Institucional
25/10/2010
Colóquio debate atuação política de Joaquim Nabuco (parte1)
O colóquio "Joaquim Nabuco: o resgate de um capítulo da História do Brasil", realizado no dia 20 de outubro, discutiu o papel de Joaquim Nabuco como político, diplomata e pensador brasileiro. A discussão faz parte da comemoração feita pela Câmara pelo centenário de morte do ex-deputado. Ele atuou no Parlamento como representante de Pernambuco, começando em 1878, e tendo sido eleito e derrotado diversas vezes, até que abandonou a vida política com a proclamação da República, de que foi opositor, em 1889.
Das tribunas da Câmara, Joaquim Nabuco foi o deputado abolicionista mais famoso que o Brasil conheceu. A abolição da escravatura, em que ele teve participação definitiva, veio. Mas a reforma agrária e a educação para os escravos, como ele defendia, nunca foram alcançados. "Ele queria uma pátria com justiça social, mas a desigualdade é uma chaga que vem desde o tempo de Nabuco, e se tornou esse abismo em que a parcela mais rica do Brasil tem 40 vezes mais que a parcela mais pobre", disse o deputado Chico Alencar (Psol-RJ).
Reformas sociais
"Ainda hoje há pessoas que se alimentam menos que escravos, e a desigualdade aumentou. Hoje os filhos dos donos de engenho têm acesso à educação e aos melhores hospitais, mas os descendentes de escravos estudam mal e morrem por falta de tratamento. Essa é a desigualdade do nosso tempo, que é tão imoral quanto a escravidão", completou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF).
Alencar é professor de história, e Buarque, também professor, escreveu um livro sobre os dez dias em que a abolição tramitou pelo Parlamento brasileiro antes de sua aprovação. Os dois concordaram que o liberalismo reformista de Nabuco seria atual ainda hoje, com o argumento de que as reformas de base pretendidas à época sempre são feitas pela metade.
Para o historiador José Murilo de Carvalho, membro da Academia Brasileira de Letras, de que Nabuco foi fundador, a ideia do abolicionismo era a de que não seria possível fundar uma nação livre e soberana sem uma parcela da cidadania. "Nabuco falava em emancipação dos escravos, de reformas sociais, e a construção dessa nova pátria não poderia ser feita sem igualdade de condições entre todos", disse.
Papel do Parlamento
Nabuco conhecia os meandros da política de sua época, e apesar de ter sido apenas deputado, é mais conhecido hoje que presidentes e ditadores brasileiros. "Ele foi deputado para defender ideias, e não o pragmatismo, dizia que fazia Política com P maiúsculo, e para ele não importava nem o partido nem o regime, podiam ser conservadores, liberais, monarquistas, o que ele queria era realizar as reformas", explicou Chico Alencar.
Segundo o professor Antônio Barbosa, que é consultor do Senado, Nabuco compreendeu como poucos o papel do Parlamento naquela época, e aprendeu o funcionamento da Câmara. Ele pôde defender várias causas, como a divisão do Brasil numa federação, além da abolição, porque se tornou uma referência como parlamentar, além de excelente orador.
"Ele perdeu duas eleições, em parte porque tinha um projeto de nação, mas o voto é local. Não sei se há muito espaço hoje para deputados que defendem ideias, porque os temas são planetários, como o meio ambiente, mas o eleitor se preocupa com o que você pode fazer por ele em particular", ponderou Cristovam Buarque.
"Da mesma forma, ele não era um político profissional, e não iria continuar no Parlamento sem uma causa. Passada a abolição e com a chegada da República, ele não achou espaço para sua atuação, e se retirou da vida política", completou Antônio Barbosa.
A professora Maria de Lourdes Parreiras Hortas, que analisou a obra de Nabuco como escritor, disse que apesar de ser um aristocrata e de ter se tornado diplomata, Nabuco amava a língua portuguesa, e via nela sua pátria. Sua paixão pela alfabetização vinha daí, segundo ela. "Todos conhecem Nabuco como um grande retórico e um grande orador, escritor de obras memorialistas e políticas, mas para ele, seus discursos para o povo de Recife, durante a campanha, eram os mais relevantes", disse.
Fonte: Agência Câmara