Semana da Criança
Adoção: um ato de amor
17/10/2003 - 00h00
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Adoção: um ato de amor
Sonora: "Eu ser filha adotiva é só um detalhe. Eu sempre fui criada com muito amor, com muito carinho, sempre me senti mais especial do que as outras crianças porque eu fui escolhida. A minha mãe sempre foi maravilhosa comigo, nunca houve nenhum tipo de preconceito, ela não deixou. Sempre foi dito assim, ela é minha filha, ela nunca fala 'é minha filha adotiva".
O testemunho de Thaís Bonfim, de 25 anos, demonstra que o abandono de um bebê nem sempre representa o fim das esperanças. No caso das crianças que são adotadas, é a prova de uma virada no destino e o começo de uma nova vida. Thaís foi adotada com 48 horas de nascida e soube desde pequena que não era filha natural de sua mãe, o que sempre foi motivo de orgulho para ela.
De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, os maiores de 21 anos podem adotar, havendo diferença de 16 anos adotante e adotado. Os avós e irmãos do menor não podem adotá-lo, assim como duas pessoas do mesmo sexo não podem adotar em conjunto. Toda criança ou adolescente até 18 anos de idade pode ser adotada, sendo que os maiores de 12 anos devem concordar com a adoção, que é irreversível. Quando a pessoa quer adotar uma criança, deve entrar em contato com a Vara da Infância, onde passa por um processo de sensibilização no serviço psicossocial, com palestras e encontros, como explica o chefe da Seção de Adoção da Vara do DF, Walter Gomes de Souza.
Sonora: "Ela pode estar acolhendo um recém-nascido, e esse recém-nascido vai se desenvolver. E riscos ocorrem, problemas vão se manifestar ao longo do tempo. E é necessário que essas pessoas sejam devidamente preparadas. OU seja, uma criança entregue judicialmente para adoção não é um brinquedo, é um ser humano".
Uma série de documentos é exigida pela justiça aos possíveis adotantes. A partir daí, eles preenchem uma ficha com suas preferências. E é justamente o perfil desejado que vai definir o tempo de espera dos ansiosos papais. Segundo o movimento Agora Brasil, 64% dos filhos adotivos brasileiros são brancos, 60% são meninas e 69% eram recém-nascidos na época da adoção. Os dados comprovam o perfil mais solicitado pelos candidatos a pais adotivos. Existe uma fila de requerentes e de crianças prontas para serem adotadas, explica o chefe da Seção de Adoção da Vara da Infância do DF, destacando que o número de meninas brancas disponíveis para adoção é mínimo, justamente o perfil mais desejado. Dessa forma, o processo de adoção pode durar anos. Além disso, a justiça vai decidir se o pretendente pode ou não adotar, promovendo um estudo de cada caso. Quando surge, enfim, a oportunidade de adoção, pais e filhos passam por um período de adaptação mútua, que pode ser dispensado no caso de criança de até um ano de idade. O deputado Severiano Alves, do PDT baiano, membro da frente parlamentar da adoção, destaca que um ante-projeto de lei para criar a Lei Nacional de Adoção está sendo elaborado, a fim de desburocratizar o processo, que, segundo ele, acaba penalizando as crianças.
Sonora: "Eu acho que o processo de adoção deveria ser resolvido numa sentada só, numa única audiência. Mas hoje tem um processo investigatório. Eu até acho que deva continuar tendo, mas isso é uma fase preliminar que é feito sem ainda ocorrer o processo. Se as pessoas levam as provas que têm condição financeira, têm lar, que têm endereço, que trabalham, mostra que têm uma família organizada, então isso é o bastante".
Entretanto, o chefe da Seção de Adoção da Vara da Infância do DF, Walter Gomes de Souza, ressalta que é importante garantir o maior benefício para a criança a ser adotada, por isso a necessidade de tantos critérios. Ele relata que sua experiência no trabalho com a adoção traz alguns momentos emocionantes, tanto tristes quanto felizes. Mas ele prefere lembrar os bons, como quando pais e filhos adotivos, quando se encontram pela primeira vez, vivem um momento de celebração, como se fosse realmente um parto. E quem disse que não é?
De Brasília, Adriana Magalhães.