Reportagem Especial
Superdotados - O despreparo das escolas (05'40'')
11/01/2011 - 00h00
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Superdotados - O despreparo das escolas (05'40'')
Uma criança com alta habilidade sofre até que seja identificado esse potencial. Normalmente, uma escola, seja ela pública ou particular, não está preparada nem para identificar nem para dar a assistência necessária a essa criança superdotada.
Assim, a criança acaba sofrendo com dificuldades de relacionamento, presta pouca atenção às matérias ensinadas e pode até apresentar um mau desempenho escolar, por mais estranho que isso possa parecer.
Joelma Pereira, mãe de Enzo, um garoto que possui altas habilidades na área matemática, lembra-se bem desse difícil momento por que seu filho passou.
"Eu tenho um exemplo do Enzo de quando ele tinha três anos, quando ele virou pra professora e falou assim: ´Olha, tia, eu só vou te obedecer porque isso é uma subordinação´. E ela falou assim: ´Uma palavra desse tamanho! O que é isso? Você não sabe o que é isso?´. E ele falou assim: ´Não, tia, eu sei sim, é quando uma pessoa manda e a outra obedece. Quando o chefe manda meu pai tem que obedecer, quando você manda em mim eu tenho que obedecer, mas eu não concordo´. E isso tudo em consequência de uma tarefa que ela tinha oferecido pra ele, ela queria trabalhar o dia do soldado e a cor verde. Nós tínhamos levado ele a uma exposição na base aérea e a outra na Esplanada. E ele tinha visto muita coisa e veio pra casa cheio. Ele sabia o que era o Urutu, o que era um tanque em missão de paz da ONU, que ele viu o tanque todo branco na Esplanada, e ele representou tudo isso no desenho dele. Desenhou, pintou a roupa do soldado de várias cores, e a professora falou assim: ´Seu desenho está muito feio! Está muito rabiscado!´ E o Enzo falou chorando com ela: ´Professora, você não entende nada, o meu desenho não está feio! O soldado não é todo verde, ele é camuflado, isso não é rabisco. Olha, esse aqui é o jipe, esse é o tanque de guerra, esse é o Urutu, esse é o Marruá, esse vai pra missão da ONU...´ E foi o que eu pontuei na escola: ´Vocês perderam uma riqueza de conhecimento. Porque vocês podiam colocar ele pra socializar o conhecimento com os coleguinhas de turma, você não precisava nem ter dado uma aula a respeito do tema. Já tinha havido uma troca de conhecimento muito grande. Sem contar que mata a vontade de aprender da criança."
Pais e mães também podem errar na mão ao lidar com essas crianças. A psicóloga especialista em crianças superdotadas Viviane Orlandi explica que o melhor é não criar expectativas em relação à criança.
Joelma assume que é algo difícil, até porque todas as pessoas que têm conhecimento da alta habilidade de Enzo criam expectativas em relação a ele.
"Às vezes as pessoas falam: ´Ah! Que legal! Você tem um filho com alta habilidade!´ Eu falo: ´Gente, é uma graça de Deus, como uma criança que tem necessidade especial pra menos também é uma graça de Deus. Mas o mais confortável é o padrão! Porque, assim, é uma luta, é uma conquista todo dia, todo dia a gente luta um pouquinho, é como um pai que tem uam criança com dificuldade para andar, todo dia tem que dar um passo novo. Então a criança com alta habilidade é assim."
Suzana Perez, presidente do Conselho Brasileiro de Superdotação, explica que as demandas de uma criança com altas habilidades não conseguem ser supridas pelo ritmo normal de uma escola. A criança fica entediada, perde rendimento e pode até sofrer com bullying dos colegas.
"Quando não é na área cognitiva, quando é na área musical, na área esportiva, ou na área artística, a escola pública não oferece nenhuma oportunidade para que essa criança possa se desenvolver. E aí, de novo, ela fica entediada, ela começa a incomodar, muitas vezes parece aquela criança que está no mundo da Lua, que não presta atenção em nada, mas no momento que dá a ela uma atividade de interesse, ela muda completamente. E a escola ainda não tem essa percepção. Ela não está preparada para oferecer essa série de oportunidades que essa criança demanda. A escola, conforme o paradigma da inclusão, essa tem que se adaptar à criança, não é o contrário. E a escola não está oferecendo nada."
Suzana reforça a noção de que a criança com altas habilidades precisa de apoio para desenvolver suas potencialidades.
Para ela, é importante que tanto pais quanto professores vençam o preconceito de que a criança com altas habilidades não precisa de apoio, e conseguirá desfrutar da educação regular sem problemas e com um desempenho excelente em todas as matérias.
Não é assim. Ela lembra que a criança possui altas habilidades em disciplinas específicas, e pode até sentir dificuldades em outras disciplinas. Para contornar esse problema, ela também precisa de apoio e carinho, uma receita de sucesso para qualquer criança.
De Brasília, Bruno Angrisano