Missionária denuncia máfia internacional de órgãos
20/05/2004 - 18:50
A missionária brasileira Maria Elilda dos Santos denunciou nesta quinta-feira à CPI do Tráfico de Órgãos a existência de uma máfia em Moçambique, país africano, comandada por políticos, empresários e diplomatas daquele país. Segundo a religiosa, que mora em Nampula, a quadrilha foi responsável pelo desaparecimento de cerca de 50 crianças, desde o início da década de 90 até 2003. Todos os jovens teriam sido assassinados e tiveram os órgãos vendidos no mercado negro do tráfico.
A missionária, que foi voluntária da Pastoral do Menor, em São Paulo, também explicou à comissão como agem algumas das quadrilhas que atuam no Brasil. Segundo Maria Elilda, os grupos utilizam olheiros em hospitais e em departamentos de identificação pessoal. Ao constatarem, por meio dos documentos, que a vítima é doadora presumida, ela passa a ser seguida e "sofre um acidente". Os mais comuns são atropelamentos e latrocínios. O acompanhamento continua até o envio dos órgãos para fora do País.
Venda de menina
A quadrilha africana começou a ser investigada em junho do ano passado, após denúncias feitas por empregados de um influente empresário que, em princípio, pensava-se ser de origem sul-africana. De acordo com as acusações, ele seria o cabeça de uma quadrilha internacional que usava Moçambique como base de operações e tinha como rota países como Portugal, Chile, Venezuela e Brasil. Na maioria dos casos, o destino final dos órgãos era a Europa, principalmente a Itália e países do leste europeu, onde um coração, por exemplo, pode ser comprado por cerca de U$ 100 mil.
Maria Elilda contou que os primeiros indícios da ação da quadrilha surgiram há quase um ano, quando um jovem chegou ao mosteiro onde a missionária vivia dizendo que procurava um casal de origem sul-africana para vender uma menina que aparentava ter oito anos de idade. Elilda diz que suspeitou da conversa e decidiu levar o caso às autoridades locais. "Como fomos tratadas com descaso, resolvemos apurar as suspeitas por conta própria. Com a ajuda de moradores locais, descobrimos um cemitério clandestino onde eram jogados os corpos das vítimas da quadrilha."
A partir daí, o caso tomou proporções internacionais, o que culminou na prisão de vários integrantes da quadrilha. Entre eles, um oficial médico da Polícia Militar de Pernambuco, que é acusado de ser o responsável pela pré-seleção das vítimas no Brasil.
Grupo de acompanhamento
O analista de sistemas Paulo Pavesi, pai do menino Paulinho, falecido em abril de 2000, em Poços de Caldas (MG), possível vítima da ação das quadrilhas, acompanhou o depoimento da missionária. Ele propôs a criação de um grupo coordenado pela sociedade que vai ajudar Maria Elilda a apurar a ação de quadrilhas internacionais de tráfico de órgãos no Brasil.
Os parlamentares querem agora descobrir a outra ponta da quadrilha que agia no País e foi presa no final do ano passado, em Pernambuco. "É bem provável que haja em outros países brasileiros que, a partir da facilidade que tiveram aqui no Brasil na retirada de rins e captação de pessoas para alimentar o processo, estejam alimentando esse centro de transplantes que foi localizado na África", afirma o presidente da CPI, deputado Neucimar Fraga (PL-ES).
A próxima reunião de CPI do Tráfico de Órgãos será realizada na próxima quarta-feira, dia 26. Os deputados apreciarão requerimentos para convocação de novas testemunhas à comissão.
Reportagem - Giulianno Cartaxo
Edição - Ana Felícia
(Reprodução autorizada mediante citação da Agência)
Agência Câmara
Tel. (61) 216.1851 ou 216.1852
Fax. (61) 216.1856
E-mail: agencia@camara.gov.br
A Agência também utiliza material jornalístico produzido pela Rádio, Jornal e TV Câmara.