Saúde

Especialistas alertam para consequências das queimadas na saúde de animais e seres humanos

Monóxido de carbono presente na fumaça pode acarretar problemas respiratórios e câncer, entre outras doenças. Altas temperaturas e baixa umidade favorecem a desidratação

14/10/2020 - 15:58  

Especialistas alertaram nesta quarta-feira (14) para os riscos à saúde decorrentes das queimadas em diversos biomas brasileiros. Eles também destacaram a importância da manutenção de verbas orçamentárias em 2021 e pediram a  revogação do teto de gastos (Emenda Constitucional 96) para que o Sistema Único de Saúde (SUS) possa suportar as consequências desses incêndios.

Os debatedores salientaram ainda a necessidade de integração entre órgãos ambientais e de saúde das três esferas governamentais. Eles listaram os males decorrentes da fumaça dos incêndios e do desmatamento para a saúde de animais e dos seres humanos. A discussão foi promovida pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados que examina os efeitos das queimadas no território nacional.

As consequências para a saúde, segundo os especialistas, atingem principalmente idosos e crianças, por conta, por exemplo, da maior suspensão de partículas na atmosfera, das altas temperaturas e da baixa umidade. A fumaça aumenta o número de internações de pacientes que já têm doenças crônicas. O calor dos incêndios pode levar à queima pulmonar. Também preocupa a situação das populações indígenas e ribeirinhas.

Gustavo Sales/Câmara dos Deputados
O impacto das queimadas nas condições de saúde de populações afetadas. Dep. Professora Rosa Neide (PT - MT)
Professora Rosa Neide: 39 idosos já morreram em Rondonópolis (MT) em razão das queimadas

A coordenadora da comissão externa, deputada Professora Rosa Neide (PT-MT), exemplificou a gravidade da situação com dados dos últimos dois meses sobre o impacto das queimadas na saúde dos habitantes de Rondonópolis, a terceira cidade mais populosa de Mato Grosso.

“Houve 39 idosos que faleceram em virtude do excesso de fumaça e também porque se desidrataram com as altas temperaturas. Quando chegaram ao hospital, não havia mais o que o médicos pudessem fazer.”

Intoxicação
Durante o debate, foram relatados casos de intoxicação de peixes e contaminação da água pelas cinzas, o que igualmente afeta a saúde humana. Representante do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Leonardo Vilela ressaltou que a exposição à grande quantidade de monóxido de carbono presente na fumaça não ocasiona apenas problemas respiratórios.

“Ao longo do tempo, isso pode gerar doenças crônicas como o próprio câncer, uma vez que partículas de fuligem contêm substâncias relacionadas que podem ser cancerígenas, não só no trato respiratório, mas também em outras partes do organismo humano”, explicou.

Gustavo Sales/Câmara dos Deputados
O impacto das queimadas nas condições de saúde de populações afetadas. Chefe da Biodiversidade da Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ, Márcia Chame
Marcia Chame pediu mais investimentos em pesquisas científicas

O pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante do Grupo Temático Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Marcelo Firpo, criticou o que chamou de um “modelo de desenvolvimento neoextrativista”, com uma hiperexploração do trabalho humano e dos recursos naturais.

Para o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Fernando Pigatto, é preciso realizar ações de vigilância em saúde, como um plano de risco em âmbito nacional e atenção especial a quem está na linha de frente do combate aos incêndios.

Valorização das pesquisas
Chefe de Biodiversidade da Fiocruz, Marcia Chame salientou a importância do investimento em pesquisas que subsidiem políticas públicas.

“Esses estudos demandam trabalhos de campo exaustivos, complexos, bases laboratoriais que precisam de insumos e pessoas. É fundamental que o Brasil avance em relação a isso e que não fique a reboque e na dependência de insumos biológicos de outros países para cuidar de sua população. ”

Relatório
Durante a audiência pública virtual, Professora Rosa Neide adiantou que o relatório final da comissão externa deverá propor um plano de prevenção às queimadas.

Ela também informou que o colegiado vai examinar um requerimento que pede urgência na votação do projeto (PL 4629/20), já aprovado pelo Senado, que inclui o uso de aviões agrícolas no combate aos incêndios.

Reportagem - Cláudio Ferreira
Edição - Marcelo Oliveira

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