Direitos Humanos

Vítimas do tráfico de órgãos podem passar de 30

04/05/2004 - 20:39  

O número de pessoas aliciadas em comunidades carentes de Recife para a venda de rins à quadrilha envolvida com o tráfico internacional de órgãos humanos pode ser muito maior que as 30 já identificadas pela Polícia Federal. A denúncia foi feita pela advogada Conceição Jansen de Oliveira, durante depoimento nesta terça-feira na CPI que investiga o tráfico de órgãos. Conceição é advogada de cinco pessoas identificadas durante investigação da Polícia Federal e que estão sendo processadas pela venda de um dos rins em troca de quantias que variam entre seis e dez mil dólares.
De acordo com a advogada, as pessoas aliciadas eram, na maioria, humildes e não sabiam que cometiam um crime. Conceição de Oliveira disse à CPI que outras pessoas acusadas desistiram da defesa, muitas por medo. O que caracteriza os transplantados agora, segundo ela, é a discriminação, simbolizada por uma cicatriz de 40 centímetros.

Cirurgias na África
A advogada confirmou as acusações de que o capitão Ivan Bonifácio, uma das quatro pessoas presas pela Polícia Federal, era o homem que aliciava as pessoas para os transplantes. De acordo com a advogada, o capitão não dizia claramente que elas deveriam doar um órgão, apenas insinuava e pedia que elas guardassem segredo. As vítimas passavam por exames físicos e depois eram enviadas a Durban, na África do Sul, onde a operação era feita em um hospital particular.
Na cidade sul-africana, segundo ela, os brasileiros eram obrigados a assinar um termo no qual afirmavam que estavam doando o órgão. Ela disse ainda que alguns receberam propostas para doar outras partes do corpo como córnea e líquido da medula, porém não aceitaram. Conceição Jansen de Oliveira afirmou que alguns dos seus clientes se queixaram de fraqueza, após retornar ao Brasil, mas nenhum chegou a precisar de tratamento hospitalar. Ela disse, porém, que chegou a ouvir dos familiares de pessoas que também teriam vendido seus órgãos, que alguns não voltaram ao País.

Quadrilha internacional
A quadrilha internacional que atuava no tráfico de órgãos em Pernambuco foi desarticulada pela Polícia Federal no final do ano passado, com a prisão de 11 pessoas, sendo dois israelenses e nove brasileiros. O superintendente da Polícia Federal no Estado, delegado Wilson Damazio, que também participou da audiência na CPI, afirmou que a quadrilha planejava instalar um base de transplantes em Pernambuco ou no Ceará. A existência de vôos internacionais regulares nesses Estados facilitaria o esquema para as cirurgias de retirada de rins, realizadas na cidade de Durban, na Africa do Sul. O inquérito relativo à quadrilha que atuava entre Pernambuco e África do Sul já foi enviado à Justiça.

O presidente da CPI, deputado Neucimar Fraga, (PL-ES) afirmou que a situação é preocupante e é necessário investigar todas as ramificações da quadrilha. "Essa quadrilha pode ter uma formação muito mais ampla e organizada. Nossa preocupação é que eles já vieram para o Brasil com o intuito de, a partir daqui, alimentar o mercado internacional e implantar uma base no Brasil", ressaltou o parlamentar.

Missionária
A CPI do tráfico de órgãos pretende ouvir, até o final deste mês, o depoimento da missionária brasileira Maria Elilda dos Santos, que, no ano passado, denunciou, na Organização das Nações Unidas (ONU), a existência de uma rede de tráfico de órgaõs em Moçambique, com suposta atuação no Brasil.

Reportagem - Gizele Benitz
Edição - Maristela Sant´Ana

(Reprodução autorizada mediante citação da Agência)

Agência Câmara
Tel. (61) 216.1851
Fax. (61) 216.1856
E-mail: agencia@camara.gov.br
A Agência utiliza material jornalístico produzido pela Rádio, Jornal e TV Câmara.

Tempo real:

A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura 'Agência Câmara Notícias'.