Kleber Leite nega propina em contratos com a CBF
Empresário foi ouvido nesta terça na CPI da Máfia do Futebol
07/06/2016 - 21:41

O empresário Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo, negou a existência de propina em contratos com a CBF e entregou documentos à CPI da Máfia do Futebol. Kleber Leite prestou depoimento, nesta terça-feira (7), à CPI que investiga os desdobramentos, no Brasil, do escândalo de corrupção na Fifa.
O ex-presidente do Flamengo é sócio da Klefer Marketing Esportivo, que detém um contrato de R$ 128 milhões com a CBF em torno da exploração da Copa do Brasil entre 2015 e 2022. Para o depoente, a estrutura e a competência da Klefer foram os principais fatores que levaram a CBF a fechar o contrato com a empresa.
Segundo Kleber Leite, hoje a Klefer paga à CBF R$ 17,6 milhões/ano por direitos da Copa do Brasil; R$ 6,4 milhões em impostos; R$ 8,9 milhões em custos de produção e comercialização. "Na realidade, o custo real da Copa do Brasil para a Klefer é de R$ 26,5 milhões", afirmou.
Investigação
Esse contrato passou a ser investigado pelo FBI, a polícia federal norte-americana, depois que o empresário José Hawilla, preso nos Estados Unidos por envolvimento no escândalo da Fifa, denunciou o pagamento de propina para o acordo contratual. Hawilla é dono da Traffic, empresa que detinha direitos sobre a Copa do Brasil até 2014 e sobre importantes competições sul-americanas. Hawilla já foi condenado por fraude bancária.
Kleber Leite foi o primeiro convocado a depor na CPI. A iniciativa partiu do deputado Goulart (PSD-SP), que o questionou sobre uma suposta "parceria secreta" entre a Klefer e a Traffic. O deputado também ressaltou que, no acordo de delação que fez com a Justiça dos Estados Unidos, José Hawilla assumiu algumas das acusações e aceitou devolver U$ 150 milhões.
Durante o depoimento na CPI, Kleber Leite admitiu ter desenvolvido alguns projetos com Hawilla, mas negou que tenham sido sócios e atribuiu a denúncia de propina a prováveis problemas mentais de Hawilla. O depoente disse duvidar da sanidade mental de Hawilla e afirmou que o dono da Traffic costuma ter duplo comportamento: "Há dois Hawillas: um normal, quando não há dinheiro envolvido, e outro completamente anormal, quando tem dinheiro no meio".
Em resposta aos deputados Major Olímpio (SD-SP) e Chico Alencar (PSOL-RJ), Kleber Leite acrescentou que, entre os projetos que desenvolveu com Hawilla, estão alguns ligados a torneios pré-olímpicos e amistosos da seleção brasileira. Nessas ocasiões, segundo o depoente, cabia a Hawilla os contatos mais diretos com dirigentes esportivos, enquanto a Klefer se responsabilizava por outras ações logísticas e comerciais.
"Se ele [Hawilla] afirma que pagou propina para alguém, ele que esclareça. A Klefer não compactua com esse tipo de coisa", disse Kleber Leite. O empresário também admitiu certa "negligência" na prestação de contas e que pode ter sido "passado para trás" em alguma ocasião.
Documentos
O empresário entregou aos deputados cópias de todos os contratos da Klefer com a CBF: "Estão todos aqui, inclusive alguns que os senhores sequer imaginariam que existam, porque são contratos paralelos de empresas que têm contrato com a CBF e que, em função do desenvolvimento profissional, competente e sério que a Klefer faz, a Klefer é contrada para isso. Passo à mão dos senhores, porque é aquela velha história de que quem não deve não teme".
Operação da Polícia Federal
No escândalo da Fifa, Kleber Leite seria um dos "co-conspiradores" citados em supostas irregularidades na CBF. Em maio do ano passado, a sede da Klefer, no Rio de Janeiro, chegou a ser alvo de operação da Polícia Federal e do Ministério Público, a pedido da Justiça dos Estados Unidos. O empresário se diz vítima de medida de força.
"Nós tivemos uma medida de força grotesca sem que, sequer, os advogados tivessem acesso ao motivo daquela empreitada, o que redundou em um prejuízo significativo para a empresa. Nós ficamos um bom tempo com contas bloqueadas, tivemos problemas sérios para manter a nossa dignidade pagando os nossos profissionais. Eu me sinto como se estivéssemos em um país de ditadura, em que alguém chega com um regime de força, impõe e faz o que quer", desabafou.
Diante da reclamação do empresário quanto à ação da Polícia Federal e do Ministério Público na sede da Klefer, o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA) anunciou que vai pedir à Justiça brasileira os detalhes da decisão que autorizou a ação. O bloqueio das contas da empresa durou três meses.
Ricardo Teixeira
O ex-presidente do Flamengo lembrou que o contrato em torno da Copa do Brasil foi acertado na gestão do ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, com quem disse manter "relação fraternal". Teixeira também é investigado no escândalo da Fifa e, segundo Kleber, garantiu jamais ter recebido propina de José Hawilla.
Essa afirmação específica foi contestada pelo deputado Silvio Torres (PSDB-SP): "O Ricardo Teixeira vem mentindo para todo mundo há mais de 20 anos. Apesar da palavra que o Ricardo Teixeira deu ao senhor, eu tenho, aqui comigo, a convicção de que, em todos os contratos que ele firmou pela CBF, ele teve algum tipo de benefício".
A CPI da Máfia do Futebol aprovou requerimento de visita à Suíça, onde fica a sede da Fifa, em busca do compartilhamento de informações e dados com os órgãos que comandam a investigação do escândalo naquele país.
Reportagem - José Carlos Oliveira
Edição – Luciana Cesar