Reportagem Especial
Setor elétrico brasileiro - o risco de racionamento
09/02/2013 - 17h21
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Setor elétrico brasileiro - o risco de racionamento (bloco 1)
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Setor elétrico brasileiro - a redução na conta de luz (bloco 2)
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Setor elétrico brasileiro - problemas e desafios (bloco 3)
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Setor elétrico brasileiro - a ampliação da matriz energética (bloco 4)
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Setor elétrico brasileiro - energias eólica e nuclear, biomassa, termelétrica (bloco 5)
Segue o seco sem sacar que o caminho é seco
sem sacar que o espinho é seco
sem sacar que seco é o Ser Sol
Sem sacar que algum espinho seco secará (Marisa Monte)
A falta de água nos reservatórios brasileiros nas primeiras semanas de janeiro tirou a presidente Dilma Rousseff de suas férias para participar de uma reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE). O grupo, formado pela cúpula governamental do setor energético nacional, foi a público descartar a possibilidade de racionamento apontada pela imprensa.
O nível de armazenamento nas hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por 70% da capacidade nacional, chegou a menos de 30% no início de janeiro, em plena época de chuvas. Essa baixa fez o Operador Nacional do Sistema (ONS), órgão responsável por regular a energia elétrica nacional, ligar o sinal de alerta e também as usinas termelétricas em todo o país para produzir 14 mil megawatts (MW), cerca de 14% da capacidade total brasileira.
O ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, disse na época que o Brasil não corre risco de racionamento.
"Falei em 2008, logo após ter assumido o ministério, que nós teríamos um desabastecimento. Não houve daí em diante e não haverá agora e espero que jamais haja desabastecimento de energia elétrica neste país. Na reunião de avaliação que fizemos ficou a tranquilidade de que o país possui o estoque de energia, firme e segura de abastecer as nossas necessidades. O país tem hoje um estoque de mais de 100 mil MW de energia e há 10 anos tinha pouco mais de 70, temos uma rede de transmissão de 106 mil km e no ano passado também era pouco mais de 70."
Segundo estudo da consultoria PSR, que assessora o governo brasileiro em planejamento energético, há uma possibilidade remota, cerca de 10%, de racionamento. Para evitar a falta de energia, os reservatórios das hidrelétricas precisariam chegar a 38% até o fim de abril, quando termina o período de chuvas.
Já o professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio, disse que falar em racionamento agora é precipitado.
"Na primeira semana de janeiro, falar que vai ter apagão porque o nível de reservatórios está baixo é muito precipitado e estatisticamente não está correto. Você não pode projetar o nível de reservatórios na primeira semana de janeiro e dizer que não vai chover mais, sendo que o período úmido está começando. Não podemos fazer afirmativas com base nesse período."
O pesadelo do governo e da população é a volta do racionamento ao país, como aconteceu de junho de 2001 a fevereiro de 2002. Durante esse período, brasileiros das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste tiveram de reduzir em 20% o consumo de eletricidade para impedir o esvaziamento completo dos reservatórios. O prejuízo para a economia brasileira passou de R$ 45 bilhões, segundo cálculos de 2009 do Tribunal de Contas da União. O evento marcou o fim do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e foi bastante usado na disputa eleitoral que levou Luís Inácio Lula da Silva à Presidência.
O empresário Alcides Antonelli é proprietário de uma fábrica de sorvetes em São Vicente, na Baixada Santista, litoral de São Paulo. Ele conta como o racionamento impactou seus negócios.
"Tivemos uma redução de vendas em torno de 35%. Fechar o negócio não queria, mas cheguei a pensar em mudar a forma de trabalho, diminuir o número de clientes. Tivemos que fazer uma redução no número de funcionários em cerca de 40% naquela época. Para implantar uma empresa você demora muito tempo. Sempre fiquei com pé atrás, porque não depende só da fábrica de sorvete e manter com as câmaras ligadas, depende muito dos clientes ponto a ponto. Depende diretamente de energia."
Para evitar a volta do problema, a então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, coordenou uma mudança no modelo do setor elétrico em 2003 e 2004. O foco foi melhorar o planejamento com a criação de órgãos como a EPE, Empresa de Pesquisa Energética, para prever o crescimento da demanda elétrica e mudar a lógica de comercialização. A venda de energia agora é feita em leilões para dois mercados específicos. O primeiro é o mercado cativo, formado por consumidores residenciais e pequenas empresas, que compram energia direto das distribuidoras com preço reajustado uma vez por ano. O segundo é o mercado livre para grandes consumidores de energia que podem negociar preço.
Para o pesquisador de Energia Elétrica e Política Energética da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ronaldo Bicalho, o setor elétrico atual ampliou sua capacidade para evitar os problemas que vieram com o racionamento de 2001.
"Quem passou por um racionamento tem uma experiência que não quer repetir. Aumentos a capacidade de evitar o racionamento porque passamos o racionamento. O racionamento não é uma possibilidade. Como as consequências políticas, econômicas e sociais são muito grandes, não queremos voltar ao racionamento."
As mudanças no setor, porém, não evitaram uma série de problemas ao longo dos anos. Só em 2012, pelo menos quatro apagões deixaram, em média, 11 estados sem luz por algumas horas. As causas, de acordo com o governo, foram problemas em linhas de transmissão e subestações de energia.
Um dos afetados foi o comerciante José Roberto Bezerra, de Caruaru, em Pernambuco, que teve TV, máquina de lavar e outros cinco aparelhos queimados depois de uma queda de energia em novembro.
"No começo de novembro de 2012, um caminhão bateu em uns postes e encostou fios de alta tensão, o transformador não parou a sobrecarga e entrou carga de energia em todas as cargas de energia. Na minha casa queimou sete aparelhos. DVD, ar condicionado, TV, máquina de lavar. Foi um prejuízo grande.
O governo prevê que a capacidade energética do Brasil irá dobrar em 15 anos e atingir 242 MW.
De Brasília, Tiago Miranda