Agropecuária

Para deputado, governo investe pouco em substituição do plantio do tabaco

Convenção da OMS para controle do fumo prevê que países signatários promovam alternativas para produtores; Brasil é o terceiro maior produtor mundial. Defensores do tabaco dizem que famílias dependem da cultura para viver.

28/05/2014 - 15:28  

Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
As comissões de Seguridade Social e Família (CSSF) e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR) realizam o seminário:
Perondi (D): SUS gasta muito dinheiro no tratamento de doenças ligadas ao tabagismo.

A substituição da cultura agrícola do tabaco no Brasil causou polêmica em seminário promovido pelas comissões de Seguridade Social e Família, e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (28).

Na avaliação do deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), um dos que solicitaram o debate, o investimento do Ministério do Desenvolvimento Agrário no programa de extensão rural para diversificação da produção de tabaco é muito pequeno. Ele ressaltou que foram investidos R$ 75 milhões em três anos. “Deveria haver foco orçamentário da pasta na diversificação da cultura do tabaco”, opinou. Perondi salientou os altos gastos do Sistema Único de Saúdo (SUS) com o tratamento de doenças associadas ao tabagismo, que incluem câncer e doenças cardiovasculares.

Já o representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Hur Bem, explicou que, hoje, 11 mil famílias estão sendo atendidas por programa de diversificação da produção. Conforme ele, são famílias que atenderam à chamada pública do ministério e optaram por fazer parte do programa. “O tabaco é uma tradição, que passa de pai para filho, e muitas famílias só sabem fazer isso”, ressaltou, explicando a dificuldade de promover a substituição de culturas agrícolas. Ele salientou ainda que os produtores de tabaco são sobretudo agricultores familiares, de baixa renda. “Temos obrigação de apoiar essas famílias”, completou.

Convenção
A reunião discutiu a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), adotada pela Assembleia Mundial da Saúde em 2003 e ratificada pelo País em 2005. A CQCT é o primeiro tratado internacional de saúde pública da história da Organização Mundial da Saúde (OMS, subordinada à Organização das Nações Unidas – ONU).

Arquivo/Gustavo Lima
Luis Carlos Heinze
Já Luis Carlos Heinze defendeu a importância do tabaco para a economia brasileira.

Entre outros pontos, os países signatários se comprometem a promover alternativas economicamente viáveis para os trabalhadores e os cultivadores de tabaco. O Brasil é o terceiro maior produtor de tabaco e o maior exportador do mundo – 85% da produção são vendidas para outras nações. Cerca de 180 mil famílias brasileiras sobrevivem da produção de fumo, sendo cerca de 160 mil na Região Sul e o restante na Região Nordeste. O número total era de 198 mil, quando a convenção foi assinada.

Para a representante do Ministério da Saúde no seminário, Tânia Cavalcanti, os estados e os municípios produtores de tabaco devem com urgência diversificar sua matriz produtiva. Ela salienta que está havendo redução global no consumo de cigarro e afins (com exceção da República Tcheca) desde que a convenção foi assinada, o que vai impactar a produção. Mas, segundo ela, há resistência de gestores brasileiros, inclusive locais, e de produtores em promover a substituição da cultura agrícola.

Defesa do tabaco
Por sua vez, o representante do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Sávio Rafael, destacou a importância da produção do tabaco para a economia brasileira. De acordo com ele, o País exporta mais de 3 bilhões de dólares de fumo ao ano. Na visão dele, até agora não foram apontadas alternativas viáveis economicamente para as famílias produtoras. “Devem ser propostas medidas positivas para esses produtores, e não coercitivas e constrangedoras”, observou. Ele acrescentou que a produção de fumo é uma das mais autossustentáveis do País, não dependendo do governo, como outras culturas.

Representante do Ministério da Saúde explica convenção da OMS sobre controle do tabaco.

Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS) também defendeu os produtores de tabaco. Ele informou que 656 municípios da Região Sul têm como atividade principal a lavoura do fumo. “O que vão fazer esses municípios se essa atividade for retirada?”, questionou, acrescentando que mudar a cadeia produtiva de um local não é tarefa fácil.

Já o presidente da Comissão de Seguridade Social e Família, deputado Amauri Teixeira (PT-BA), ressaltou que, em alguns municípios na Bahia, isso já aconteceu. “A cultura do fumo foi substituída gradualmente pela fruticultura”, apontou. Ele afirmou que a substituição da produção de tabaco não deve ser autoritária, e sim estimulada.

Queda no número de fumantes
De acordo com Tânia Cavalcanti, no Brasil, onde ações antitabagismo começaram a ser adotadas antes da convenção da OMS, o número de fumantes caiu de 32% em 1989 para 17% em 2008. Desde que a convenção foi assinada, conforme a representante do Ministério da Saúde, 75% dos países signatários criaram políticas tributárias para coibir a indústria do fumo; 75% baniram propagandas de tabaco; e 75% colocaram avisos e advertências sobre os malefícios do fumo nas embalagens de cigarro.

Ela demonstrou, porém, preocupação com o crescimento recente e acelerado do uso do chamado cigarro eletrônico (dispositivo eletrônico que usa extrato de tabaco), ainda não liberado para venda no Brasil.

Reportagem – Lara Haje
Edição – Marcelo Oliveira

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