Desafio da CPMI é identificar finanças de Cachoeira, dizem procuradores
Deputados e senadores da comissão de inquérito vão compartilhar dados sobre quebra de sigilos com o Ministério Público, para poder avançar nas investigações sobre a organização do contraventor.
21/08/2012 - 18:55
Os procuradores da República que depuseram nesta terça-feira na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira compararam a organização do contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos à máfia. Segundo eles, o grupo continua articulado e o próximo desafio, tanto para a comissão quanto para o Ministério Público (MP), será identificar o braço financeiro da organização, a partir de possíveis fraudes em licitações, e estimar o patrimônio total do grupo.

“Essa investigação ainda não foi iniciada. É o grande desafio do Ministério Público e da CPMI”, disse a procuradora Léa Batista de Oliveira, responsável pela investigação decorrente das operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal (PF). "Enquanto não conseguirmos sufocar a parte financeira da organização criminosa, ela continuará viva e operando, independentemente de o chefe estar preso ou não", afirmou.
Segundo a procuradora, a apuração policial só conseguiu mostrar a “ponta do iceberg” da organização do contraventor, no que se refere à exploração de jogos e à cooptação de servidores públicos nas esferas federal, estadual e municipal. De acordo com Léa Batista, o principal motivo foi o tamanho reduzido do efetivo da Operação Monte Carlo: quatro agentes da PF, um delegado e dois procuradores.
Vazamento de informações
O procurador Daniel Rezende Salgado disse que o início da operação Monte Carlo foi antecipado por causa do vazamento de informações e isso fez com que outras ramificações da organização não fossem investigadas. “Havia uma parte empresarial do grupo criminoso e não conseguimos investigar. Temos um material bruto que precisa ser submetido à análise", destacou.
De acordo com o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), diante da falta de dados sobre esses pontos específicos, aumenta a responsabilidade da CPMI para investigar os desdobramentos financeiros da organização. Ele voltou a cobrar a quebra do sigilo de outras empresas supostamente de fachada localizadas em outros estados, além de Goiás.
Dados compartilhados
Para ampliar esse enfoque de investigação, a comissão resolveu dar ao MP acesso às informações já recolhidas, como quebra de sigilos bancários. De acordo com o relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), a decisão é essencial para manter o bloqueio judicial de R$ 167 milhões em bens móveis e imóveis da organização criminosa, citados pelo procurador. “Precisamos ver se conseguimos manter o sequestro de bens. Devemos fazer um trabalho articulado e conjunto e desmontar definitivamente a organização”, afirmou.
Os procuradores também deram informações novas sobre a atuação de dois integrantes do grupo de Cachoeira. Léa Batista afirmou que Idalberto Matias Araújo, conhecido como Dadá - ex-sargento da Aeronáutica e acusado de ser o "araponga" de Cachoeira - recebia mensalmente R$ 5 mil reais da organização. “Era o informante que gozava de confiança do Cachoeira, porque tinha acesso a várias autoridades. O que ele falava, o Cachoeira confiava.” Segundo os procuradores, ele seria responsável também pela arregimentação de agentes e por organizar trabalhos policiais para fechar casas de concorrentes do grupo criminoso.
Já o contador Geovani Pereira da Silva, apontado como tesoureiro do esquema de Cachoeira, seria a “memória financeira” da organização. “Ele sabia dizer de cor se um valor teria sido repassado. Tinha um conhecimento muito grande da área financeira”, disse o procurador Daniel Rezende. Ele seria responsável por disponibilizar valores para pagar policiais que colaboravam com o grupo do contraventor.
Novos depoimentos
Nesta quarta-feira (22), a CPMI tem mais dois depoimentos marcados, desta vez, com acusados de envolvimento no esquema de Cachoeira: Jayme Rincón, presidente da Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas (Agetop); e o ex-corregedor-geral da Secretaria de Segurança Pública de Goiás, Aredes Correia Pires. Os dois pediram habeas corpus ao Supremo Tribunal Federal para assegurar o direito de ficar em silêncio. E a prática da CPMI é liberar quem alega que vai usar o direito de ficar calado em todas as perguntas.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Newton Araújo