Reportagem Especial
Panorama da Educação no Brasil - Desestímulo e evasão no Ensino Médio (10'08")
15/06/2011 - 00h00
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Panorama da Educação no Brasil - Desestímulo e evasão no Ensino Médio (10'08")
No Brasil, o ensino médio é considerado básico, ou seja, todo mundo deveria fazer. Mas na realidade, o antigo segundo grau não é tão básico assim, como mostra a presidente da Undime, União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Cleusa Repulho.
"Cinquenta por cento dos alunos do fundamental acessam o médio. E desses 50% que acessam o médio, só 50% terminam."
O motivo de tanto abandono? Muita desmotivação. É o que alegam 40% dos jovens que largam o ensino médio, segundo uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. E foi o que aconteceu com Priscila Silva Santos, de 24 anos, moradora de Samambaia, no Distrito Federal. Ela terminou o ensino médio, mas só depois de fazer um supletivo.
"Eu parei duas vezes de estudar. ´Por que você parou?´ Ah, nem sei. Meu pai na época não me cobrava, eu comecei a faltar e acabei parando. A primeira vez eu tinha 13 e a segunda eu tinha 15 (anos). ´O que você achava da escola nessa época?´ Uma chatice. Por que você resolveu voltar? Porque eu percebi que só através do estudo eu seria alguma coisa na vida."
Outro grande motivo do abandono é a necessidade de trabalhar. Isso acontece com praticamente um em cada três jovens que deixam de estudar. Com Luís Ribeiro foi assim. Ele só terminou essa etapa do estudo com 40 anos.
"O trabalho, a necessidade de buscar um tempo pra estudar é que me atrapalharam um pouco."
O primeiro Plano Nacional de Educação, há dez anos, tinha a meta de colocar todos os formandos do ensino fundamental no ensino médio até 2003. Mas isso ficou muito longe de virar realidade.
Um estudo do Ipea mostrou que, em 2007, o país tinha mais de 136 mil escolas de ensino fundamental públicas e nem 18 mil de ensino médio. Obviamente, a conta não fecha. Por isso é que o ensino médio é considerado um dos piores problemas da educação brasileira.
Para o pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade do Rio de Janeiro, Simon Schwarstman, todo o ensino médio precisa ser revisto.
"Ele exige coisas que são irrealistas, ele não faz sentido para as pessoas. Ele é muito antigo de concepção e, ao mesmo tempo, recebe alunos que têm uma formação precária."
As consequências desse ensino ruim é a falta de conhecimentos básicos para a formação de profissionais para o mercado de trabalho, como exemplifica Mozart Neves Ramos, do Movimento Todos pela Educação:
"Se a gente olhar níveis de aprendizado em matemática, dos que terminam o ensino médio, somente 11% aprenderam o que seria esperado neste momento. E, com isso, o Brasil perde e se reflete muito, por exemplo, no número de engenheiros formados. O Brasil forma 30 mil engenheiros por ano, mas a China forma 400 mil, a Coreia do Sul, 80 mil engenheiros. Isso é reflexo do baixo nível de aprendizagem em matemática, que de certa forma provoca uma evasão grande nos cursos de exatas e de engenharias. Logo, é estratégico repensar urgentemente o ensino médio."
A proposta do novo Plano Nacional de Educação para os próximos 10 anos que chegou no Congresso Nacional propõe que oito em cada dez jovens de 15 a 17 anos estejam matriculados no ensino médio, com uma forte aposta no ensino técnico profissionalizante.
Ninguém é contra aumentar o número de matriculados. Mas algumas entidades acham as sugestões insuficientes, como a Confenen, Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino, como diz o diretor Arnaldo Cardoso Freire.
"As propostas apresentadas no PNE não vão resolver os problemas do ensino médio hoje. O grande problema é a assistência estudantil e, no Plano, não tem nada que faz com que o aluno tenha assistência, o aluno possa realmente não ter que trabalhar para estudar."
O incentivo financeiro para manter adolescentes na escola é apoiado por parte dos especialistas, entre eles, Simon Schwarstman. Mas ele defende também que haja maior diversificação do currículo, porque hoje os jovens aprendem muita coisa que nunca vão usar na vida.
"Você tem que ter um currículo comum até os 15 anos de idade, naquilo que é fundamental, e a partir daí você tem que abrir espaço para alternativas. As pessoas têm que optar por diferentes opções de formações acadêmicas ou diferentes opções de formações profissionais."
O Ministério da Educação já está tentando mudar essa realidade, com a implantação do chamado "Ensino Médio Inovador". As ações pretendem aumentar a carga horária, ter mais aulas práticas e permitir que os alunos escolham parte das matérias que querem fazer. Mas os especialistas alertam que é preciso ter uma lei nacional, que não se altere nos próximos dez anos, mesmo que os governantes mudem.
E a melhora do ensino médio é determinante também para a evolução do ensino superior, como destaca Isaac Roitman, conselheiro da SBPC, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
"A prioridade que deve ter nos próximos 10 anos é o ensino base, preparar estudantes que possam chegar no ensino superior com uma motivação, com a capacidade de pensar, com a capacidade de criticar."
O desempenho do ensino médio é tão baixo, segundo Edward Madureira Brasil, presidente da Andifes, Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, que nem adiantaria agora aumentar as vagas nas universidades.
"Nós temos uma baixíssima formação no ensino médio, consequentemente reflexo na educação superior que, mesmo que ampliássemos as vagas nesse momento não conseguiríamos ter público na faixa etária alvo para as instituições de ensino superior."
Segundo o Ministério da Educação, o país tinha, em 2009, mais de 2300 instituições de ensino superior, sendo 245 públicas. Apesar de as privadas serem maioria, a maior disputa é pelas públicas, que são de graça e têm uma melhor avaliação de qualidade.
Mas quem faz o ensino médio só em escola pública encontra dificuldades para entrar. Foi o que aconteceu com Luís Fernando Carvalho, de 21 anos, morador de Valparaíso, em Goiás.
"Eu até tentei. Fiz a prova do Enem, não fui classificado. Tentei o vestibular na UFG, de Goiás, e na UnB, só que justamente por conta de estar trabalhando, não tem como você ter uma preparação pra fazer vestibular, que é muito concorrido, talvez por conta disso eu não passei."
Luís Fernando agora cursa Engenharia Civil em uma universidade particular à noite.
Ele agora faz parte dos seis milhões de pessoas cursam o ensino superior em todo o país atualmente. A meta proposta pelo governo é chegar até 2020 com 10 milhões de jovens entre 18 e 24 anos em faculdades. Isso significaria um em cada três brasileiros dessa faixa etária.
Outra sugestão do Plano Nacional de Educação ainda em discussão é formar 60 mil mestres e 25 mil doutores por ano no país. Com isso, a obrigação das universidades de ter professores com esses níveis de capacitação também deve subir, conforme o vice-presidente da Anped, Associação nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, João Ferreira de Oliveira.
"A gente sabe que a qualidade da educação superior está associada a qualidade do corpo docente, por isso é preciso elevar o percentual de mestres e doutores, sobretudo, no setor privado."
Mas há, entre os especialistas, quem não considere as metas do ensino superior tão ousadas assim. Um deles é Arnaldo Cardoso Freire, diretor da Confenen, Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino.
"O ensino superior tem realmente expandido muito, mas muito mesmo nos últimos anos. As vagas e os cursos estão muito ligados ao governo federal e à iniciativa privada. Como já existem alguns planos do governo, como o ProUni, que é um exemplo muito claro disso, o ReUni, então nós cremos que é mais fácil atingir essas metas do ensino superior do que as metas da educação básica."
De fato, é por causa do Programa Universidade para Todos, o ProUni, que mais de 162 mil estudantes de baixa renda estão cursando universidades particulares com bolsas de estudo do governo federal. E o Reuni aumentou em 180 mil as matrículas na rede federal de ensino superior.
Foi por causa de incentivos governamentais, neste caso dados pelo governo do Distrito Federal, que Luís Ribeiro, de 47 anos, agora está conseguindo se formar em administração de sistemas em rede de computadores.
"Quando você não tem um bom emprego a sua renda já é comprometida com as suas necessidades diárias de aluguel, de compras, de transporte, fica um pouco complicado, porque não existe nenhuma faculdade com menos de R$ 600, R$ 700."
Depois de formado, Luís Ribeiro espera melhorar seu padrão de vida.
E ele está certo em acreditar que a faculdade poderá lhe permitir ter uma vida melhor. Segundo o IBGE, um trabalhador que tem diploma de ensino superior ganha três vezes mais do que um que não tem essa formação. O estudo impacta diretamente no salário.
A cada ano a mais de formação, 15% a mais no contracheque. Se for pós-graduação, o ganho pode aumentar 47%, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Os números mostram que o esforço pode valer a pena.
De Brasília, Ginny Morais