Reportagem Especial
Cobaias - Como a ciência busca evitar o sofrimento dos animais e a posição dos ativistas (07'04")
11/04/2011 - 00h00
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Cobaias - Como a ciência busca evitar o sofrimento dos animais e a posição dos ativistas (07'04")
TRILHA - “Outro dia, eu tava subindo o morro com quinhentos quilos de pedra no lombo, tava alí subindo quando ouvi um paid´égua falar assim: "mas que mula preguiçosa sô!", fui ver, e a mula era eu. Aí eu parei: Mula! é demais!.”
Testar novos medicamentos em ratos de laboratório nos parece tão natural quanto colocar um burrinho para transportar carga. Mas o sofrimento sentido por animais submetidos a experimentos já faz parte da preocupação de cientistas e ativistas.
Segundo o direitor do Instituto de Ciências Farmacêuticas em Goiânia, Leonardo Teixeira, a percepção de quais procedimentos são considerados cruéis tem mudado ao longo da história da ciência.
Ele cita como exemplo a vivissecção, experimento que hoje ele considera desnecessário. Essa cirurgia é feita em animais, como sapos e ratos, ainda vivos, para estudar o funcionamento de seu organismo. Segundo Leonardo, ela pode ser substituída por livros e vídeos disponibilizados às universidades e escolas.
"Imagina quantos animais não passaram por um processo de estresse e de extrema dor ao acordarem durante esse processo! Quando seu corpo estava aberto, sua pele retirada. Então, eu acredito que a própria evolução tem demonstrado para os pesquisadores essa necessidade de métodos alternativos aos animais, métodos in vitro, ou animais já mortos mas com tecidos ainda viáveis para tais experimentos."
O trabalho do professor e presidente do Comitê de Ética do Uso Animal da Universidade de Brasília, Antonio Sebben, visa justamente a racionalizar esse procedimento. Ele desenvolveu uma técnica para filmar o funcionamento desses organismos sem causar sofrimento aos animais e nem repulsa aos alunos.
Todo o material produzido é disponibilizado, gratuitamente, em bancos de dados do Ministério da Educação, como o Banco Internacional de Objetos Educacionais. O Banco está na internet e todo o material tem uso liberado, desde que citada a fonte.
Antonio Sebben explica que, ao fim do procedimento, a dose da anestesia é elevada para induzir o animal à morte antes que ele acorde. A eutanásia é um procedimento recomendado pela Lei Arouca, em determinadas situações, como forma de evitar o sofrimento do animal.
TRILHA – Gritos e grunhidos dos animais (SALTIMBANCOS).
A presidente do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Sônia Fonseca, denuncia algumas práticas cruéis que, segundo ela, ainda são realizadas em animais nos laboratórios brasileiros.
Um exemplo é o teste de eficácia de protetores solares. Segundo Sônia, com o pelo raspado, o animal é exposto a um tipo de iluminação que simula a radiação solar. Outro exemplo é o teste de irritabilidade de xampus, explicado por Sônia.
"Para testar o xampu, colocam-se roedores, no caso, coelhos, com clipes que mantêm os olhos dos animais sempre abertos. E vão pingando soluções com diferentes concentrações, concentrações crescentes, na vista do animal, até saber quando o animal vai ficar cego, vai perder a visão, vão criando úlceras na vista do animal e ele perde totalmente a visão."
Membro do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, o Concea, Marcelo Morales se diz radicalmente contra a pesquisa com animais para fins cosméticos. Segundo ele, o uso para esses fins está bem limitado atualmente por já existirem métodos alternativos eficazes.
Dispositivos da Lei Arouca buscam minimizar a dor e o sofrimento causado aos animais. Mas alguns testes que envolvem dor ainda são aceitos e válidos, como o da chapa quente, usado para medir a eficácia de um anestésico.
Segundo o professor Antonio Sebben, o animal é colocado em cima de uma chapa metálica e a temperatura é levemente aumentada até que ele levante a pata.
Identificada a temperatura que faz com que o animal reaja levantando a pata, o pesquisador aplica o anestésico e recoloca o animal sobre a chapa. Se ele não reagir uma vez alcançada a temperatura-alvo, o pesquisador ainda deixa a chapa esquentar mais um pouco para ter certeza de que a falta de reação não se deve a um simples aumento de resistência do bicho ao calor, como explica Sebben.
"É possível, diminuiu a sensibilidade, mas ele ainda continua sensível. Isso tem que ser testado também. Mas, se ele não remove a partir de um certo valor, você não vai deixar o bicho fritar lá. Ele tem uma margem de temperatura máxima que ele pode submeter o animal sem causar dano, sem causar queimadura, por exemplo".
Mas, para Sérgio Greif, biólogo e membro fundador da ONG Sociedade Vegana, ainda que não se perceba sofrimento, o fato de o experimento ser uma imposição já fere os direitos básicos do animal.
"O animal não é voluntário da pesquisa. Então, mesmo que o animal não sofra excessivamente - a gente não tem equipamento que mostra grau de sofrimento, né? -, o próprio fato de o animal ser um animal de laboratório, ele estar confinado num laboratório, ele ser manipulado por pessoas, o que é contra sua natureza, ele ser forçado a ingerir determinadas substâncias que não são o seu alimento apropriado, ele ser injetado de substâncias, ele ser submetido a determinadas condições fisiológicas, isso por si só já envolve crueldade."
Muitos animais são criados para ser usados em laboratório, mas, segundo Antonio Sebben, há outros meios de se conseguir material de pesquisa.
Animais que morrem em zoológicos; peixes ou aves sem valor comercial capturados por pescadores; aves que morrem ao bater em edifícios espelhados; e animais contrabandeados apreendidos pela Polícia Federal são alguns deles.
No caso do contrabando, por exemplo, o professor explica que nem sempre os que sobrevivem podem ser devolvidos a seu habitat, pois são exóticos e não se sabe ao certo de onde foram retirados. Se levados a um lugar onde naturalmente não vivem, podem causar um desequilíbrio na fauna local.
De Brasília, Verônica Lima