Reportagem Especial
Enchentes
01/03/2013 - 15h07
A região serrana do Rio de Janeiro sempre sofreu com as enchentes, mas nada comparado ao que aconteceu no começo de 2011, ano da maior tragédia climática do Brasil. Oficialmente, foram 918 mortes. Moradores dizem que foi muito mais. Cerca de 160 pessoas continuam desaparecidas até hoje. 9 mil perderam suas casas. Para ver o que foi feito de lá para cá, para evitar que novas tragédias aconteçam, a reportagem da Rádio Câmara foi até dois dos municípios mais atingidos: Teresópolis e Nova Friburgo.
Em Teresópolis, fomos à comunidade Poço dos Peixes, onde 26 pessoas morreram há dois anos. Cinco dos que faleceram eram familiares do Seu Adão Francisco da Silva, de 67 anos, que ficou soterrado por horas depois de um deslizamento de terra.
"A chuva começou cedo, lentamente. Por volta das 23 horas, deu um estrondo lá em cima e isso aqui tremia tudo e já não dava tempo de ninguém correr. Minha casa caiu toda, foi tudo abaixo. Por enquanto não fizeram nada."
O presidente da Associação de Moradores de Poço dos Peixes, Tiago Canto Faria, reforça que nenhuma melhoria foi feita na região desde o desastre. O bairro todo chegou a ser condenado pelo Serviço Geológico do Rio de Janeiro, mas parte dos moradores voltaram, a maioria em casas liberadas pela Defesa Civil. Tiago conta porque prefere ficar no bairro.
"Eu nasci e cresci aqui. O aluguel é muito caro. Vou continuar lutando para ficar no meu bairro. Mas você não tem medo? Medo todo mundo tem. Mas para onde eu vou? No centro da cidade encheu. Não há lugar seguro em Teresópolis."
O principal argumento dos que voltaram é que a promessa de casas para as vítimas ainda não se concretizou. Há dois anos, a tragédia deixou 7 mil pessoas desabrigadas. Até hoje, 3 mil e 400 vivem em imóveis alugados, com a ajuda de 500 reais mensais. Os outros moram em casas de parentes ou voltaram para as casas onde viviam antes.
"A população de Nova Friburgo também sofre com as cicatrizes da tragédia de 2011. Das 254 encostas com risco de desabar, só 28 receberam algum tipo de obra dois anos depois do desastre. A demora é motivo de preocupação pelo alto potencial de catástrofes, como a que já voltou a acontecer em novembro do ano passado, quando parte da pedreira do Bairro Três Irmãos, que tinha começado a desmoronar em 2011, não esperou as obras previstas e veio abaixo."
A moradora do bairro, Cinthia Caixa, conta como foi:
"A gente passou a noite inteira vigiando, quando foi 6 horas caiu a primeira pedra. Entramos em contato com a Defesa Civil, veio a Cruz Vermelha, todo mundo. Tinha pessoas morando nas casas, eles tiraram todo mundo, tiraram até mudança, antes de cair o resto."
As casas mais próximas do morro ficaram totalmente destruídas. Pedras gigantes chegaram até a fazer com que alguns imóveis desaparecessem. Apesar do estrago, ninguém morreu, o que foi considerado um sucesso pela Defesa Civil. Por outro lado, os moradores reclamaram muito da falta de orientação e providências depois do desastre. Dois meses depois, eles ainda não recebiam ajuda para pagar aluguel nem sabiam o que iam fazer de suas vidas. Um deles era Elias Araújo, que depois de mais de 30 anos no bairro, teve a casa interditada.
"O que eu vou fazer? temos que partir para um aluguel de 500, 700 reais, e a gente ganha um salário mínimo. A gente pode pagar um aluguel, comer e beber?"
Carla Borrher, de 38 anos, que nasceu e cresceu no bairro, cobra as autoridades:
"E a gente fica nessa - não sabe quem culpar, não sabe em quem acreditar, e não sabe a quem recorrer."
Segundo a Prefeitura de Nova Friburgo, cerca de 4 mil famílias recebem ajuda de 500 reais para pagar aluguel. Entre elas, Gilson Pinheiro, de 52 anos, que perdeu 5 familiares no desastre de 2011.
"Estava trabalhando, não consegui chegar em casa. porque choveu muito. A gente só ouvia barreiras caindo, os barulhos, não via nada, só os barulhos. Quando amanheceu, fomos ver o que tinha acontecido. Parecia que o mundo tinha acabado naquele dia. Quando cheguei mais perto da minha casa que eu fui ver que não tinha mais casa, não tinha mais família, não tinha mais nada. Fiquei desesperado. Fiquei 15 dias num abrigo, depois // fui morar num apartamentozinho."
Gilson agora tenta refazer a vida, se casou de novo e ganhou mais um filho.
"Conheci a Lenise. Me ajudou muito, foi me ajudando naquela perda. Eu dei a volta por cima. Nunca vai apagar o que ficou para trás. Vai ficar no coração da gente, mas daqui pra gente, nova familia. 'vida que segue'. É, é vida que segue."
Vítimas do desastre, como Gilson, vão continuar tendo ajuda para pagar aluguel até que as moradias do Minha Casa, Minha Vida fiquem prontas. Nenhuma foi entregue até agora. A previsão é que o primeiro lote com 300 casas fique pronto no primeiro semestre.
TRILHA
As obras de reconstrução da região serrana do Rio de Janeiro ficaram sob responsabilidade do Governo do Estado, com ajuda do Governo Federal. As prefeituras fizeram as atividades que envolviam diretamente a população, como o cadastro dos atingidos. Mas tanto Teresópolis quanto Nova Friburgo passaram por turbulências políticas. Cada uma teve 3 prefeitos em dois anos, o que atrapalhou a recuperação das cidades por causa do troca-troca de funcionários e das denúncias de desvio de dinheiro público.
O deputado Glauber Braga, do PSB fluminense, morador da região, faz o balanço da reconstrução.
"A gente avançou em algumas áreas, como na Defesa Civil. O sistema de alarme é algo que nos municípios da região serrana teve um avanço efetivo. Agora o processo de reconstrução eu posso te dizer que é um desastre, não por responsabilidade do governo federal, que tem disponibilizado os recursos, mas pela falta de capacidade e preparo tanto do governo estadual quanto das prefeituras."
O Governo do Estado do Rio de Janeiro rebate as críticas e culpa a demora pela burocracia do processo, como explica o sub-secretário extraordinário para Região Serrana, Affonso Monnerat.
"Pode ter certeza que nós também não estamos felizes nem satisfeitos com isso. O próprio TCU diz que tem mudar a legislação. Não tem jeito de tratar catastrofe com a legislação existente. De você fazer todo o rito processual, de fazer o projeto, o executivo, vai para o tribunal, volta, não tem. A lentidão não é porque o estado não está trabalhando. A lentidão é porque temos que cumprir o que está na legislação."
Entre as obras já entregues e em andamento foram gastos mais de R$ 2 bilhões desde 2011 para contenção de encostas, reconstrução de pontes, dragagem de rios, recuperação de rodovias, construção de casas e pagamento de aluguel social, segundo dados do governo estadual. Mas além das casas para os atingidos, outras promessas ainda não viraram realidade para a população. Entre elas, 11 pontes para Teresópolis e Nova Friburgo, ainda em fase de projeto ou licitação. Há ainda R$ 81 milhões do Ministério das Cidades e mais R$ 74 milhões do Ministério da Educação para reconstrução das escolas destruídas na catástrofe. O dinheiro já está liberado, só falta projeto para colocar em prática.
De Brasília, Ginny Morais