Reportagem Especial

Mobilidade urbana: o dia-a-dia do trânsito das cidades

14/03/2012 - 18h01

  • Mobilidade urbana: o dia-a-dia do trânsito das cidades (bloco 1)

  • Mobilidade urbana: problemas no transporte público (bloco 2)

  • Mobilidade urbana: investimentos (bloco 3)

  • Mobilidade urbana: uso da bicicleta como meio de transporte (bloco 4)

  • Mobilidade urbana: dificuldade de locomoção para pessoas com deficiência (bloco 5)

Setor comercial de Brasília, centro da cidade. Debaixo do calor que não dá trégua, carros rodando e rodando em busca de uma vaga.

"Tá difícil aqui, Brasília tá complicado, já dei umas três voltas e não consegui ainda não... Questão de estacionar para deficiente, é complicadíssimo achar uma vaga... Muito raro mesmo encontrar uma vaga aqui. A sua vaga aqui hoje é boa, tá até debaixo da árvore. Exatamente, e eu parei rapidinho por causa disso. Aqui é muito difícil, é uma complicação maluca."

Se fosse só em Brasília estava bom. Só que "complicação maluca" é o dia-a-dia do trânsito das cidades em todo o país.

Problemas no transporte público, excesso de veículos e cidades áridas para pedestres e ciclistas - entender a mobilidade urbana depende de vários fatores. Esse cenário fez com que a Lei de Mobilidade Urbana fosse sancionada em janeiro deste ano, depois de tramitar no Congresso Nacional por 17 anos.

A lei aborda vários aspectos, mas o recado essencial é a necessidade de rever o transporte individual. O carro, que é sonho de consumo para muitos, está ficando cada vez mais parado nos engarrafamentos, trazendo consequências econômicas, ambientais e especialmente para a qualidade de vida das pessoas.

A Lei de Mobilidade Urbana estabelece que a prioridade de investimentos deve ser para o transporte coletivo e que, agora, os municípios podem restringir o uso do carro. O pedágio urbano seria uma das possibilidades.

O pesquisador do IPEA Carlos Henrique de Carvalho avalia que a lei é um avanço, e ressalta que a questão principal não é desistir do carro, mas sim conciliar o seu uso com outros meios de transporte.

"Você dá acesso às pessoas, políticas para que as pessoas possuam automóvel mas ao mesmo tempo você tem que investir pesadamente, prioritariamente, nos meios de transporte público coletivo para dar condições de mobilidade para toda a população. Focar, pesadamente, em infraestrutura voltada para o transporte público coletivo e não impedir que as pessoas tenham acesso também ao transporte individual já que, de certa forma, é o sonho de todo o trabalhador, principalmente, de baixa renda ter seu carrinho".

Carlos Henrique destaca que esse é o modelo europeu, onde quase todos têm carro, mas não o utilizam todos os dias.

O professor da Universidade Federal de Pernambuco Leonardo Meira também considera que rever o uso do carro é urgente no Brasil, pois a frota de veículos mais que dobrou nos últimos dez anos.

"A gente não precisa colocar barreiras para que as pessoas tenham um carro. Sem dúvida, a indústria automobilística hoje é um dos pilares da nossa economia, mas acho que a gente precisa fazer com que as pessoas saibam usar o automóvel, ou seja, que elas tenham um uso consciente. Então, ela pode ter o automóvel em casa, mas ela não precisa usar ele para ir para, absolutamente, todos os locais, todos os cantos, em todos os momentos".

Os dois especialistas reiteram que, caso as cidades implantem medidas para taxar o uso de carro, é imprescindível que esses recursos sejam usados na melhoria do transporte público. Se o governo limita o automóvel, ele precisa oferecer boas alternativas de transporte.

O brasileiro tem comprado cada vez mais carros, o que tem aumentado a importância da indústria automobilística para a economia. Em termos mundiais, o país já é o quarto mercado na compra, e o sexto maior fabricante, em uma cadeia que gera cerca de um milhão e meio de empregos diretos e indiretos.

Para 2012, a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores prevê um crescimento de 4 a 5% na venda de automóveis, ônibus e caminhões. Paulo Sotero é diretor-executivo da entidade e afirma que o mercado tem se adaptado ao contexto atual, fabricando carros menores e investindo em combustíveis alternativos ao petróleo.

Sobre a possibilidade de restringir o uso do carro, ele lembra que se há muitos veículos nas ruas, é porque essa é uma prioridade dos consumidores.

"Porque, hoje, o segundo bem, pode se dizer genericamente, que o segundo bem, o segundo desejo, a segunda ambição do ser humano depois da casa própria é o carro, não é verdade? Então a gente atende a um desejo do consumidor".

Esse é o desafio atual: conciliar o crescimento do consumo de carros com medidas para que as pessoas não fiquem presas pelo trânsito das cidades. Um debate que passa pelas políticas públicas e também pelo questionamento dos hábitos do cotidiano. E você, deixaria seu carro em casa?

De Brasília, Daniele Lessa

Nesta semana, a série "sufoco e desenvolvimento - as duas facetas da mobilidade urbana no Brasil". Como os problemas de transporte nas grandes cidades podem se transformar em crescimento para o país? Em cinco reportagens, você acompanha os dois lados de um problema que atinge a todos: a dificuldade em se movimentar nos grandes centros.

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