Reportagem Especial

Como o Slow Food atua no Brasil (10'14")

14/03/2011 - 00h00

  • Como o Slow Food atua no Brasil (10'14")

(Trilha- Feijoada Completa- Chico Buarque)

A feijoada continua popular. Mas o tradicional arroz com feijão está perderndo espaço na mesa do brasileiro.

Pesquisa divulgada recentemente pelo IBGE sobre os orçamentos familiares entre 2008 e 2009 mostra que, em comparação com o período de 2002 a 2003, a aquisição média anual por pessoa caiu 40,5% para o arroz e 26,4% para o feijão. Por outro lado, a compra de refrigerante de cola cresceu 39%.

O aumento da participação de alimentos industrializados na dieta e a perda dos sabores tradicionais da culinária regional são algumas das preocupações do movimento Slow Food, que há mais de 20 anos luta pela preservação de produtos e espécies vegetais e animais da cozinha local.

Presente em cerca de 150 países, o Slow Food também está no Brasil. Por aqui, os princípios do movimento chegaram primeiro ao Rio de Janeiro, com a consultora gastronômica Margarida Nogueira.

Margarida fundou o Convivium Rio de Janeiro em 2000 e ainda hoje é líder do grupo, que, a exemplo de outros "convivia" pelo mundo, articula relações com produtores, organiza degustações, promove alimentos tradicionais, incentiva chefs a usar produtos regionais e cultiva o gosto ao prazer e à qualidade de vida.

E foi pesquisando sobre a nossa culinária nacional que Margarida chegou ao Slow Food.

"Na época em que descobri o Slow Food, que foi em 1996, eu estava junto com um grupo, fazendo uma pesquisa sobre a gastronomia, a culinária brasileira em vista dos 500 anos do descobrimento. E pesquisando na internet, vi o Slow Food, li e achei que tinha a ver com todo mundo. Todo lugar tem sua história, todas as pessoas precisam comer e todos têm suas tradições alimentares. Isso é preciso preservar porque com a globalização vem se perdendo pouco a pouco."

Hoje o Slow Food conta com cerca de 800 associados no país, organizados em mais de 20 "convivia".

Ainda são poucos, se pensarmos que a população brasileira está em mais de 190 milhões de pessoas, segundo o IBGE. Mas o tamanho ainda reduzido não impede que os integrantes do Slow Food no Brasil desenvolvam projetos de impacto.

(Trilha)

No Rio de Janeiro, a chef de cozinha Teresa Corção, do restaurante O Navegador, desenvolve uma série de receitas com um produto muito brasileiro, a mandioca.

Teresa é da Rede Terra Madre, iniciativa do Slow Food que reúne produtores e pescadores tradicionais, chefs de cozinha e especialistas gastronômicos com o objetivo de trabalhar pela sustentabilidade do alimento, pela qualidade dos sabores e o respeito ao meio ambiente e ao povo.

A cada dois anos, as comunidades do alimento ligadas ao Terra Madre, de todo o mundo, se reúnem na Itália para divulgar seus saberes regionais.

A valorização da cultura local traz benefícios ambientais, sociais e econômicos, na avaliação de Teresa Corção.

"Se você pensar que 80% dos restaurantes, pelo menos nas grandes metrópoles, têm azeite extravirgem italiano e vinagre balsâmico italiano, é incrível. E nenhuma cidade fora da Amazônia tem tucupi, que é um produto nosso maravilhoso, que deveria ter um molhinho de pimenta com tucupi, deveria estar na mesa de todo mundo. Então tem um problema ambiental sério, que é o transporte desses produtos, que isso gera CO2, isso gera impacto ambiental. Tem um problema econômico porque a gente está dando dinheiro para outras economias e não pra nossa. E tem o problema cultural e o problema cultural, ele é amplamente ligado ao problema afetivo, a problemas de autoestima, a problemas de identidade, identidade está ligada ao patrimônio. (...) Eu sou uma pessoa que adoro azeite extravirgem e vinagre balsâmico, não tenho nada contra a gente ter acesso a produtos de fora, contanto que isso não cegue, não dê uma cegueira dos produtos de dentro. "

Teresa também desenvolve projetos de educação que aliam gastronomia à música, teatro, história, geografia e, até mesmo, matemática. O Instituto Maniva, criado pela chef em 2007, promove oficinas para jovens, além de produzir filmes sobre modos tradicionais de produção alimentar.

No Rio Grande do Norte, outra chef de cozinha tem buscado preservar os sabores da nossa cultura. Adriana Lucena é líder do Convivium Potiguar e integra a Rede Terra Madre Brasil.

Advogada, Adriana passou por reviravolta em sua vida depois que concluiu um mestrado em Política Agrícola pela Faculdade de Direito de Lisboa. Desde 2003, vive em uma fazenda a 140 quilômetros de Natal, em Jandaíra. Lá produz de forma orgânica. E também procura resgatar, no restaurante que montou em casa, pratos esquecidos da culinária local, como a "galinha de mulher parida" e a "panelada", feita com vísceras do boi.

"A defesa também pelos nossos queijos nordestinos, que não existem mais porque com a história da pasteurização do leite, a obrigatoriedade de pasteurizar o leite para fazer o queijo e não fiscalizar o leite, nós perdemos os nossos queijos: o queijo de coalho e queijo de manteiga. A partir do momento em que você pasteuriza o leite, você transforma o queijo, já não é mais aquele queijo que era feito com leite cru. Uma grande batalha é que nomeiem esses queijos de leite pasteurizado com outro nome e que nós possamos voltar a produzir nossos queijos tradicionais de coalho e de manteiga com leite cru."

Adriana ajudou a integrar à Rede Terra Madre tradicionais produtores de mel em Jandaíra - os Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço, conhecidos como Meninos da Joca.

(trilha)

Em Brasília, outro chef da Rede Terra Madre tem buscado fazer a diferença na hora de montar o cardápio de seus restaurantes. Cinco estabelecimentos na capital levam o nome de Francisco Ansiliero.

Há 22 anos atuando em Brasília como chef de cozinha, Francisco participa do movimento Slow há cerca de oito anos.

"O que sempre fiz foi me interessar pelos produtos locais, comprar produtos locais, prepará-los. Mesmo agora estou numa empreitada de preparar carnes silvestres, coisas que são da região, que estão sendo produzidas na região. Produtos como frutas, cagaita, mama-cadela, cajuzinho, buriti, pequi, então essas coisas todas que sustentam muitas pequenas comunidades, eu sempre as valorizei e valorizo nos meus pratos. Faço molhos com elas, faço pratos com elas, depende da qualidade e do tipo do produto."

A integração de produtores brasileiros à Rede Terra Madre conta também com o suporte do governo federal. Desde 2004, a Fundação Slow Food para Biodiversidade tem um acordo de cooperação com o Ministério do Desenvolvimento Agrário.

O secretário de Desenvolvimento Territorial, Humberto Oliveira, explica que o governo brasileiro aproveitou a estrutura organizacional do Slow Food para apoiar, inclusive com recursos financeiros, comunidades do alimento. As comunidades, segundo o Slow Food, são grupos que produzem matérias-primas de qualidade de maneira sustentável.

Para o secretário, a associação com o Slow Food tem trazido importantes ganhos ao produtor familiar.

"Nós começamos a ter um agricultor familiar que adota práticas agroecológicas, a entender que é importante seu envolvimento com a cultura local, começa a recuperar sua autoestima como agricultor, porque, quando ele vê um chef de cozinha famoso de grandes centros urbanos brasileiros e até chefs internacionais, valorizando seu produto, isso recupera sua autoestima e valoriza seu trabalho no campo."

Pela filosofia Slow Food, a relação com o produtor ocupa lugar de destaque. Para os adeptos do movimento, mais do que consumidores temos que ser coprodutores.

De Brasília, Ana Raquel Macedo

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