Reportagem Especial
Refugiados - Saiba como funciona o reassentamento solidário (05'52")
29/06/2011 - 00h00
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Refugiados - Saiba como funciona o reassentamento solidário (05'52")
"Parte dos efeitos colaterais do refúgio foi que mais de 70% das pessoas sofreram a separação. Mulher que veio para o refúgio, o esposo não acompanhou e ficou lá do outro lado, ou, em outros casos, era o homem que estava na política, teve que se refugiar, e a esposa não veio."
Como o depoimento do refugiado boliviano Roger Zabala ilustra, o recomeço após um trauma fica ainda mais difícil quando deve ser feito longe de casa, da família, dos amigos.
Opositor do governo de Evo Morales, Zabala está no Brasil desde 2008 e não se sente seguro para voltar à Bolívia com o presidente ainda no poder.
"A gente vê o nosso país daqui da fronteira. O rio não é tão grande, não dá nem 150 metros e da ponte dá pra ver o outro lado, mas, mesmo assim, sabemos que não podemos passar nem voltar para lá até o regime acabar."
TRILHA – Mi Tierra – Antara – início até 0´20´´
“Mi terra, que linda y bela. La quiero tanto. Quando regrasare a mi tierra.”
A coordenadora do programa de reassentamento solidário no Rio Grande do Sul, Karin Wapechowsky, explica que o desgaste pelas perdas materiais e afetivas dificultam a integração do refugiado no novo país.
"Perdas familiares, famílias totalmente desagregadas, não sabem onde estão seus filhos, seu pai, sua mãe. Então, é muito difícil a integração, não no aspecto da estrutura que a gente prepara, mas, sim, na pessoa conseguir se adaptar. Ninguém quer sair do seu país, ninguém quer sair da sua casa. Há um processo de resistência natural que nem mesmo o próprio refugiado percebe as dificuldades que ele enfrenta."
O programa de reassentamento solidário é feito em parceria entre o governo brasileiro, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, e entidades da sociedade civil.
Quando esses refugiados chegam ao Brasil, recebem de entidades civis apoio para se instalar no país: casa alugada, matrícula dos filhos na escola, inclusão no sistema de saúde, apoio psicológico.
Os recursos vêm do Acnur, que, nos primeiros 12 meses, arca com aluguel e oferece uma bolsa subsistência. O governo federal faz sua parte estendendo aos refugiados os serviços prestados aos brasileiros, como saúde, educação e programas sociais.
O reassentamento é voltado para refugiados que não se integraram ao primeiro país de acolhimento, o que muitas vezes acontece porque a perseguição continua ali. Segundo Karin, isso tem ocorrido com colombianos que fogem para o Equador.
"A Farc, o ELN, o agente que seja, os encontra no Equador e continua a perseguição. Outro motivo é de falta de integração local. Por exemplo, o Equador está assoberbado de refugiados colombianos e muitas vezes causa uma xenofobia. A população que mal e mal consegue suprir a sua questão da saúde, educação, acaba tendo que repartir com outros que vêm de fora."
Roger Zabala vive no Acre e afirma que os refugiados têm tido dificuldade para entrar no mercado de trabalho. Segundo ele, muitas vezes são os brasileiros que cruzam a fronteira em busca de emprego.
E, como o Brasil tem recebido um fluxo constante de haitianos à procura de melhores condições de vida depois que seu país foi devastado por um terremoto, será que esse mal-estar diante dos estrangeiros pode tomar conta dos brasileiros?
Damião Borges de Melo é colaborador da secretaria de Recursos Humanos da prefeitura de Brasileia. Ele mostra preocupação com a demora na liberação de documentos que permitem aos haitianos sair do Acre para procurar emprego em outros estados. Segundo Damião, algumas pessoas já começam a questionar os custos que a presença dos imigrantes traz para o estado.
"Quando começam a se sensibilizar porque as pessoas estão passando fome, por exemplo, não tomam café da manhã, a igreja evangélica que há mais de um mês dá o café da manhã para eles. Quando começa a passar necessidade, a população acha que o governo tem que ajudar."
A solidariedade do povo brasileiro é um dos motivos para que o Brasil não vire as costas aos estrangeiros que aqui chegarem, na opinião de Paulo Sérgio de Almeida, presidente do Conselho Nacional de Imigração.
Segundo ele, a imigração faz parte da história do Brasil, e o País sabe valorizar a contribuição dos imigrantes para o seu desenvolvimento.
"São pessoas que estão aqui, que estão trabalhando, que muitas vezes trazem uma experiência importante, trazem um conhecimento, ajudam a implementar uma tecnologia, preenchem espaços importantes no mercado de trabalho e isso está muito ligado ao crescimento do nosso país e à contribuição ao nosso desenvolvimento."
Segundo Paulo Sérgio, não há dados que indiquem que os brasileiros estejam perdendo espaço no mercado de trabalho para estrangeiros. Pelo contrário, o momento positivo do Brasil tem sido capaz de gerar vagas tanto para nacionais quanto para os imigrantes.
TRILHA – Darib Almarrata – Ghazi Shahin
Início instrumental
De Brasília
Verônica Lima