Reportagem Especial
Luto e dor da perda (8'19")
31/01/2011 - 00h00
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Luto e dor da perda (8'19")
É muito comum falarmos das dores emocionais associando-as a dores físicas. Alguém que perdeu um amor tem o coração partido. Alguém que tem ciúmes tem dor de cotovelo. Mas um coração partido pode estar mesmo dolorido? O sofrimento emocional pode causar dor física?
O coordenador e médico do Centro de Tratamento Intensivo da Dor no Rio de Janeiro, José Ribamar Moreno, explica que o cérebro não é capaz de produzir dor.
Segundo ele, para que haja dor, é preciso haver uma lesão em alguma parte do corpo, devido a uma doença degenerativa, tumor, hérnia de disco, trauma. E, além do fator causador, há elementos que contribuem para o agravamento e para a manutenção do quadro de dor.
Uma hérnia de disco, por exemplo, pode curar em três semanas. Mas pode persistir, se a pessoa tiver má postura, algum problema genético, ou um alto nível de estresse, afirma o médico.
"E a dor persiste, se a pessoa tiver os chamados fatores mantenedores da dor, que fazem a dor persistir. Os dois maiores fatores que fazem a dor persistir são sedentarismo e alto nível de estresse e um fator ambiental, que é o tabagismo. Então, você tem para cada problema em relação à dor, ou, para cada indivíduo que tem dor, você tem vários fatores que precisam ser estudados, que são geralmente esses fatores que concorrem para o problema da dor. Agora, o próprio cérebro não produz dor."
Por outro lado, para o diretor do Instituto de Psicologia em Perdas e Luto, Luiz Coelho Neto, o sofrimento pode levar a comportamentos que causam distúrbios físicos.
"Quando você tem todo um processo mental referente à perda, você vai também liberar determinados tipos de hormônios de estresse, como cortisol e outras coisas mais que vêm a trazer danos físicos. Inclusive, algumas pessoas comprometem o seu nível de alimentação, a qualidade de sua alimentação, elas passam a ingerir mais remédio, ou psicotrópicos, antidepressivos, muitas vezes se automedicando. Outras correm o risco de passarem a ingerir álcool excessivamente, numa tentativa de anestesiar a própria dor, e tudo isso vai fazendo com que também o corpo seja comprometido."
Olindina Batista perdeu a filha de forma trágica. Aos 20 anos, ela foi assassinada pelo ex-namorado. E quem encontrou o corpo foi a irmã, Caroline, que à época tinha apenas 14 anos.
Artista plástica, Olindina parou de pintar depois da morte da filha. Hoje, oito anos depois, ela sofre com diabetes e hipertensão, e Caroline tem hipotireoidismo.
"Eu não tinha histórico de diabetes nem hipertensão e desenvolvi. Quado vi, um dia que passei muito mal, achei que seria só por conta da depressão, do nervoso, fui ver pressão alta, pressão alta, várias vezes fui parar no hospital com pressão alta e agora uso há sete anos remédio de uso contínuo para essas doenças."
Para a enfermeira Eliseth Leão, da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, a forma como a pessoa avalia a dor física interfere no processo de recuperação.
Da mesma maneira, explica Luiz Coelho Neto, cada pessoa vai enfrentar a dor da perda de acordo com a sua cultura, com a sua educação e com a natureza do vínculo que se tinha com o que se perdeu.
Os orientais, ao contrário de nós, brasileiros, se preparam desde o nascimento para compreender a trajetória de nascimento, envelhecimento e morte. Por isso, o psicólogo afirma, a nossa dor acaba sendo maior por não conseguirmos compreender que a vida não vai durar para sempre.
E é por isso, também, que a dor de uma mãe que perde seu filho é mais forte, ao ver esse percurso interrompido, como relata Olindina.
"É uma dor muito grande, porque, na verdade, você não se prepara para enterrar um filho seu, para sepultar um filho seu. Então, é uma dor que ninguém está preparado para isso. (...) É uma dor também de revolta de ter perdido uma filha, de ver seus sonhos destruídos, porque minha filha tinha muitos sonhos, ela foi miss, ela fazia faculdade, todos os sonhos destruídos."
Mas não é só a morte que gera luto. Segundo o psicólogo Luiz Coelho Neto, sempre que um vínculo se encerra pode ocorrer o sentimento do luto.
Pessoas que mudam de cidade ou país, por exemplo, deixam amigos e família. Uma mulher que tem problemas de fertilidade enfrenta a dor de não poder ser mãe naturalmente.
"A gente avalia que perder é perder alguém por morte, mas você pode sofrer ao ver alguém que sofreu um acidente e ficar mutilada, perder um membro, e essa pessoa vai enlutar profundamente e não só vai enlutar, como também, ela vai ter que se readequar ao novo processo existencial. Não só físico, mas ela vai ter que trabalhar a questão da própria imagem porque aquela imagem mudou."
Mas qual a fórmula para superar a dor da perda, seja ela qual for? Segundo Coelho Neto, o luto tem várias fases.
Num primeiro momento, você não acredita no que aconteceu, depois você nega, sente raiva, revolta. Muitas vezes, passa por depressão. Mas, no final, vem a aceitação.
O psicólogo explica que as fases não ocorrem sempre nessa ordem, e que o importante é ter acompanhamento adequado para que a pessoa não fique estancada em uma delas.
É preciso incluir na rotina algo que traga novo sentido para que a pessoa não fique ociosa e não crie uma fixação com aquele que morreu, ou ao que se perdeu.
Isso faz parte, segundo o psicólogo, do processo de reelaboração e resignificação da perda, necessário para que a pessoa dê continuidade à sua vida sem desenvolver patologias físicas ou psíquicas.
Izana Barbosa sofreu um acidente de carro há 14 anos e ficou paraplégica. Mas, para ela, essa perda teve sua importância reduzida diante do fato de que sua gravidez não foi interrompida no acidente.
"Eu converso com muitas pessoas que sofreram algum tipo de deficiência, acidente e tal, e elas são muito revoltadas. Querem a qualquer custo voltar a andar e eu, realmente, sou muito tranquila em relação a isso. Eu acredito muito que foi justamente isso: eu tive uma perda muito grande, mas eu tive um ganho muito maior."
Izana e Olindina, assim como todas as pessoas que já enfrentaram algum tipo de perda, nunca serão as mesmas. A lembrança de quem partiu ou daquilo que se perdeu ficará sempre guardada dentro de cada um.
Mas o conselho do psicólogo Luiz Coelho Neto, especialista em Terapia do Luto, é se apegar à vida que resta, aos objetivos, às metas e funções que ainda há para cumprir. Pois, eventualmente, a dor deve diminuir para que a vida continue.
De Brasília, Verônica Lima.