Bendine admite dívida de quatro vezes o resultado anual da Petrobras
Segundo o presidente da estatal, será necessário vender 40 bilhões de dólares em ativos nos próximos cinco anos para reduzir dívida
14/10/2015 - 21:36

Quase nove meses depois de criada, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras pode ter ouvido hoje o último depoente, o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, que admitiu o alto grau de endividamento da companhia e a necessidade de vender 40 bilhões de dólares em ativos nos próximos cinco anos para reduzir o índice.
O prazo regimental para os trabalhos da CPI termina no próximo dia 23 e, para ser prorrogado, é preciso aprovação do Plenário da Câmara. Caso contrário, o relator da comissão, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), terá que apresentar seu relatório final, no máximo, até o dia 20 – em razão de outro prazo regimental, o de duas sessões do Plenário, para votação do relatório.
No depoimento à CPI, Bendine, admitiu que a empresa vai precisar vender ativos para poder reduzir suas dívidas, que hoje são equivalentes a quatro vezes todo o resultado anual da empresa.
Ele informou que a Petrobras pretende vender o equivalente a 15 bilhões de dólares em ativos até o final de 2016, valor que totalizará 40 bilhões de dólares em um prazo de cinco anos.
Bendine disse isso ao responder pergunta do deputado Antonio Imbassahy (PSDB-BA). “Em 2010, a dívida da Petrobras era de R$ 116 bilhões e hoje é de R$ 500 bilhões. Como se chegou a isso? Como a Petrobras pretende resolver isso?”, perguntou o deputado.
Segundo Bendine, essa estimativa, em reais, provoca uma distorção em função do aumento do valor do dólar. “Mas realmente o endividamento é um dos problemas da Petrobras, que tem índice Ebitda (sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) hoje em torno de 4”, disse. “Isso significa que a Petrobras tem uma dívida igual o seu resultado de quatro anos e pretendemos reduzir isso para três no final de 2016”, completou.
Corrupção
O presidente da Petrobras admitiu ainda que a empresa sofreu o impacto de casos de “fraude e corrupção”, mas que esse não foi o único fator responsável pelo grande endividamento.
De acordo com Bendine, a queda do preço do barril do petróleo e o câmbio também tiveram impacto na saúde financeira da companhia, já que quase toda a dívida é em moeda estrangeira. “Em 2014 o barril do petróleo chegou a custar 114 dólares e caiu para 50 no final do ano”, disse.
Mesmo assim, ele se mostrou otimista com o futuro da Petrobras. Bendine anunciou que a empresa vai chegar ao fim do ano com 20 bilhões de dólares em caixa – o dobro do previsto no início do ano.
Ela ratificou a conclusão do balanço auditado da empresa, divulgado em abril, que apontou pagamentos indevidos no valor de R$ 6 bilhões – dos quais a empresa recuperou cerca de R$ 300 milhões. “Esse balanço, referente a 2014, resgatou um pouco a credibilidade da empresa no mercado”, disse.
Planos
Bendine também falou dos planos da companhia para o futuro, em especial no que diz respeito a investimentos comprometidos pela Operação Lava Jato, como a refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco), o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e os navios-sonda encomendados à empresa Sete Brasil.
Em relação aos navios, ele informou que a Petrobras está renegociando os 28 contratos assinados com a Sete Brasil, empresa que enfrenta dificuldades financeiras, o que já causou a demissão de cerca de 30 mil trabalhadores desde a deflagração da Operação Lava Jato.
A Sete Brasil, uma empresa privada, foi criada por iniciativa da Petrobras especificamente para construir as sondas. Um dos seus diretores, Pedro Barusco, é um dos delatores da Lava Jato e disse que houve pagamento de propina por parte dos estaleiros.
A empresa parou de pagar os estaleiros contratados por ela em novembro do ano passado, depois que o BNDES não liberou o empréstimo de 18 bilhões de dólares – financiamento que tinha sido aprovado pela diretoria do banco quando a empresa foi criada.
Bendine disse que os contratos serão renegociados e terão tamanho “menor” que o previsto antes da Operação Lava Jato. “A demanda da Petrobras por navios-sonda é bem menor que a do plano de negócios anterior”, disse. Ele não informou o valor da redução dos contratos.
O presidente da Petrobras disse ainda que a empresa vai concluir as obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e está buscando parceiros internacionais para concluir o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).
Segundo Bendine, a primeira fase da Abreu e Lima já está em operação e a segunda fase vai exigir investimentos de R$ 3 bilhões da empresa para ser concluída. “A primeira fase não está ainda em pleno funcionamento por questão de licença ambiental e a segunda fase já está 87% pronta”, disse.
Em relação ao Comperj, Bendine disse que já há três parceiros em vista para concluir o complexo.
Reportagem - Antonio Vital
Edição - Regina Céli Assumpção