Reportagem Especial
Especial Serra da Capivara - Centro de pesquisa científica (07'49'')
30/05/2011 - 00h00
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Especial Serra da Capivara - Centro de pesquisa científica (07'49'')
Desenvolvimento regional se faz com oportunidades de trabalho e, principalmente, com investimento em educação. Mesmo isolado pelas dificuldades de acesso, o sudeste do Piauí viu nascer, em 2004, o primeiro curso superior do país em arqueologia e preservação patrimonial.
A graduação, oferecida pela Univasf, a Universidade Federal do Vale do São Francisco, tem atraído estudantes de todas as regiões do Brasil e até estrangeiros.
Mas talvez o grande trunfo desse curso seja a oportunidade de formação superior para que o jovem sertanejo da Caatinga possa lidar com a riqueza do maior acervo pré-histórico das Américas, presente na Serra da Capivara.
É o que diz, por exemplo, Joyce Holanda, de 24 anos, uma das novas arqueólogas do país, graduada lá nos confins do Piauí.
"Dá oportunidade de muita gente poder fazer um curso que é novo, diferente e tem demanda. E talvez (o aluno) não tivesse condição de fazer porque não tinha em universidades públicas, porque não tinha no próprio país. Então, é um curso que vem para suprir uma necessidade de pesquisa e tem tudo para formar bons profissionais. O funcionamento aqui é integral: na manhã e à tarde. Tem campo, tem laboratório. É muito puxado e os alunos se dedicam exclusivamente a isso. Aqui, neste isolado, mas se dedicam a isso."
Joyce é do sertão do Araripe, em Pernambuco. O conhecimento adquirido nos sítios pré-históricos do Piauí certamente vai ajudá-la nos projetos de aprofundar a pesquisa dos patrimônios de arqueologia e paleontologia de seu estado, rico em fósseis de animais que viveram milhares de anos atrás.
"É um curso que tem muitas disciplinas de áreas diferentes. Por exemplo, antropologia, das ciências humanas; geociências, de geologia; bioarqueologia, que já vai na parte de biologia. Parece uma escalada, mas o aluno precisa ter, pelo menos, uma compreensão um pouco mais profunda de todas essas ciências, porque você está estudando a cultura material do homem e o espaço. Então, é preciso ter a relação dele com o ambiente e um apanhado meio geralzão para que você consiga estabelecer um contexto da análise arqueológica desse homem pré-histórico."
O campus de arqueologia e preservação patrimonial da Univasf está instalado em São Raimundo Nonato, no Piauí, bem ao lado do Museu do Homem Americano e a apenas 30 quilômetros da principal entrada do Parque Nacional da Serra da Capivara. Essa localização facilita as pesquisas de campo e o intercâmbio dos estudantes com os cientistas.
Andreia Ribeiro, de 23 anos, é de São Raimundo Nonato e acaba de se formar em arqueologia. Ela já conseguiu o seu primeiro emprego profissional, no laboratório lítico do museu, responsável pelo armazenamento e catalogação dos materiais rochosos recolhidos na região.
"São cursos que abrem um leque de opções. Não se restringem à pesquisa no parque, não. Quem é formado em algum desses cursos tem uma área bem ampla de opções."
O profissional dessa área pode atuar em estudos de impacto ambiental, vistoria e salvamento arqueológico, preservação de recursos patrimoniais, além das áreas de ensino, pesquisa e extensão.
Mas, por enquanto, toda essa turma de jovens arqueólogos ainda tem um grande desafio pela frente: a regulamentação da profissão. A Câmara dos Deputados já tratou desse assunto em audiências públicas e por meio de um projeto de lei (PL 6145/05), mas não houve avanços.
Niède Guidon, paulista de Jaú e principal arqueóloga do Brasil, só teve o seu reconhecimento profissional no exterior.
"Em 1964, eu saí do Brasil, fui para a França e sou atualmente aposentada pelo governo francês. Eu sou uma arqueóloga francesa".
Niède Guidon preside a Fundação Museu do Homem Americano e atuou diretamente na instalação do primeiro curso de arqueologia na região da Serra da Capivara.
Hoje há outros espalhados em universidades públicas, como a USP, em São Paulo, e as federais de Pernambuco e Sergipe. O atual coordenador da graduação na Univasf, Celito Kestering, comemora a propagação do curso pelo país e sonha com o rápido processo de regulamentação da profissão de arqueólogo.
"Nós fomos o primeiro curso de arqueologia a ser criado no Brasil. E depois surgiram outros cursos de arqueologia no Brasil inteiro. No momento em que nós tivermos a profissão regulamentada, será um novo momento para a história do Brasil, no sentido de que o desenvolvimento aconteça sem a destruição do que as gerações passadas fizeram. As grandes nações construíram o seu processo de desenvolvimento construindo uma autoestima coletiva fundamentada no orgulho de suas origens."
Essa regulamentação profissional é urgente, inclusive, para viabilizar os inúmeros de projetos de expansão de pesquisa e de preservação de acervo que estão em curso no entorno do Parque Nacional Serra da Capivara.
Priscila Pereira, que coordena o laboratório de paleontologia do Museu do Homem Americano, fala da preparação de um novo acervo para constituir o futuro museu de ciências naturais do Piauí.
"Nós vamos contar um pouco da história e unir tanto a questão da fauna quanto as influências humanas. E, lá dentro, a gente vai contar um pouquinho da história paleontológica do desenvolvimento dos organismos aqui na região. O projeto é para ser instalado aqui, mas ainda está em andamento. Então, enquanto isso, no laboratório, a gente trabalha com todo o material que chega. Basicamente, é material da megafauna plestocênica da região."
A Univasf também quer dinamizar as ações de diagnóstico e identificação de todos os grupos pré-históricos que viveram ao longo do vale do rio São Francisco e no Parque Nacional da Serra das Confusões, que abrange terras do Piauí, Maranhão, Bahia e Tocantins.
É um trabalho minucioso de reconstituição de fragmentos, como sintetiza o professor Celito Kestering.
"Esse é o trabalho bonito da arqueologia: é pegar os caquinhos das informações. Assim como se pega um caquinho de cerâmica ou de qualquer vestígio e você busca reconhecer a identidade dos autores. Os caquinhos de informação que ficam são os instrumentos para os pesquisadores para o resgate e a construção da autoestima coletiva, que é o que nos interessa."
O foco em atividades como essas abre um leque de opções de estudo, trabalho e renda para uma imensa população sertaneja que luta contra os complexos de inferioridade criados ao longo de séculos de preconceito.
Como vimos, muitos já arregaçaram as mangas, aproveitando as oportunidades geradas em torno do museu e do parque nacional, mesmo diante de limitações impostas pela falta de regulamentações e de infraestrutura de transporte.
De Brasília, José Carlos Oliveira