Semana da Criança
Especialistas defendem qualidade na alfabetização
17/10/2003 - 00h00
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Especialistas defendem qualidade na alfabetização
59% dos alunos brasileiros chegam à 4ª série do ensino fundamental sem saber ler, ou lêem apenas frases simples, sendo que, no nordeste, esse número chega a 75% . Somente 5% dos alunos
apresentaram desempenho esperado na série em que estão. 52% dessas mesmas crianças têm profundas deficiências em Matemática. Os dados são resultado do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica - Saeb - de 2001. Os números mostram uma realidade dura: as crianças podem até estar na escola, mas isso não basta para que elas aprendam. E a alfabetização é a alavanca para o resto da vida escolar do aluno. Para discutir novos caminhos da alfabetização infantil, a Comissão de Educação da Câmara promoveu um seminário, em setembro. Especialistas brasileiros e estrangeiros analisaram as políticas de alfabetização no Brasil, compararam com outros países, Inglaterra, França e EStados Unidos, e produziram um relatório, que foi apresentado no seminário. O coordenador do grupo de trabalho, João Batista Oliveira, apontou algumas conclusões da pesquisa: em relação ao método, existe uma grande diferença entre o que se faz no Brasil e no resto do mundo. Segundo João Batista, a concepção brasileira é ultrapassada.
Sonora: "O problema do Brasil é que o Brasil é preocupado com vestibular, faculdade, pós-graduação e dá pouca prioridade à alfabetização infantil. Se esse relatório suscitar, nas pessoas responsáveis pelo país, a idéia de que é fundamental a alfabetização das crianças, o relatório já contém o mapa da mina, o caminhoa ser percorrido, o mais importante é as pessoas se conscientizarem que essa deve ser a preocupação maior da educação no Brasil, alfabetizar as crianças que entram na escola."
A vice-presidente da Comissão de Educação, deputada Raquel Teixeira, do PSDB de Goiás, alerta que existem outros aspectos que contribuem para a baixa qualidade, além do método.
Sonora: "Claro que você não pode avaliar o resultado, o sucesso ou fracasso de um aluno apenas pelo método usado. Você tem que olhar a formação de professores, a qualidade da escola, as condições de trabalho. O Brasil tem todo um contexto de salários baixos, de não-prioridade da educação, uma cultura toda que a gente sabe que muda muito lentamente".
A deputada Raquel Teixeira sugere que as secretarias de educação utilizem dois ou três métodos diferentes de alfabetização, para definir o mais adequado. Ela explica que a motivação para a realização do estudo foi um teste internacional realizado em 2001 em que os alunos brasileiros ficaram em último lugar. Os resultados ordinários dos alunos brasileiros também motivaram o ministério da Educação a pensar mais na qualidade do ensino no Brasil. Tanto que, em junho, o MEC lançou o programa Toda Criança Aprendendo. A Secretaria de Educação Infantil e Fundamental do ministério, Maria José Ferres, comenta os detalhes do programa.
Sonora: "Essa política já está em andamento no país. Tanto a ampliação do ensino fundamental para nove anos, nós estamos levantando, junto a estados e municípios, as condições para a implementação dessa medida, o fortalecimento dos sistemas estaduais de avaliação, e a valorização e formação de professores, com a discussão de piso salarial, diretrizes nacionais de carreira, e a institucionalização de um sistema nacional de formação continuada e certificação docente"
Durante o seminário realizado na Câmara, a secretária recebeu o relatório da pesquisa. O documento traz algumas recomendações como requisitos claros para a formação inicial de professores alfabetizadores, com sistema de certificação.
De Brasília, Adriana Magalhães.