui fez um movimento danado. Nós não tínhamos uma maioria com folga, era uma maioria muito apertada, momentânea, às vezes, mas a pressão popular da militância da cultura fez com que a maior parte dos vereadores votasse favorável à lei, foi aprovada. Então, a luta, ela nunca acaba, mas eu acho que aqui, com referência a essas leis criadas, dá para se construir aqui uma lei de política de fomento nacional muito importante para o Brasil como todo.”
Também integrante do Movimento Cultural das Periferias, Pablo Paternostro destacou que dados divulgados no dia 31 de outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que mais de 8% da população brasileira vivem em favelas. Para o ativista, ao elaborar em uma lei voltada à cultura periférica é preciso pensar em integração com outras áreas, como com educação, direitos humanos e meio ambiente.
O fundador do Museu da Cultura Hip Hop do Rio Grande do Sul, Rafa Rafuagi, também considera essa integração com outras áreas fundamental. Ele lembrou que, dessa forma, o setor cultural poderia, inclusive, ter acesso a recursos de fundos setoriais. Segundo disse, hoje só o fundo de direitos difusos, por exemplo, conta com 600 bilhões de reais parados. Além disso, defendeu que seria possível acessar verbas do Ministério Público do Trabalho, que girariam em torno de 1 bilhão de reais por ano.
Da Rádio Câmara, de Brasília, Maria Neves








