Operações fraudulentas de câmbio chamam a atenção de deputados da CPI
12/05/2015 - 20:44

O depoimento da doleira Nelma Kodama à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, nesta terça-feira (12), chamou a atenção dos membros da comissão para a legislação que regula o mercado financeiro e permite, segundo eles, operações fraudulentas de câmbio e remessas ilegais ao exterior, com o uso de empresas de fachada.
Kodama, condenada a 18 anos de prisão por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, disse que a legislação brasileira que regula o mercado financeiro é falha, corrupta e existe “porque há participação dos bancos, das instituições financeiras e do Banco Central”.
Ela fez essa afirmação ao responder perguntas do deputado Celso Pansera (PMDB-RJ). “De onde vinha o dinheiro usado nas operações? De onde vinha o dinheiro vivo, em papel-moeda?” perguntou o deputado. “Das próprias instituições financeiras, os bancos”, respondeu ela. “Que bancos?” perguntou o deputado. “O Banco do Brasil, por exemplo, na agência de Rio Branco”, respondeu.
Ela já havia mencionado o nome de um ex-gerente geral do Banco do Brasil que tinha negócios com o doleiro Raul Srour. “Os bancos ganham [com esse esquema], e eu vou detalhar isso na minha delação. Eu tenho documentos que provam que os bancos, os gerentes gerais, estão envolvidos”, disse.
Legislação financeira
Diante das respostas da doleira, o deputado Pansera disse que a CPI precisa tratar também de propostas relativas à legislação do setor financeiro. “A CPI não tem só que botar gente na cadeia. Temos que resolver também problemas de legislação. Estamos vendo aqui um submundo que envolve milhões de reais, que está passando em branco. Qual é o maior ativo do doleiro Alberto Youssef? O domínio dessa rede, que envolve casas de câmbio”, disse.
Ele deu o exemplo de Iara Galdino, ouvida na segunda-feira (11) pela CPI. Ela disse ganhar R$ 20 mil por mês apenas para abrir empresas de fachada para o esquema de Nalma Kodama, e que isso corresponde apenas a uma comissão de 0,5% do valor dos contratos.
Kodama disse que os operadores de câmbio têm conhecimento das brechas do sistema e pretende esclarecer isso em sua delação premiada, ainda em fase de negociação. “Toda essa corrupção, tudo isso que está acontecendo, das empreiteiras, da Petrobras, tem a participação do Banco Central, das instituições financeiras, e se não houver uma mudança na legislação e até se utilizar da gente, porque a gente tem conhecimento das brechas, isso nunca vai terminar”, disse.
Movido pela corrupção
Apesar de se negar a responder perguntas dos deputados sobre a Operação Lava Jato, Nelma Kodama falou sobre sua atividade. Segundo ela, o Brasil “é movido pela corrupção”. E exemplificou com as investigações feitas pela Operação Lava Jato a respeito de desvio de dinheiro e pagamento de propina de empreiteiras contratadas pela Petrobras: “Quando parou a corrupção (na Petrobras), o Brasil parou”, disse.
“É o que eu chamo no meu mercado de bike, bicicleta: um santo descobrindo o outro. Estamos na corrupção da Petrobras, dos empreiteiros, e o que aconteceu (quando isso foi descoberto): o País entrou em crise, numa recessão”, disse.
Evasão de divisas
Ela já havia admitido à CPI que praticou evasão de divisas mediantes operações fictícias de importação. O deputado Izalci (PSDB-DF) perguntou a ela que brechas existem no sistema financeiro que permitem operações irregulares de câmbio. “Que mudanças seriam necessárias para evitar evasão de divisas por meio de importações fictícias? Ninguém checa se a importação é verdadeira?” perguntou.
“Deveria ter. Eu também me pergunto. Como pode fazer uma importação e não vir nada? Tem vários tipos. O câmbio antecipado, que você paga e depois a mercadoria vem. Só que às vezes não vem”, disse ela.
“Esse depoimento deixou claro que devemos nos debruçar sobre a legislação que regulamenta esse tipo de atividade”, também ressaltou o deputado Antonio Imbassahy (PSDB-BA).
Reportagem – Antônio Vital
Edição – Newton Araújo