Coaf, Receita e terras indígenas dominam debate sobre MP da reestruturação ministerial

Texto principal da Medida Provisória 870/19 foi aprovado nesta quarta-feira (22) pelo Plenário da Câmara. Os dois últimos destaques devem ser analisados amanhã
Da Agência Câmara - 22/05/2019 - 20:01   •   Atualizado em 22/05/2019 - 22:50

As discussões em Plenário sobre a mudança na estrutura ministerial do governo Bolsonaro prevista na MP 870/19 seguiram as polêmicas da comissão mista que analisou a proposta: a competência para demarcar terras indígenas, as atribuições dos auditores da Receita Federal e o órgão a que está subordinado o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foram os pontos mais controversos.

Até mesmo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, interveio durante a sessão desta quarta-feira (22). Ele respondeu a uma fala do deputado Célio Silveira (PSDB-GO), segundo o qual o PSDB votaria “tudo o que for necessário para o País crescer e se desenvolver, inclusive a questão do Coaf, que se tornou nacional”.

Maia avaliou que colocar o conselho no Ministério da Economia ou no da Justiça não é relevante para as contas nacionais. “O Coaf não vai fazer o Brasil crescer. Temos 20% da população cozinhando com lenha e carvão; é se preocupando com essas pessoas que vamos fazer o País crescer”, defendeu.

O Coaf fazia parte do Ministério da Fazenda até o fim do governo Temer. O texto original da MP passou o órgão para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, de Sérgio Moro, mas os deputados decidiram hoje, por 228 votos a 210 e 4 abstenções, que o Coaf deverá ser remanejado para o Ministério da Economia, sob o comando de Paulo Guedes. Eles seguiram o texto aprovado na comissão especial.

A alteração uniu oposição e partidos de centro não alinhados ao governo. O líder do Psol, deputado Ivan Valente (SP), lembrou que foi sob a autoridade do Ministério da Fazenda, atualmente Economia, que o Coaf identificou movimentações suspeitas que deram origem a investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente da República. “Qualquer analista sério sabe que, nos países desenvolvidos (Alemanha, França, Espanha, entre outros), todo Coaf está na pasta da Economia”, disse.

Ordem do dia para discussão e votação de diversos projetos. Dep. Beto Pereira (PSDB - MS)
Beto Pereira defendeu a transferência do Coaf para o Ministério da Economia - Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

O deputado Beto Pereira (PSDB-MS) ressaltou que a bancada tucana se dividiu, mas ele defendeu a ida do Coaf para a Economia ao lembrar que foi um relatório do órgão sobre o doleiro Alberto Youssef que deu início à Operação Lava Jato. “Em 21 anos de existência, o Coaf nunca foi acusado de ser partidário e muito menos inerte: ele atua como um grande auxiliar nas investigações criminais sem perder o objetivo de fazer a investigação financeira”, declarou.

O líder do DEM, deputado Elmar Nascimento (BA), destacou que a salvaguarda do órgão na equipe econômica leva em conta o sigilo de dados financeiros.

O deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) afirmou que a mudança pretendida pelo texto original da MP era um casuísmo, opinião também do deputado Otoni de Paula (PSC-RJ): “Se o Sérgio Moro for para outro ministério, não vai poder levar o Coaf”.

Já o líder do governo, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), defendeu o retorno ao texto original. “O brasileiro elegeu um presidente coerente com as bandeiras de combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Não importa como outros países fazem, o Brasil tem de ter coragem de tomar uma decisão que vai ser seguida pelos outros”, disse ele. O líder governista se referiu ao principal argumento dos que defendem o Coaf na Economia: o órgão tem trabalhado com excelência fazendo parte da equipe econômica.

Reunião ordinária. Líder do governo, dep. Major Vitor Hugo (PSL - GO)
Já Major Vitor Hugo queria a retomada do texto original da MP, com o Coaf no Ministério da Justiça - Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Para o deputado Diego Garcia (Pode-PR), porém, o Coaf sairia fortalecido sob a gerência de Sérgio Moro. “Essa mudança feita na comissão mista em nada vem agregar aos trabalhos que já vêm sendo muito bem desempenhados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Muito pelo contrário”, criticou.

O deputado Filipe Barros (PSL-PR) argumentou que devolver o Coaf à estrutura de Moro faz parte da lógica da estrutura organizacional proposta pelo Executivo. “Temos de compreender a proposta da nova estrutura ministerial do governo Bolsonaro: um Ministério da Justiça focado no combate à corrupção; um Ministério dos Direitos Humanos com a inclusão dos indígenas”, afirmou.

Funai

A Fundação Nacional do Índio (Funai) e a competência sobre a demarcação de terras indígenas foram incluídas no Ministério da Justiça pela comissão mista e mantidas pelo Plenário, em outro ponto controverso do texto.

A oposição defendeu a mudança, que governo e parlamentares ligados ao agronegócio tentaram modificar. No texto original, a Funai foi transferida para a pasta dos Direitos Humanos e Família; e a demarcação, ao Ministério da Agricultura.

Para o deputado Nilto Tatto (PT-SP), os índios não podem estar subordinados ao agronegócio. “Precisamos entender que a visão que os indígenas têm de território não é a mesma visão econômica que nós temos.”

Filipe Barros, no entanto, sustentou que a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, tem competência para gerir a questão indígena. “A ministra é mãe de uma indígena e foi militante nessa causa durante toda a sua vida”, apontou.

Receita

A limitação das competências dos auditores da Receita Federal, medida incluída pela comissão mista, foi outro ponto questionado durante os debates. Esse dispositivo ainda será analisado nesta quinta-feira (23) pelo Plenário.

A interpretação dos contrários à mudança é que o Fisco terá atuação prejudicada na identificação de crimes de colarinho branco. “Essa diminuição da competência do auditor fiscal, limitando-se, em matéria criminal, à investigação dos crimes contra a ordem tributária ou relacionados ao controle aduaneiro, é um instrumento que vai dificultar o combate à corrupção”, criticou o deputado Bacelar (Pode-BA).

O deputado Tadeu Alencar (PSB-PE) também condenou a alteração. “É uma coisa incrível que se queira subtrair da autoridade fiscalizatória a possibilidade de fazer representações fiscais com fins penais.”

Já o deputado Ricardo Barros (PP-PR), favorável à mudança, argumentou que hoje há abusos na Receita Federal por uma lacuna legal. “Não há autorização expressa para que o auditor quebre sigilo fiscal. Não está escrito que pode, mas não está escrito que não pode, e, então, os auditores passaram a ser investigadores de todos os cidadãos brasileiros”, disse.

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