Saúde

Governo e especialistas divergem sobre prazo para vacina contra zika

16/02/2016 - 17:20  

O registro da primeira vacina contra a dengue no Brasil — a Dengvaxia, da francesa Sanofi Pasteur — foi aprovada em dezembro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O desafio agora é criar outra que combata o zika vírus, apontado como uma das principais causas do surto de microcefalia em bebês no País e associado ainda a síndromes como a de Guillain-Barré, que provoca a paralisação de músculos do corpo.

Especialistas afirmam que uma nova vacina pode demorar décadas, mas esse não é o pensamento do ministro da Saúde, Marcelo Castro. Na semana passada, ele anunciou que o governo federal desembolsará 1,9 milhão de dólares em parceria firmada entre o Instituto Evandro Chagas, com sede no Pará, e a Universidade do Texas (EUA) para o desenvolvimento do imunizante.

A expectativa, de acordo com o ministro, é que a vacina contra o zika fique pronta para testes em animais e humanos dentro de um ano, passando a ser produzida em larga escala em três anos. “Há um grande otimismo de que poderemos desenvolver a vacina em um tempo menor que o previsto”, disse Castro. Outras parcerias internacionais estão sendo feitas depois que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou emergência mundial o avanço, nas Américas, dos casos de microcefalia ligada ao zika vírus.

Cientistas
Já na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, onde foi criado um gabinete de crise só para encontrar respostas para a epidemia de zika vírus, cientistas preferem ser mais cautelosos. Mesmo usando os conhecimentos adquiridos com o desenvolvimento da vacina para a dengue, o vice-presidente da entidade, Valcler Rangel, não acredita que os brasileiros possam ser imunizados contra o zika nos próximos dez anos. “A gente não pretende criar expectativa de curto e médio prazos.”

O professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Carlos Brito, por sua vez, é até mais pessimista em relação ao tempo que a vacina deverá demorar para ficar pronta. “A gente espera que seja menor que 20 anos. É preciso que haja segurança e eficácia no desenvolvimento do imunizante. Se for possível reduzir para dez anos, já será um grande avanço”, disse.

História
O zika já era conhecido desde a década de 1940, quando ingressou no Brasil vindo da África. Chegou a desaparecer, mas voltou com força total. Como o Aedes aegypti, vetor do vírus, se reproduz melhor em ambientes quentes e úmidos, os laboratórios multinacionais sediados nos países desenvolvidos, e mais frios, pouco se interessaram em investir em pesquisas nessa área.

“A vacina contra o ebola saiu em tempo recorde porque havia risco para as nações ricas”, comparou o diretor de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch.

Vancler Rangel acredita que os cientistas brasileiros necessitarão da cooperação internacional para desenvolver a vacina contra o zika vírus.

Reportagem – Mariana Monteiro
Edição – Marcelo Oliveira

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