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Hermeto Pascoal: música para todos

04/05/2007 - 15:29  

Ele nunca foi um artista pop no Brasil. Suas músicas não são tema de novela. Mas em todo o mundo é considerado um gênio, comparado aos maiores nomes da história musical. A esposa, de 27 anos, formada em canto lírico pela Universidade de Passo Fundo, diz-se hoje uma "aprendiz de bruxo". Juntos, formam há quatro anos a inusitada dupla Chimarrão com Rapadura, e são entrevistados do programa Personalidade. São eles Hermeto Pascoal, o homem que tira música de tudo, de sintetizadores a chaleiras com água, e sua esposa e companheira de palco, Aline Morena.
Do bate-papo musical, também participaram o diretor do programa Talentos, da TV Câmara, Giovani de Souza; o jornalista Fabrício Rocha e o cineasta e professor de cinema e televisão Pedro Jorge de Castro.

Fabrício Rocha: Como você vê a sua carreira? De menino que tocava em festinhas no interior, no sertão nordestino, até ídolo da elite musical em todo o mundo?
Hermeto Pascoal: Ainda me sinto um menino, como se estivesse começando. Deus fez uma escada infinita e a deu de presente a cada um de nós. Estou subindo os degraus e vou continuar subindo. Não é preciso olhar para trás, porque a vida já é um espelho. A receita é seguir em frente e viver sempre o presente. Não queira antecipar-se ao futuro. O alicerce, que está lá atrás, trouxe-nos para o presente. A partir do presente, pode-se trabalhar bem e legal que o futuro vem tranqüilamente.

Fabrício Rocha: Aline, como é essa história de ser aprendiz de bruxo? Para você, uma musicista jovem, como está sendo aprender com alguém que é considerado gênio da música mundial?
Aline Morena: Eu me sinto no Céu. Dizem que não há Céu na Terra, mas acho que há sim. Encontrei muito mais do que eu sonhava. Sempre busquei o melhor dentro da minha área, que é a música. Sempre soube que queria ser cantora. Nem sabia que um dia poderia tocar. Hoje, estou tocando. Quando eu encontrei o Hermeto, vi que ele era muito mais do que eu imaginava, do que eu sonhava. Acho que todos os músicos gostariam de viver o que estou vivendo hoje. O que aprendi com ele até hoje, acho que levaria a vida inteira para aprender. Então, sinto-me muito realizada por conviver com ele, homem e músico.

Giovani de Souza: Hermeto, durante toda a sua carreira você teve a preocupação de ensinar aos mais jovens a encarar o mundo musical sem medo. Como é ensinar a não ter medo? A vida te ensinou isso?
Hermeto Pascoal: Justamente. Eu aprendi a andar em um carrinho de madeira com três rodas, duas atrás e uma na frente. Para andar, o bebê fica em pé e quer sentar, mas aprende a andar e anda. Acontece o mesmo com a música. No início, todos tocam um cavaquinho, um violão ou qualquer instrumento de um jeito ou de outro. Mas quando a pessoa sabe tocar, quando tem essa certeza, é diferente.

Pedro Jorge: Há pouco se dizia que o som está em todo o lugar, é só bater para ele sair. Você, por ter a pele albina, não podia ir para a roça como seus irmãos e, por isso, foi para a escola. Ali foi o seu primeiro laboratório?
Hermeto Pascoal: Justamente. O que eu fazia? Como sabia que não podia ficar muito tempo no sol, eu saía cedo. A aula começava às 9 horas. A minha paixão era sempre escutar o som de qualquer coisa: som do passarinho, do sapo, todos os sons. Eu tinha curiosidade, nasci com ela. Muitas vezes, ficava em casa, na rua ou esperava todos dormirem e saía correndo para a porta da igreja para escutar os sons que vinham de lá. Com 8 anos, achava que eram sons de almas, mas não era nada mais do que os morcegos dentro da igreja. Mas na minha visão eram sons de outro mundo. Eu não tinha medo, mas muitas crianças da minha idade tinham.

Giovani de Souza: Como você memoriza suas criações, em partitura ou em outro tipo de indicação gráfica?
Hermeto Pascoal: Eu vim a aprender teoria com 42, 43 anos de idade. Foi ótimo, pois exercitei muito, tanto viajando de ônibus quanto montado em um cavalo. Memorizava muito as coisas. Muitas coisas que ficaram na minha cabeça desde criança serviram justamente para quando tive de aprender teoria. Quando eu viajava para São Paulo, mais ou menos uma hora de ônibus, ia cantando. Dava uma gorjeta ao cobrador e dizia: "Não sou doido, não sei música, não sei escrever nem tenho gravador. Eu preciso ir cantando essa música até chegar na boate, até chegar no lugar em que eu toco". Para mim essa experiência foi bacana, porque quando aprendi teoria deslanchei ainda mais nas minhas composições.

Fabrício Rocha: Você acredita que a música pode ser uma oportunidade de inclusão social?
Hermeto Pascoal: Tudo vai depender do dom mesmo. Nós nascemos com um dom. Às vezes, muita gente se atrapalha na vida porque ainda não se descobriu. Às vezes, você nasce em uma família e a própria família atrapalha. O pai é advogado e o filho tem de tocar piano e pronto. Fica dizendo que "músico é maluco, é isso, é aquilo". Na casa da Aline, por exemplo, ninguém toca nenhum instrumento. Se ela não nascesse com um dom musical, como estaríamos tocando hoje? Ninguém bebe a mesma quantidade de água, ninguém respira a mesma quantidade de ar, a voz é diferente. Nem os gêmeos comem na mesma hora. Quando os pais são trouxas, põem eles para comer na mesma hora. Bobos, deixem os bichinhos comer à vontade! Cada um tem uma preparação, uma vocação e uma elevação espiritual também, o que as pessoas não levam a sério. Às vezes, o cara está tomando uma cachaça, fumando maconha, usando drogas, e dizem todo mundo se cura com isso, mas se esquecem de que, antes disso tudo, tem de se curar a alma da pessoa. Por quê? Como? Uma das coisas é dar comida saudável para comer e música saudável para escutar. Se a alma não está legal, se é uma música horrorosa, já se vai para as drogas.

Fabrício Rocha: Como vocês vêem essa questão da droga, que muitas vezes é ligada ao mundo artístico?
Hermeto Pascoal: Acho que os músicos americanos, não quero generalizar, e vários músicos de jazz, assim como o meu amigo Miles Davis e outros grandes músicos, como o Charles Parker e o Ray Charles - quem não assistiu ao filme dele vá assistir -, dão o exemplo do que é se acabar nas drogas na mocidade.
Quando eu cheguei aos Estados Unidos, em 1970, entrei num estúdio e vi só fumaça. Quando entrei, senti um cheiro de casca de onça queimando. Claro que era maconha, um monte de coisa. E eu, sem querer, sem usar nada, respirando aquilo, dei uma corrida para fora depressa e fiquei esperando a minha vez de entrar. E avisei logo: "Não posso entrar ali. Se eu já sou doido, vou ficar mais doido ali dentro". Quando eu entrei, o cara do órgão estava dando pancada no teclado, mas tudo bem.

Fabrício Rocha: Vocês têm uma ideologia política, se interessam pelo assunto?
Hermeto Pascoal: Como eu vivi no meio de tudo, de política e de tudo o mais, sinto que ela é uma coisa sagrada. Só que, na prática, não é tratada assim. Mas você já pensou se houvesse um político bacana, que dissesse, por exemplo: "Se eu vencer as eleições, o salário mínimo vai para 500 dólares por mês (cerca de R$ 1 mil), no mínimo", e depois acontecesse? Seria muito bonito. A gente fica esperando, o povo fica esperando. O que eu digo, com os meus 70 anos, é que o povo tem que evoluir politicamente, mas sempre construtivamente, sem confusão, sem cobrar, sem quebrar as coisas, sem jogar ovo. Quando vi na televisão um ovo amarelinho, disse: "Que pena, podia um cara comer aquilo frito, mas foi jogado nas costas de outra pessoa". Tudo bem, não estou criticando ninguém, só que isso não faz nada. O que faz é a ação.
Agora estou falando como um cidadão. Se eu não votasse, tudo bem, mas eu voto, sou obrigado a votar. Agora não, depois dos 70 anos não preciso mais. Estou doido para chegar aos 71 anos para não precisar mais votar, porque é difícil achar em quem votar.

Pedro Jorge: A classe política não percebe que o mandato é muito curto, de quatro anos, enquanto o nosso vai dos 16 aos 70 anos. Esse é o nosso mandato! Talvez sejam eles o elo fraquinho da democracia. O elo forte somos nós. É isso que tem que educar o povo, talvez com a colaboração da música, com a participação do cinema, da televisão, dos jornais, de tudo isso.
Hermeto Pascoal: O mandato é curto, mas o dinheiro é comprido.

Pedro Jorge: Como tantos outros nordestinos, você fez sua vida fora do Nordeste. Ter coragem de emigrar não é uma seleção? Esse ato seleciona aqueles que têm coragem e algo a fazer, não será isso? Como foi a sua chegada a São Paulo ou ao Rio de Janeiro, para começar a trabalhar?
Aline Morena: Com 14 anos!
Hermeto Pascoal: Eu saí de casa para tocar num baile em Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas, com meu irmão, José Neto, que já não está mais aqui. Nós fomos tocar no baile da festa de São João. De repente, surgiu a intuição na minha cabeça de não voltar para casa mais e ir embora para Recife. Olhe só! E tocava muito baixo e muito pouquinho, mas eu já tinha, na minha cabeça, muitas idéias, que ainda não colocava em prática. Mas eu sentia o meu potencial musical.
Naquele tempo, os pais sempre encarregavam um filho mais velho de tomar conta do mais novo, e o José Neto era um ano mais velho do que eu e tinha a responsabilidade de tomar conta de mim. Parece que ele tinha uns 30 cruzados, naquele tempo, para nós dois fazermos o baile. Era um dinheiro que não dava nem para pagar a condução para ir para Recife. Mas eu disse ao meu irmão: "Zé, o negócio é o seguinte: nós temos que ir para Recife. Lá, a cidade é grande. Vamos mostrar e vamos aprender". Ele respondeu: "Não! Já pensou? Papai me mata se eu for com você! Você sabe que eu estou tomando conta de você!" Eu disse: "Então, pode se considerar morto, porque você vai sozinho para casa. Eu não vou". Eu fiz pé firme e não fomos para casa. Fomos procurar o ônibus para ir a Recife.
O José Neto encontrou o Sivuca, que perguntou se nós queríamos uma roupa. Eu respondi que não, que queria tocar. José Neto me chamou e nós formamos um trio, que se chamou "O Mundo Pegando Fogo" - porque a gente era branquinho, e o dono da rádio achou bonito. E foi só por isso que nos contratou, porque o único que tocava bem era o Sivuca. E, como ele era uma pessoa maravilhosa, teve a percepção de que tínhamos musicalidade também. Nós fomos, então, fazer o programa "A felicidade bate à sua porta", que era ao ar livre. Na hora do programa, lembro que Sivuca puxou "Vassourinha", só que nós não sabíamos dar nenhum tom. Eu estava com uma sanfona de 32 baixos; meu irmão, com uma de 80. Resumindo: o nome mais maravilhoso que poderia ter sido escolhido para aquele trio foi justamente "O Mundo Pegando Fogo", porque pegou fogo. Só tocou naquele dia e não tocou mais.

Fabrício Rocha: Hermeto, você conta que anos depois voltou à sua cidade natal, Lagoa da Canoa. E reconheceu todos os que estavam lá, tais como o vendedor de queijo e todos os amigos de infância. O sertão nordestino continua o mesmo desde aquela época?
Hermeto Pascoal: Continua a mesma coisa. Voltei à minha cidade com 30 anos e reconheci o João do Queijo: "Seu João, tem queijo aí para vender?" Ele respondeu: "Mas meu filho, como é que você me conhece?" Conheci também a Mãe Maria, minha parteira, que morreu com quase 150 anos. Quando a vi, tinha 140, e sua filha mais nova tinha 85 anos. Ela ainda me reconheceu também. Estava com raiva porque o médico não queria mais deixar que fumasse, já que fez isso a vida toda. E com mais de 100 anos não podia fumar. Como é que pode? A filha é que não deixava. Mas reconheci todo mundo na minha cidade. Eles achavam que eu fosse "banqueiro", porque aparecia na televisão "Hermeto Pascoal, de Lagoa da Canoa". Achavam que eu não quisesse falar com eles, aquela conversa. Mas não, sempre fui assim. Como eu sou aqui, sou lá. Foi ótimo. Agora faz uns 5 anos que não vou lá.

Fabrício Rocha: O que pesa mais: a nostalgia de ver que está tudo igual na sua cidade ou a sensação de que ela não evoluiu? Passaram-se 50 anos e ela não saiu do lugar...
Hermeto Pascoal: Pesa muito chegar a um lugar, ver as mesmas pessoas e perceber que a maioria continua do jeito que era, não evoluiu. Mas eu não as culpo. Gente é como as plantas: você planta com sementes maravilhosas 500 pés de qualquer espécie e, daqueles 500, se tirar 300 pés bons, já pode considerar-se feliz.
Eu vou às universidades participar de workshops. E eu digo nas escolas: "Esta música que eu faço, que eu chamo de música universal, não é um trabalho, é uma devoção. Então, gente, é a música com que, quanto mais estudar e tocar bem, menos você vai ganhar. Você não vai ganhar como o Zé das Couves, que está fazendo uma música brega, fica bilionário hoje e depois morre. Então, é melhor vocês fazerem o que gostam e serem felizes com aquilo que gostam. Agora, se vocês querem pensar em ganhar dinheiro com a música, é a coisa mais fácil do mundo". É por isso que estou aqui, porque não quero ganhar dinheiro. Na música, é só você pegar, por exemplo, eu e a Aline aqui. Se a Aline botar uma roupinha curta e dançar, e se eu pegar um piano, a gente fica rico em dois meses. É, é só rebolar. Gente, o dinheiro é muito fácil de ganhar. Eu não, não posso fazer assim, porque não dá. Desculpem a brincadeira, o Hermeto é assim mesmo.

Fabrício Rocha: Você é considerado pelos próprios músicos como um dos maiores do mundo. Ainda assim, nem você teve o reconhecimento que merece nem o Brasil chegou aonde todos nós esperamos que chegue. Como você vê esse paralelo entre você e nosso País?
Hermeto Pascoal: Já com os meus 50 anos, Deus me iluminou para entender esse lado. Não é culpa deles se não alcançam o meu trabalho. Não é banca minha, nem nada. É a realidade fria, nua e crua. Eles não alcançam o meu trabalho.
Aline Morena: Quem não alcança? Não é o povo.
Hermeto Pascoal: O cara que fica bilionário já se entregou à burrice; não precisa disso, é um egoísta. Duvido que, se eu tiver R$ 200 mil no banco, eu não corro depressa para gastar, senão não durmo mais! Eu fico louco para gastar depressa, depressa.

Fabrício Rocha: Esse desapego à coisa material foi o que os levou a lançar o último disco com um selo próprio e a incentivar até a livre distribuição dessas músicas? Vocês dizem: "Espalhem as músicas, por favor".
Aline Morena: Temos ótimas novidades para contar. Primeiro, dentro de no máximo um mês vocês vão poder acessar o site "hermetopascoal.com.br", com todas as formações. Já existe o site do nosso duo, mas vocês vão poder acessar agora também o do Hermeto com todas as formações. E, além disso, vocês vão encontrar lá disponíveis - é uma coisa inédita, que não foi falada para ninguém - todas as partituras já gravadas do Hermeto. Quem quiser tocar, aprender e não tiver a partitura não se preocupe, porque vai estar disponível gratuitamente. Nós vamos parar com essa história de todo mundo querer ganhar dinheiro em cima do Hermeto e nunca mais pagar a ele e nem pagar nada. Então, adeus às grandes editoras que fizeram isso até hoje. Que elas aproveitem enquanto podem, porque vamos oferecer tudo gratuitamente. Sempre o que o Hermeto quis foi isao: permitir às pessoas acesso à música. Essa é uma coisa que talvez seja uma revolução por parte dos músicos.
Hermeto Pascoal: E as músicas também vão estar disponíveis, para quem quiser ouvir.
Aline Morena: Hoje em dia já se encontram os discos do Hermeto para fazer download. Até queremos ver com a própria Apple, que vende MP3 e Ipod, para que eles mesmos façam essa distribuição das músicas, porque eles têm muito mais condições de disseminar isso. E quem sabe, logo, logo, vocês também vão ouvir falar no templo do som, que é um sonho antigo do Hermeto? Não sei onde vai ser no Brasil, mas já tem até o projeto arquitetônico pronto.

Fabrício Rocha: O que é o templo do som?
Aline Morena: É um teatro que terá o acervo do Hermeto, uma sala onde haverá o acervo multimídia. Além de acontecerem espetáculos de música universal, vão estar disponíveis os vídeos de shows, de workshops. Vai haver uma programação constante.
Hermeto Pascoal: E aqui em Brasília cabe o templo do som.

Fabrício Rocha: Ainda não foi definido o local, não é?
Aline Morena: Ainda não está definido o local. A gente quer que seja no Brasil.
Hermeto Pascoal: Fora do Brasil, realmente eu não quero. Não saí do Brasil até hoje. E sou, modéstia à parte, muito conhecido lá fora. O Roberto Carlos que se cuide comigo. Na Argentina, os motoristas param, gritam na rua. Agora mesmo, no México, para onde só fui uma vez, um cara de bicicleta parou e falou comigo na rua. Mas, mesmo assim, eu nunca sairia do Brasil para morar em lugar nenhum.

Fabrício Rocha: Esse reconhecimento todo no exterior, inclusive por gente andando de bicicleta, motorista de táxi, se deve àquela filosofia que você mesmo explica, a do "crescei e multiplicai-vos", no sentido musical?
Hermeto Pascoal: Exatamente. Veja você: terminamos um show no México e, quando saímos para pegar um carro, havia um conjunto musical tocando as minhas músicas lá, em minha homenagem, no meio da rua, na beira da calçada. E isso, gente, não vejo no Brasil. Até fico meio chateado de não ver. Não fico com desgosto, porque não dou chance para isso. Mas a realidade é que no Brasil o músico tem que amar o outro músico. Acho que os estilos de música têm de se abraçar. Lá fora, o músico chega e me abraça e parece ser meu filho, sabe como é? Mas isso, em primeiro lugar, me dá 90% de alegria. Estou falando isso porque gostaria que toda a alegria que eu tive no mundo e que ainda vou ter fosse no Brasil.

Giovani de Souza: Mas você tem muitos filhos musicais no Brasil também.
Hermeto Pascoal: Então, eu sou conhecido no Brasil. Qualquer lugar em que eu tocar enche.
Aline Morena: Sim, no Brasil todo.
Hermeto Pascoal: Qualquer lugar enche. Então, você não precisa estar na mídia, não precisa estar a toda hora, porque o povo...
Aline Morena: O povo reconhece.
Hermeto Pascoal: Sim, o povo reconhece. O reconhecimento é que é a mídia.

Fabrício Rocha: Você já teve alguns problemas com gravadoras, até em razão de licenciamento das músicas, dos direitos autorais. Poderia haver uma influência do Estado, do poder político, na liberdade do artista em distribuir suas músicas? Ou isso cabe às gravadoras?
Hermeto Pascoal: Eu sempre achei o seguinte: todo mundo tem de facilitar as coisas ao povo, não temos de dificultar nada. Para ser bem breve, vou contar uma história rápida. Eu dei uma entrevista a uma revista, da qual não me recordo o nome, e fui favorável à pirataria. Só que distorceram, como se eu tivesse generalizado. Você tem um disco do Hermeto Pascoal; sua tia, seu tio, seus irmãos, sua família toda não tem dinheiro para comprar nada, nem um disco. O que vou dizer para eles? "Claro, cara, copie!"
Então, o que eu disse foi que os meus discos podiam ser pirateados para ouvir, e não para sair vendendo para todo mundo, para ganhar dinheiro. Penso que temos que facilitar não só o acesso ao nosso trabalho mas também ao trabalho de todo mundo.
Aline Morena: Nesse caso, a Internet veio para ajudar, para contribuir.
Hermeto Pascoal: Sim. As gravadoras já mamaram muito. Agora elas têm que ficar no "lugarzinho" delas; ou, então, mudar a Internet, para poder trabalhar para nós, entende? Elas não têm mais chance. Eles também já estão me desligando de tudo. Há muitos anos já não gravo. Fizemos esse DVD. Praticamente demos mais disco de presente do que vendemos, porque ficamos mais felizes em dar o disco para as pessoas que não podem comprar.
Aline Morena: A gente considera a nossa fonte de renda os shows, mais do que o próprio disco.
Hermeto Pascoal: E existe dificuldade para prensar os discos, há burocracia.
Aline Morena: E também para exportar.
Hermeto Pascoal: Não facilitam nada. Esse é um assunto para o governo ver. Há a questão da cultura. Deveria existir uma lei que também dissesse que você, antes de viajar, tem que ir a um órgão governamental para declarar e mostrar: "Estou levando tantos discos, estou levando isso, vou vender porque gastei, investi nesse disco". Isso facilitaria, o disco ficaria mais barato para as pessoas que estão lá. Se mandar pelo Correio, fica difícil vender o disco, porque é muito caro.

Giovani de Souza: A cultura e a música são, sem dúvida, o que temos de melhor no Brasil. Você acha que é possível facilitar para que a cultura brasileira ganhe o mundo, ou para que pelo menos o próprio Brasil tenha acesso a essa nossa cultura, à nossa música? Isso se daria de que forma?
Aline Morena: O Hermeto costuma dizer sempre que o nosso país é um dos mais colonizados do mundo, por isso tem a música mais misturada e mais rica. Aqui há ritmos tão diversos que você não encontra em lugar nenhum. Não sabemos dar valor ao que temos. Nós temos uma riqueza que é não só a música, mas também o território, a mata, os rios, e todo mundo está de olho nisso. Só a gente é que não viu a importância disso. É muito simples estimular a música. Por exemplo, o que o ministro pode fazer? Entra equipamento eletrônico dos Estados Unidos. Quer lançar aqui? Pode lançar, mas tem que ser ritmos daqui, folclóricos também. Tem que haver uma parcela, uma porcentagem estabelecida em contrato. Pode haver outros ritmos, mas tem que ter coisa do Brasil também.
TV a cabo? Quem são os donos? Nem são brasileiros. E daí? Exija um canal com músicas com nossos ritmos. Isso é uma coisa fácil de se fazer, uma coisa que outros países fazem e a gente respeita. A gente também tem que ser respeitado, e ninguém vai se opor a isso porque é um direito de todo mundo. Então, são coisas simples, medidas que não têm custo financeiro.
Hermeto Pascoal: Vamos mandar um "recadinho" para os músicos, para os "irmãozinhos" de som. Quando os caras chegaram lá de fora com dólar, no estúdio, para pagar, para eles se venderem e fazerem um monte de besteira também...digo o seguinte: se a música é ruim, é o músico que é ruim. Não adianta culpar a imprensa nem mais ninguém. O músico é que é a água da fonte. Recebi todos os convites do mundo numa época em que já tinha família e não podia pagar nem aluguel no fim do mês. As pessoas me ofereciam R$ 2 mil, naquele tempo! Às vezes, com o aluguel atrasado dois meses, minha patroa dizia: "Mas, Louro, esse dinheiro dava pagar uns quatro meses de aluguel". Eu respondia: "Sim, você quer que, depois que eu pagar esses quatro meses, eu morra do coração?" E ela me dizia: "Não, prefiro que a gente não pague nada e que você viva". Pronto! Estou aqui para contar a história.
Não adianta inventar desculpa por que você quer se vender e fazer as coisas. É o músico quem tem de defender a qualidade da música. Eu conheço muitos colegas que têm a minha idade e que não se recuperam mais. Estão todos lascados por aí, porque se venderam achando que aquele dinheiro ia durar e não durou, não. O dinheiro não dura.

Pedro Jorge: Qual sua avaliação da música eletrônica?
Hermeto Pascoal: Esse negócio de botão, camarada, nem no elevador funciona muito, imagine na música. Isso é coisa do capital, algo para consumo imediato. Meu genro, que é técnico nos Estados Unidos, admirou-se e me enviou uma fita com vários ritmos, mas um ritmo só. A batera fazia "tum-pach-que-tum-pá-tim-cum-pach", durante uma hora. No final, ele coloca a voz dele e diz: "Campeão - ele me chama de Campeão -, você sabe que tudo isso que tocou tem mais de 3 minutos. O baterista só gravou uma vez; depois, eu fui emendando tudinho".
Aline Morena: E são só quatro compassos, porque depois se faz o looping, emenda-se e se fazem várias músicas.
Hermeto Pascoal: O que quero dizer é que a música eletrônica - esta é a minha grande oportunidade para responder -, para mim, não é música, entendeu? Vou deixar um desafio aqui, uma aposta a quem fizer música eletrônica: vou a qualquer lugar com quem fizer música eletrônica. Só vou com coisas acústicas e vou desafiá-lo. Tem de ser bem gravado, com um microfone legal. Os eletrônicos precisam registrar aquilo que fazemos, mas não podemos depender deles. Temos de fazer e usar o que queremos.

Fabrício Rocha: Você já gravou um disco chamado "Mundo Verde Esperança", na década de 80, que nem chegou a ser lançado. Você diz que toca para os passarinhos. Vocês têm esse envolvimento com a questão ecológica? Como vêem toda essa discussão que está havendo sobre o aquecimento global e a preocupação com a ecologia?
Hermeto Pascoal: Eu, que sou um cara da roça, que fui criado na roça, via muito bem que o dono do cercado tinha o cuidado de fazer uma vala do tamanho do terreno e plantava um negócio chamado macambira, que não pega fogo - olhe que loucura! - para que o dono do outro terreno pudesse preparar o terreno para plantar, sem prejudicar o vizinho. Tudo era bem feito, feito com muito cuidado. Creio que isso acontece na música também.

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