Jornalista defende maior controle sobre entidades do futebol
Ouvido pela CPI da Máfia do Futebol, o correspondente internacional Jamil Chade disse que a autonomia excessiva de instituições como a Fifa pode levar ao surgimento de esquemas de propinas envolvendo cartolas
24/05/2016 - 13:41

O jornalista Jamil Chade defendeu, nesta terça-feira (24), na Câmara dos Deputados, um maior controle da sociedade sobre as entidades futebolísticas. Segundo ele, esse controle não envolveria uma intervenção estatal, mas uma maior transparência em relação a contratos, por exemplo. E se justificaria em razão de o futebol ser um “bem público”, porém administrado por entidades privadas.
“A situação perfeita seria a autonomia da entidade esportiva, mas com prestação de esclarecimentos e transparência em relação a todos os contratos. Não sei como fazer isso em termos práticos, mas esse seria o melhor dos mundos”, afirmou Chade.
Ele participou de audiência na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Máfia do Futebol e deu a declaração em resposta ao relator do colegiado, deputado Fernando Monteiro (PP-PE). O parlamentar havia perguntado o que poderia ser feito, no âmbito legislativo, para evitar o surgimento de esquemas de propinas e subornos relativos à comercialização de jogos e direitos de marketing de competições de futebol.
Em resposta ao presidente da CPI, deputado Laudivio Carvalho (SD-MG), Jamil Chade confirmou que existe manipulação no mundo do futebol e que ela seria sistemática e, mais uma vez, teria a ver com a autonomia das entidades. “A estrutura que a Fifa [Federação Internacional de Futebol] criou para o futebol no mundo foi baseada em dois pilares. Um é a autonomia em relação à política, o que pode ser positivo. Mas essa autonomia também dá brechas para uma atuação bastante isolada de qualquer tipo de controle. O outro pilar é a imunidade em relação à Justiça”, ressaltou Chade, que é correspondente do jornal Estado de S.Paulo na Europa e autor do livro "Política, Propina e Futebol".
Crimes
Na avaliação do jornalista, a autonomia excessiva da Fifa pode ter levado ao cometimento de crimes por dirigentes da instituição, entre eles o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Juntamente com outros seis cartolas, Marin foi detido em maio do ano passado na Suíça, após investigações feitas pelo departamento de Justiça dos Estados Unidos. Hoje cumpre prisão domiciliar em Nova York.
Questionado pelo deputado João Derly (Rede-RS) se a prisão de Marin pode significar o fim das práticas da Fifa, Jamil Chade respondeu que a estrutura da entidade ainda não foi modificada de forma a garantir mudanças. Apesar de nos últimos 12 meses 41 dirigentes terem sido indiciados em diversos países, as federações de 17 países terem passado por mudanças e a própria Fifa ter estabelecido mandato para cartolas e a divulgação de salários, ainda não há transparência suficiente; tampouco há transparência nas ações da CBF e da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), cujas decisões não costumam ser técnicas.
"A Conmebol decide para quem vai o contrato de televisão e também o de marketing. Durante as investigações do FBI [unidade de polícia da Justiça dos Estados Unidos], diferentes propostas chegavam para a Conmebol sobre o direito de transmitir [os jogos]. Quem ganhou os contratos não foi a melhor oferta, mas a oferta que garantia o pagamento de propina aos dirigentes. Não havia o menor controle, em razão da autonomia da entidade", explicou.
Copa do Brasil
Ao falar sobre a Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014, Jamil Chade disse que uma contradição marcou o evento: foi a mais cara da história, tendo sido financiada pelo Poder Público, mas ao mesmo tempo a mais lucrativa para a Fifa. Conforme os dados trazidos por Jamil Chade, o Brasil gastou o equivalente à África do Sul, em 2010, e à Alemanha, em 2006, juntas.
"Em 2007, quando o Brasil ganhou o direito de sediar a Copa, a Fifa fez um informe que dizia que ela custaria 1,1 bilhão de dólares. Quando começou, ela custava 3,5 bilhões de dólares. O custo triplicou e não estamos contando obras de infraestrutura [como aeroportos]", observou o jornalista. "Em 2007, não haveria um só centavo de dinheiro público na construção de estádios. Em 2014, de cada R$ 9 gastos nos estados, R$ 8 foram emprestados, financiados, subsidiados pelo poder público. Só R$ 1 foi dinheiro privado."
O outro lado da história, disse Chade, é que a Fifa saiu do Brasil com uma renda recorde. "Foi a Copa mais rentável e gerou 5,7 bilhões de dólares para os cofres da entidade. Isso foi quanto rendeu. Não é lucro. O lucro teria sido 90 milhões de dólares", afirmou.
Já os 100 milhões de dólares que deveriam ficar para o Brasil - menos de 2% dos 5,7 bilhões de dólares da renda obtida - ainda estão bloqueados na Suíça, porque a Fifa não tem confiança em transferi-los para o País. "Tanto o atual presidente da CBF Marco Polo Del Nero, como outros dirigentes, continuam sob investigação. Na Fifa, Del Nero ainda é investigado. Nos Estados Unidos, ele é um dos indiciados no caso da Fifa."
Requerimentos
Na reunião desta terça, a CPI também aprovou novos convites a representantes da TV Globo, da Fifa e da CBF e ainda a jornalistas, para que venham ao colegiado contribuir com os trabalhos. Na próxima terça (31), os parlamentares deverão ouvir o secretário-geral da CBF, Walter Feldman.
Reportagem – Noéli Nobre
Edição - Luciana Cesar