Reportagem Especial

Especial Consumo 3 - A oneomania e os tratamentos disponíveis. (07'56")

Publicação: 15/09/2008 - 00:00

  • Especial Consumo 3 - A oneomania e os tratamentos disponíveis. (07'56")

NO ÚLTIMO PROGRAMA SOBRE O CONSUMISMO VAMOS FALAR DO MOMENTO EM QUE OS GASTOS PERDEM O CONTROLE E TORNAM-SE UMA DOENÇA, A POUCO CONHECIDA ONEOMANIA. VAMOS FALAR AINDA DOS GRUPOS DE APOIO PARA OS DEVEDORES ANÔNIMOS, QUE ATUAM EM DIVERSOS ESTADOS E DO TRATAMENTO OFERECIDO NO HOSPITAL DAS CLÍNICAS EM SÃO PAULO.

Quando o consumo deixa de ser uma parte de nossa vida para se tornar o objetivo dela, existe o que os psicólogos chamam de oneomania. A psicóloga Tatiana Filomensky trabalha no Ambulatório de Transtornos do Hospital das Clínicas de São Paulo e todos os dias lida com pacientes que sofrem de oneomania, que é mais conhecida pelo nome de Transtorno do Comprar Compulsivo, TCC. Segundo definição do dicionário Aurélio oneomania é um "desejo mórbido, impulsivo, de fazer comprar e adquirir coisas".

Para a Doutora Tatiana, a maior dificuldade de quem sofre com essa doença é admitir o problema, uma vez que na sociedade atual, consumir, mesmo que em excesso, se tornou uma atitude normal.

"São pessoas que elas têm um descontrole com as compras, elas sentem uma vontade de comprar algo que é sentido como irresistível realmente intrusivo, algo invasivo no dia-a-dia delas. Sente vontade de comprar a todo momento, quando vai comprar acaba ficando mais tempo comprando do que pretendia ficar. Pessoas que compram itens desnecessários , compram frequentemente o que elas não podem pagar acabam tendo dívidas ou falências por conta dessas dívidas. Muitas vezes a compra em si ela acontece não por uma necessidade, na maioria das vezes não tem uma necessidade e sim é uma necessidade emocional. Então é um alívio de um sentimento de frustração, de emoções ruins, pra alívio de ansiedade de sentimento de depressão."

Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de um por cento da população mundial sofre dessa doença. No Brasil, pesquisas da Universidade de São Paulo mostram que os oneomaníacos chegam a três por cento da população e quem mais tende a manifestar a compulsão são as mulheres, os jovens e, recentemente, os internautas.

O estudo foi feito com base nos artigos científicos sobre o transtorno do comprar compulsivo publicados nos últimos 40 anos. O trabalho, que será publicado na próxima edição da Revista Brasileira de Psiquiatria, menciona que o elemento chave da oneomania é a impulsividade. Suas vítimas, chamadas de oneomaníacos, de maneira geral não conseguem evitá-la e em sua maioria são mulheres. Mesmo os que têm uma boa formação acadêmica apresentam dificuldades para perceber as conseqüências de sua compulsão. As preocupações e os impulsos da pessoa se voltam ao ato de comprar. A psicóloga Tatiana alerta que isso causa sofrimento, consome muito tempo, interfere no comportamento social ou ocupacional e ainda resulta em problemas financeiros como o endividamento ou falência.

"Ele compra essa semana e ele comprou, três, quatro blusas, na semana seguinte já tá comprando duas, três calças e na outra semana ele compra três, quatro blusas de novo. Não tem essa noção do já passou, esse mês eu já gastei o quanto eu podia gastar comprando, já comprei coisas pra mim esse mês, não, é sempre, uma constância tanto que a gente chama como uma dependência do comportamento é muito similar à dependência de substâncias: quanto mais você usa, mais você vai tolerando seu organismo e mais você vai usando, aumenta a quantidade, aumenta a freqüência, aumenta a intensidade."

A vítima do TCC pensa tanto em como conseguir dinheiro para comprar que não se concentra no trabalho, passa muito tempo comprando, buscando crédito, pagando dívidas, sonhando com itens que quer comprar, ou culpando-se por ter comprado itens desnecessários, e negligencia família, profissão e tudo mais.

Quem suspeita sofrer do transtorno do comprar compulsivo deve procurar um profissional de saúde mental treinado para diagnosticar e tratar compras compulsivas e outros transtornos do impulso como comer e jogar, por exemplo.

Os Devedores Anônimos é um grupo de apoio e ajuda a pessoas oneomaníacas inspirado nos Alcóolicos Anônimos. O grupo existe no Brasil desde 1997 e tem participantes nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Ceará. Nas reuniões semanais, os DA trocam experiências e têm acesso a apostilas e literatura em geral sobre a doença. O grupo segue doze tradições, doze passos e doze promessas, baseados no programa de recuperação dos AA e de outras irmandades anônimas.

Há quatro anos seu Walter participa do grupo cearense. Ele nos conta que tomou essa decisão depois que presenciou o suicídio de dois dos seus colegas de trabalho, envolvidos em dívidas que não conseguiam saldar.

"As pessoas chegam simplesmente quando a dor está insuportável. Geralmente o problema do dinheiro, da compra, das complicações financeiras tá ligado à muita dor emocional, à muita falência emocional, muita dor interior."

Seu Walter destaca ainda que os jovens atendidos no grupo têm em comum famílias disfuncionais e falta de orientação financeira o que leva diante do apelo do consumo da sociedade atual, a que esses jovens percam o controle sobre seus gastos.

"Os grupos de mútua ajuda eles dão uma vivência extraordinária porque é a própria pessoa que vai se reconstruir. Ninguém pode mudar o dependente sem ele propor. O dependente que tem obsessão mental, que tem a compulsão ele só pode resolver seu problema através do auto-conhecimento. E esse auto-conhecimento não é apenas racional, cognitivo não é emocional, é espiritual. Ele tem que sentir. E como é que ele vai sentir? Pelo desmascaramento. E como é que ele vai se desmascarar? Ouvindo outras pessoas. Funciona como uma sala de espelhos, lá ninguém aponta ninguém como doente. Ninguém tem consulta, ninguém tem receita, ninguém tem conselhos, ninguém protege não. Eu conto a minha história, falo da minha dor, falo da minha angústia e jogo aqui e pronto é isso que é."

Para quem sofre com a doença, organização financeira é fundamental. Saber o quanto se ganha e o quanto se gasta, anotar os custos e fazer planilhas são atitudes que devem ser adotadas pelos oneomaníacos que querem sair das dívidas - e não voltarem mais a elas.

Para o publicitário Rafael Porto do Grupo de Pesquisas Consuma da Universidade de Brasília, é um distorção chamar de doença os gastos compulsivos e o conseqüente endividamento. Na sua opnião, tudo não passa de falta de organização financeira.

"O problema da maior parte das pessoas é fazer um controle por mais que seja um controle mais básico, mas adotar algum tipo de controle financeiro. E nesse sentido não é classificado com uma doença e sim como uma falta de controle financeiro."

O publicitário afirma que a melhor forma de solucionar o problema é fazer um planejamento orçamentário, mesmo que seja simples, com as despesas fixas e com as prestações adquiridas. Outra forma de contornar o problema é usar o bom senso e pensar duas vezes antes de adquirir um produto.

De Brasília, Karla Alessandra

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