Reportagem Especial
Especial Mulheres - A sexualidade feminina (06'04'')
28/03/2011 - 00h00
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Especial Mulheres - A sexualidade feminina (06'04'')
TRILHA – “Quando a mulher ciente da beleza / Encara a natureza e vira Iemanjá
Seduz o coração do homem / Com a tentação do seu olhar de mangá”
Casada, mãe e bem-sucedida profissionalmente, Alice descobre, conversando com uma nova amiga, dona de uma sex shop, que nunca havia tido um orgasmo.
A personagem do filme “De pernas para o ar” ilustra o processo por que passam as mulheres brasileiras. Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Maria Luiza Macedo, a descoberta do próprio prazer teve início nas décadas de 60 e 70 e agora começa a chegar a todas as classes sociais.
"A mulher não está mais aceitando que o homem vá no ritmo dele e acabe e pronto. Ela deseja o prazer dela, ela deseja que ele aprenda como dar esse prazer a ela, porque muitos homens não sabem. E tenho observado isso, não é um movimento de classe alta, não, é um movimento de classe também mais baixa, classes C, D e E."
Essa descoberta se faz, segundo Maria Luiza, pela informação. As revistas femininas, por exemplo, sempre tratam de sexualidade, e, ao ter acesso a informação, as mulheres procuram tratamento e auxílio para suas dificuldades e disfunções. Os homens, por sua vez, acham que já sabem tudo e só procuram ajuda quando têm problemas de desempenho.
E é por isso que a emancipação da mulher foi responsável, segundo Maria Luiza, por um boom de impotência masculina no auge do feminismo.
"Aquele homem que fazia o que ele queria e estava ótimo, tudo muito bem, obrigado, agora a mulher diz: peraí, não é assim, não é assim que eu gosto, não é assim que eu quero. E ele se sentia incapaz."
Mas o homem atual não parece intimidado pelo desejo da mulher. O bancário Marcelo Henrique França tem 30 anos, está solteiro e afirma que os homens adorariam ser abordados por garotas nas festas.
"Pelo menos eu adoraria, se uma mulher estivesse interessada em mim e viesse falar comigo na festa. Não sentiria preconceito nenhum, ia até adorar."
Infelizmente, segundo ele, as mulheres de Brasília, onde mora, não querem saber disso, não. Preferem ir para casa sem conhecer o rapaz do que dar o primeiro passo. Marcelo acredita que isso pode-se dever a dois fatores: medo de ser rejeitada e medo de ser taxada como “fácil”.
Sinal de que ainda existem tabus condicionando o comportamento feminino? Para Maria Luiza, é uma questão de tempo. A mulher está caminhando para uma expressão aceitável, clara e honesta de sua sexualidade, mas mudanças sociais não ocorrem em poucos anos.
TRILHA – “Quero que um olhar igual a esse / Se detenha em mim / Que mexa com meus sentimentos / Me possua até o fim”
Membro da executiva da Marcha Mundial das Mulheres, Maria Fernanda Marcelino afirma que as mulheres vivem hoje um dilema. Educadas para ser meigas, sensuais, frágeis, elas precisam assumir características tidas como masculinas para conquistar espaço na sociedade: agressividade, racionalidade, força. Maria Fernanda acredita que esse dilema está baseado num estereótipo de mulher ideal impossível de ser seguido.
"Somos educadas para ser de uma maneira, mas a gente convive com outras características e isso, às vezes, gera conflito, gera uma contradição. Se ela é muito agressiva, se é muito belicosa, digamos, vai ´é mulher macho´, vai ser certamente discriminada, ou acusada. E aí, normalmente ligando à sexualidade: ´ah, porque deve ser sapatão, porque deve ser lésbica´."
Segundo Maria Luiza Macedo, até mesmo algumas disfunções sexuais podem estar relacionadas à forma ideal com que a sexualidade é retratada nos meios de comunicação.
"As mulheres são maravilhosas, as mulheres fazem de tudo, não tem uma com problemas sexuais na novela. Elas trocam de parceiro assim como quem troca de roupa e está tudo bem, obrigada, a família aceita, está tudo maravilhoso. E a gente sabe que a verdade não é essa."
Mas a reprodução dos papéis também tem contribuição das mulheres, que, segundo Maria Luiza, ainda educam seus filhos de forma machista.
"Eu atendo uma pessoa no hospital, que é empregada doméstica. Sai às seis horas da manhã de casa, chega às sete da noite. Ela tem um filho de oito e uma menina de onze. Ela cobra que a menina arrume tudo em casa, que lave louça, arrume a casa, faça tudo. E o menino, não, o menino brinca. Então isso você vai ver em determinadas famílias em que os papéis são mais tradicionais. Outras não."
A ministra da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário, vê com alguma naturalidade esse fato. Como a sociedade está permeada por uma cultura de desigualdades e exclusão das mulheres, elas acabam reproduzindo esses conceitos. Não só na criação dos filhos, mas também nas salas de aula, no trabalho e na política.
TRILHA – “Mirem-se no exemplo / Daquelas mulheres de Atenas: / Despem-se pros maridos, / Bravos guerreiros de Atenas”.
De Brasília
Verônica Lima