Reportagem Especial

Cobaias - O debate ético e os direitos dos animais (07'18")

11/04/2011 - 00h00

  • Cobaias - O debate ético e os direitos dos animais (07'18")

TRILHA - Bobby, Lulu // Lulu, Bobby // Snoopy, Rocky // Estou às ordens // Sempre, sim, senhor

A justificativa da ciência para pesquisar com animais é que ela permite que milhares de vidas humanas e animais sejam salvas. Mas defensores dos direitos dos animais começam a questionar o direito que nós temos de fazer dos animais instrumentos para atingir nossos objetivos.

Para o especialista em Direito Ambiental e autor do livro "Diretos dos Animais", Daniel Lourenço, sua luta pode ser comparada ao movimento de libertação dos escravos, que, assim como os animais, eram considerados seres de uma classe inferior.

"Infelizmente, durante muito tempo, a humanidade se viu com a instituição da escravidão, que nada mais fez que justamente coisificar, instrumentalizar a vida de outros seres humanos, que na época eram tratados como se coisa fossem. Então o animal hoje em dia é o escravo de outrora. A gente coisifica o animal porque entende que, por uma razão ou outra, no meu modo de ver, equivocada, que o animal, por ter uma racionalidade distinta da do ser humano, ocuparia um patamar de valoração inferior e portanto ele poderia ser utilizado como instrumento de pesquisa."

Apesar de não acreditar que animais sejam bons modelos para a pesquisa farmacológica, os ativistas devolvem esse argumento aos cientistas que o utilizam para justificar as pesquisas com animais.

Pois, se os animais são biologicamente tão parecidos com os homens, a ponto de serem usados para prever a reação do organismo humano diante de remédios e doenças, eles merecem o mesmo tratamento dispensado aos homens, em termos de respeito à vida e à integridade física. Como afirma Sérgio Greif, biólogo e membro fundador da ONG Sociedade Vegana.

"Animais são criaturas sencientes. Eles são dotados da capacidade de sofrer, sentir dor, eles podem entrar em depressão nervosa e, por outro lado, eles também são seres que podem sentir prazer. Os mesmos sentimentos, enfim, que o ser humano tem os animais têm também. Então, se não é correto utilizar seres humanos como cobaias involuntárias, também não é correto usar animais."

O direitor do Instituto de Ciências Farmacêuticas em Goiânia, Leonardo Teixeira, reconhece o aumento da consciência humana de que os animais também são seres que pensam e sentem.

"E essa nossa consciência, ao saber disso, que eles também amam, que eles planejam o futuro, inclusive - isso foi demonstrado em vários artigos científicos: alguns animais pensam a longo prazo. Essa nossa consciência nos faz refletir e, sim, acredito eu que nos próximos anos nós teremos mecanismos cada vez mais rígidos para evitar que realmente esses animais passem por sofrimento inadequado."

Mas, assim como Leonardo, o professor e presidente do Comitê de Ética do Uso Animal da Universidade de Brasília, Antonio Sebben, entende que a ciência ainda precisa da pesquisa em animais para avançar.

Incapaz de recriar, por exemplo, o sistema nervoso de um ser vivo, a ciência ainda precisa do modelo animal para compreender as doenças humanas.

"A interação do ser humano com as bactérias, com os vírus é eterna. Não vai acabar. Nunca vai existir um antibiótico que vai resolver todos os problemas, porque os seres vão mudar. (...) O que significa isso? Que vai ter que ter ciência testando, entendendo, aprimorando, avaliando, produzindo medicamentos para o resto da história da humanidade. Se vai diminuir o uso dos animais nos testes, eu tenho certeza que vai. Se vai abolir completamente, não sei quando, não dá para dizer, não dá para estimar."

TRILHA DE PASSAGEM - “Jumento não é, Jumento não é. O grande malandro da praça. Trabalha, trabalha de graça. Não agrada a ninguém. Nem nome não tem. É manso e não faz pirraça. Mas quando a carcaça ameaça rachar. Que coices, que coices. Que coices que dá.”

Integrante do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, o Concea, Marcelo Morales argumenta que o fim das pesquisas com animais representaria um risco para a saúde dos brasileiros, ao comprometer o desenvolvimento de novos remédios e vacinas.

Mas Daniel Lourenço qualifica como egoísta a postura humana de colocar suas demandas à frente das dos outros animais. E mesmo o argumento de que a pesquisa com animais salva também vidas animais é insuficiente para justificar esse tipo de atividade, pois, para Daniel, ele recai no mesmo problema ético: o de instrumentalizar uma vida para atender à necessidade de outras.

"Seria razoável que, em nome disso, nós utilizássemos uma pessoa sem o consentimento para praticar um experimento? Afinal de contas, esse experimento vai poder beneficiar muitas pessoas, vai beneficiar a humanidade como um todo. Não, a gente não pode, é juridicamente impossível fazer isso. Então por que, se é impossível com o ser humano, para o animal é? Qual é a diferença moral que justificaria isso? Ah, porque o homem é pretensamente mais racional, mas a racionalidade é importante quando estamos discutindo o bem-estar físico, a dor, o sofrimento?"

Quanto ao argumento de que a ciência não tem condições de avançar sem usar a pesquisa com animais, Daniel Lourenço defende que se trata de uma visão sobre o "fazer ciência" que pode ser mudada.

"A ciência, ao utilizar o animal como instrumento, ela tornou essa prática da utilização do animal como a regra. Então, praticamente todos os medicamentos, todas as técnicas procedimentais, cirúrgicas foram testados em animais. Já se o conhecimento científico partisse de uma outra premissa, que é a impossibilidade da utilização do animal, as técnicas e os meios de conseguir esses medicamentos e essas técnicas, eles não utilizariam os animais. (…) Agora, se o conhecimento não é possível sem o animal, que não tenhamos o conhecimento, porque é um custo muito alto."

Para o professor Antonio Sebben, a humanidade caminha, sim, para tornar inaceitáveis práticas até agora aceitas. Práticas de desrespeito não só com os animais, mas também com os seres humanos.

Para realizar essa mudança cultural, será preciso, segundo Sebben, trabalhar na educação de crianças e na formação ética de jovens pesquisadores.

TRILHA – “Nós gatos já nascemos pobres. Porém, já nascemos ricos. Senhor, senhora, senhorio. Felino, não reconhecerás!”

De Brasília, Verônica Lima

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