Sempre Um Papo
30/07/2010
Lya Luft (escritora e tradutora) (bl.1)
O programa Sempre Um Papo recebe a escritora Lya Luft para debate sobre o livro “Múltipla Escolha”. Na obra, a autora pondera sobre alguns mitos enganosos da nossa cultura, que, embora criados por nós, dificultam nossa tarefa existencial.
De acordo com Lya Luft, a vida é um cenário com um palco e com muitas portas, e diversas maneiras de encarar esse jogo: como um trajeto, um naufrágio, um poço, uma montanha. E somos, em parte, resultado das nossas próprias decisões. Os homens desde sempre criaram mitos para explicar o que não poderiam entender: o nascimento e morte; nossos impulsos mais sombrios; o desejo de eternidade. No entanto, Lya Luft mostra que muitos desses mitos fundadores se modificaram na nossa sociedade moderna, e faz neste ensaio uma profunda reflexão sobre o que chama de “nossos enganos”, os mitos modernos criados para abafar a angústia e disfarçar a futilidade do nosso dia a dia.
Um exemplo disso é a suposta liberdade que alcançamos. Longe de uma sociedade livre, somos, nessa nossa cultura impositiva tão cheia de obrigações, prisioneiros padecendo do que a autora chama de síndrome do “ter de”. Da busca pela eterna juventude à ética na política, passando pelas transformações da família, Lya Luft mostra o quanto estamos enredados em práticas opressoras e que é importante assumir as rédeas de nossa vida e o caminho da nossa sociedade e cultura.
Trecho do livro:
“Como raramente cumprimos esses mandados, já ao levantar de manhã nos acompanha a sensação de que algo está errado conosco: dúvida e frustração. Somos severos cobradores das nossas próprias ações. No esforço de realizar tarefas que talvez nem nos digam respeito, tememos olhar em torno e constatar que muita coisa falhou. Se falharmos, quem haverá de nos desculpar, de nos aceitar, onde nos encaixaremos, nesse universo de exitosos, bem-sucedidos, ricos e belos? Pois não se permite o erro, o fracasso, nesse ambiente perfeito. Duro dizer ‘amei torto, ignorei meus filhos, falhei com minha parceira ou parceiro, votei errado, fracassei na profissão, não ajudei meu amigo, abandonei meus velhos pais e esqueci meus sonhos’.”
Sobre a autora:
Lya Luft começou sua carreira em 1980, aos 41 anos, com a publicação do romance "As parceiras", seguido por "A asa esquerda do anjo" (1981), "Reunião de família" (1982), "Mulher no palco" (1984), "O quarto fechado" (1984), "Exílio" (1987), "O lado fatal" (1988), "A sentinela" (1994), "O rio do meio" (1996, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes), "Secreta mirada" (1997), "O ponto cego" (1999), "Histórias do tempo" (2000), "Mar de dentro" (2002), "Perdas & Ganhos" (2003), "Pensar é transgredir" (2004) e, no mesmo ano, "Histórias de Bruxa Boa", sua estreia na literatura infantil, tema que retornaria em 2007 com "A volta da Bruxa Boa". Em 2005, publicou o volume de poemas "Para não dizer adeus" e, em 2006, a reunião de crônicas "Em outras palavras". Em 2008, publicou o livro de contos "Silêncio dos Amantes". Em 2009 voltou à literatura infantil, publicando junto com seu filho, o filósofo Eduardo Luft, "Criança pensa", seguindo a linha de pensamento que busca estimular na infância e adolescência a observação, análise e discernimento. Formada em letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya foi professora titular de Linguística de 1970 a 1980. Depois disso, dedicou-se unicamente à tradução e à sua literatura. Desde os 20 anos atua como tradutora de alemão e inglês, e já verteu para o português obras de autores consagrados, como Virginia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 pela tradução de "Lete: Arte e crítica do esquecimento", de Harald Weinrich. Desde 2004, assina a coluna Ponto de vista, da revista Veja.