Reportagem Especial
Especial Mulheres - A maternidade (06'50'')
28/03/2011 - 00h00
-
Especial Mulheres - A maternidade (06'50'')
TRILHA – “Eu vi a mulher preparando outra pessoa. O tempo parou para eu olhar para aquela barriga”.
Ser mãe é trabalho sério. O que parece um desses clichês que a gente escreve num cartão de Dia das Mães merece avaliação mais aprofundada.
Segundo Elisabete Saar, coordenadora da área de saúde e poder da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o órgão tem investido em quantificar o tempo de trabalho que homens e mulheres gastam dentro de casa.
"Estamos trabalhando nisso porque não adianta a gente conseguir que as mulheres estejam no mercado de trabalho, estejam dirigindo as organizações, se elas ainda têm que arcar com as tarefas domésticas. Os homens têm que entender que eles são parte dessa sociedade e usufruem das tarefas domésticas, então têm que ter participação nelas."
O objetivo é que haja uma divisão do trabalho entre mulheres, homens e o Estado. Da parte do Estado, é preciso que haja infraestrutura que libere as mulheres dos afazeres domésticos, como creches, restaurantes e lavanderias.
Da parte do homem, é preciso superar a visão de que, no máximo, eles vão ajudar a mulher num trabalho que é de responsabilidade dela, como defende Maria Fernanda Marcelino, membro da executiva da Marcha Mundial das Mulheres.
"Se o homem ajuda, ajuda é algo que você faz voluntariamente, que você faz esporadicamente, que faz quando pode ou quer. Nós não queremos uma ajuda. Queremos de fato uma divisão igualitária dos deveres, do trabalho, do afeto, etc."
Aos 32 anos, o professor universitário Robson Abreu se prepara para o casamento. Ainda não sabe quando os filhos virão, mas já afirma que não espera que a futura esposa, que é dentista, deixe de trabalhar.
"Se tivermos filhos, não é projeto meu e dela que ela abandone a carreira para cuidar dos filhos, embora também não seja nossa atenção abandonar os filhos para cuidar da carreira, que hoje em dia a gente vê com frequência."
Robson quer participar da criação dos filhos e aceitaria diminuir suas responsabilidades profissionais para ter mais tempo com eles. Desde que isso não afetasse sua capacidade de prover as necessidades materiais das crianças.
Isso porque, para Robson, os papéis de pai provedor e mãe cuidadora ainda são importantes, devido às diferenças entre homens e mulheres.
"Ainda acho que esse tipo de papel é importante. Acho que a mãe tem condições de levar o filho pela sensibilidade, que na mulher é, ao meu ver, algo mais aflorado do que no homem, uma série de elementos que são importantes para a criança. O homem, eu acho que, muitas vezes carece desse tipo de habilidade que a mulher tem."
TRILHA DE PASSAGEM – “Mulher! Mulher! Na escola Em que você foi Ensinada Jamais tirei um 10 / Sou forte Mas não chego Aos seus pés...”
Quem também acredita em papéis diferentes para o homem e a mulher é a atriz e escritora Maria Mariana. Depois de trabalhar por 12 anos, ela resolveu dar um tempo nas atividades externas para se dedicar à tarefa de ser mãe. Após 11 anos, ela ainda enfrenta dificuldades para justificar a sua opção.
"As pessoas que me veem dessa forma sentem uma coisa agressiva, falando que eu sou a nova Amélia. É até engraçado, porque as pessoas não compreendem muito a pessoa que eu fui antes e ter tido essa opção de família, de casamento, de ser a mulher da casa. Mas, enfim, é só com o tempo mesmo que vou poder dizer para os outros o que eu estou querendo dizer. Tudo que faço é pelo valor da família, que penso que é muito importante para mim."
TRILHA – “Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas: / Geram pros seus maridos, os novos filhos de Atenas.”
Para Maria Mariana, ter funções diferentes não significa a submissão de um pelo outro. E as críticas que recebe interpreta como uma desvalorização do papel de mãe.
"Com certeza na sociedade de hoje o papel de mãe tem muito menos importância do que ele deveria ter. E é um desperdício, porque é uma grande oportunidade para as mulheres se fortalecerem, crescerem. (...) Essa inibição das mulheres de se permitir fazer esse trabalho hoje em dia já está aparecendo na saúde das crianças: você vê quantas crianças existem hiperativas, inseguras, obesas, doenças de criança que antigamente a gente não via."
Mas nem todos os casais têm a condição financeira para sustentar essa opção. Como explica a advogada e professora de Direitos Humanos da Universidade de Brasília Soraia Mendes, algumas mulheres estão sendo, na verdade, pressionadas a desistir da maternidade por causa da carreira.
"Por exemplo, os escritórios de advocacia, vários deles cobram das mulheres que não tenham filhos. ´Olha, se tiver filhos, você não vai conseguir se dedicar integralmente ao escritório´."
Para Maria Fernanda Marcelino, não se trata de julgar nem as mulheres que deixam de ter filhos para investir na carreira, nem as que deixam de trabalhar para cuidar dos filhos. O que se deve é mudar a percepção da maternidade como uma obrigação da mulher. Para ela, ser mãe não é o destino da mulher, mas uma possibilidade. E, para exercê-la, é necessário haver condições de igualdade.
TRILHA – “Dizem que a mulher É o sexo frágil / Mas que mentira Absurda! / Eu que faço parte Da rotina de uma delas / Sei que a força Está com elas...”
De Brasília
Verônica Lima