Moradores têm dificuldades de sair das colônias e voltar
11/06/2012 - 09:00

José Messias era jovem quando chegou à colônia de Curupaiti e trabalhou como técnico de laboratório por 36 anos. “O hospital está velho, assim como os moradores. Trabalhamos aqui a vida inteira cuidando dos outros companheiros e hoje somos tratados com descaso”.
Messias expressa seus questionamentos fazendo poesia, mas essa liberdade não é concedida a todos os moradores de Curupaiti. Durante a visita da reportagem, a secretaria estadual de saúde limitou o contato da equipe de jornalistas com os moradores. Como um resquício dos tempos de isolamento, os moradores vivenciam uma contradição. O cotidiano revela que, muito mais do que em um hospital, as pessoas estão em sua casa. A vila de moradores abriga cerca de 1.500 pessoas e até bebidas alcoólicas são vendidas dentro da colônia. Mas, para falar, existe o controle do poder público que gerencia o local.

Fora do mapa
“Aqui, a gente está fora do mapa”, resume Ana Cândido, moradora da colônia Santa Marta, em Goiânia. Há dois anos, a vila de moradores que antes ficava dentro da colônia foi separada da área hospitalar por grades. Apenas 32 pacientes seguem na parte hospitalar, enquanto a vila ainda abriga cerca de 100 moradores, ex-internos e seus familiares. “Estamos fora do mapa de Goiânia. O diretor colocou grades nos separando, mas até hoje não temos um CEP e temos que buscar as cartas lá no hospital. Ninguém entrega aqui pra gente não”, revela Ana Cândido, sentada ao lado de outras idosas moradoras da vila.
Maria Cardoso, ao lado do marido Vicente, aponta o empurra-empurra no atendimento médico: “Não podemos usar a ambulância do hospital, pois o diretor diz que temos que receber atendimento municipal. Aí quando ligamos para o Samu, as pessoas alegam que estamos dentro de um hospital. Então eu queria perguntar ao governo: a quem devemos recorrer?”

Já Vicente ressalta que as reclamações dos moradores são desqualificadas. “Dizem que somos loucos”, pontua o morador, que está na colônia há mais de 50 anos. “Fizeram todas essas mudanças e ninguém se dignou a vir conversar com a gente”, finaliza. O casal mora próximo ao antigo cemitério da colônia, hoje abandonado. “Às vezes, algum parente vem procurar o túmulo de um familiar, mas não tem como saber onde as pessoas estão”, conta Maria Cardoso.
Do outro lado, o diretor do Hospital de Dermatologia Sanitária- antiga colônia Santa Marta, Wolf São Geraldo, alega que as mudanças implantadas estão dentro das diretrizes do Ministério da Saúde de que o atendimento dos moradores deve ser responsabilidade municipal. “Há algum tempo, um morador fraturou a bacia e queria que nós fizéssemos o transporte para um hospital, mas nós não estamos preparados para isso”, afirma o diretor, lembrando que o hospital é gerido pelas normas estaduais. No entanto, o hospital dispõe de ambulância para o transporte dos 32 pacientes que seguem internados na área hospitalar. “Para esses pacientes sim, se precisarem de transporte, é claro que vamos fazer”, ressalta.
Menos de 10 metros separam a vila de moradores da atual área hospitalar.

Direito de ir e vir
Outra mudança implantada pela gestão atual da antiga colônia Santa Marta se refere ao direito de os pacientes internos saírem do hospital. Em diversas colônias no Brasil, incluindo Curupaiti, os pacientes podem sair para visitar parentes que não têm condições de cuidar deles em tempo integral. Mas há cerca de três anos, uma nova regra passou a vigorar: para sair, o paciente precisa assinar uma alta e não recebe autorização para retornar. Joaquim Vieira, interno na Santa Marta, se emociona ao dizer que tem saudades da mãe. Temendo sair e não conseguir voltar, há mais de dois anos ele não a vê.
A decisão afetou diversos moradores que viviam na colônia há décadas. É o caso de Antônio Batista dos Santos, de 110 anos. Morador da colônia desde a década de 50, ele saiu para visitar a irmã de uma companheira já falecida. Era um costume que tinha há muitos anos. Assinou a alta ouvindo a promessa que “dariam um jeito no seu retorno”. Não foi o que aconteceu. Ele passou a viver com Valdeise Gomes. “Fui a vários lugares e não teve jeito. A assistente social que me atendeu até falou que isso era maldade, mas não conseguiu mudar a decisão”, relata Valdeise.

O diretor Wolf São Geraldo argumenta que existia uma cultura errada e que é preciso ter regras em uma unidade hospitalar. “Eles queriam sair para visitar a namorada, trazer a namorada aqui para dentro. Tudo isso agora acabou. As pessoas esquecem que vários criminosos se escondiam aqui na época em que todo mundo podia entrar e sair. Disso ninguém fala”, critica.
A Comissão de Direitos Humanos está programando uma audiência pública para debater a situação das pessoas que tiveram hanseníase no Brasil. O presidente da comissão, Domingos Dutra (PT-MA), avalia que o tema realmente está fora da Câmara. "Aqui no Parlamento e na vida, é visto quem pressiona e quem tem organização, e eles, pelo medo, pelo preconceito e pelo isolamento, acabam ficando invisíveis aos olhos de todos nós", ressalta o deputado, que se comprometeu a incluir a hanseníase na agenda de debates do Congresso.
Reportagem- Daniele Lessa Soares/Rádio Câmara
Edição- Mariana Monteiro