Agropecuária

Técnicos apontam problemas para transposição de rio

08/05/2007 - 22:17  

O desmatamento e a agricultura baseada, principalmente, no uso intensivo de água têm causado sérios problemas ao rio São Francisco, como o assoreamento e o desbarrancamento ao longo de suas margens, o que pode inviabilizar a transposição. Esse diagnóstico foi apresentado por especialistas nesta terça-feira, em audiência pública na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Andréa Zellhuber, assessora técnica da Articulação Popular para a Revitalização do São Francisco, mostrou dados de uma pesquisa feita em 2005 com 311 instituições representativas da população ribeirinha do São Francisco. Segundo ela, o rio hoje sofre os impactos não apenas da mineração ou da poluição por esgoto, que atinge 93% dos municípios. O uso de pivôs centrais, a monocultura e o desmatamento das regiões de cerrado ao longo da bacia também causam sérios impactos, alertou.

Segundo ela, 70% da água que abastece o São Francisco vêm de regiões de cerrado, bioma reduzido a cerca de 40% de sua cobertura original. Para a técnica, nas atuais condições da bacia do São Francisco não é possível falar em transposição. "Seria um enorme erro fazer a obra diante desses problemas. O principal objetivo da transposição é criar mais projetos de irrigação no Nordeste Setentrional, mas assim se repete um modelo destruidor em uma região em que talvez nem seja economicamente viável esse tipo de produção", afirmou.

A assessora técnica acrescentou que, sem o tratamento do solo, não há como despoluir o rio. "Todo o esforço de recuperação da bacia será em vão se o solo não for preservado", disse.

Uso de turbinas
A viabilidade da transposição também foi questionada pelo professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Apolo Heringer Lisboa. Segundo ele, a transposição é absolutamente inadequada. Lisboa citou estudos da Universidade de São Paulo (USP) que apontam que as turbinas das usinas hidrelétricas de Itaparica e Xingó, no São Francisco, não foram utilizadas como estava previsto devido à falta de água.

O presidente da Subcomissão Especial do São Francisco, deputado Iran Barbosa (PT-SE), ficou preocupado com essa informação. "Se não há água para movimentar as turbinas, como pode haver água para a transposição? Trata-se de um dado novo que precisa ser avaliado, antes que comecem as obras", ressaltou.

Lisboa é presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, principal afluente do São Francisco, e afirmou ainda que a construção de barragens promovida pela Companhia de Desenvolvimento do São Francisco (Codevasf) dificulta a reprodução dos peixes.

O índice de mortandade de peixes revela a qualidade da água distribuída à população, alertou Lisboa. Segundo ele, a Codevasf tem realizado estudos para construir barragens no rio das Velhas e em outros afluentes do São Francisco. "Isso [a construção de barragens] é um crime contra o País; não podemos confundir riqueza com dinheiro, pois quando um rio fica poluído é como se não houvesse água para dar à população, e a água é uma riqueza", disse o professor.

Ausência da Codevasf
Durante o debate, os participantes lamentaram que o presidente da Codevasf não estivesse presente para responder às críticas ao modelo de agricultura e de desenvolvimento defendidos pelo órgão.

Iran Barbosa informou que, embora o presidente da Codevasf não tenha podido participar, ele deverá ser convidado novamente para os próximos debates. O deputado informou que, até o fim do semestre, a subcomissão deve apresentar um relatório parcial sobre o tema. O relatório final deve sair em dezembro.

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Reportagem - Ana Raquel Macedo e Adriana Resende
Edição - Marcos Rossi

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