Reportagem Especial
Noel Rosa - O reconhecimento do talento (09'49'')
09/12/2010 - 00h00
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Noel Rosa - O reconhecimento do talento (09'49'')
MÚSICA: "Provei" (de Noel Rosa e Vadico, com Zizi Possi)
"Provei do amor todo amargor que ele tem
Então jurei nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende e que me quer bem..."
A vida de Noel Rosa foi curta, mas ele chegou a presenciar o reconhecimento de seu talento e a idolatria a seu nome. Seu primeiro samba, "Com que roupa?", foi gravado em disco em 1930 e logo caiu no gosto do povo e da crítica, como relata o jornalista Jorge Caldeira, autor do livro "A contrução do samba".
"Ele teve um grande reconhecimento em vida. ´Com que roupa´, que é o primeiro sucesso dele, vendeu, em 1930, 15 mil discos, o que, para a época, era um número estrondoso. A música dele foi imediatamente reconhecida como importante. Ele foi uma figura central daquele momento".
Noel compôs seus primeiros sambas quando tinha apenas 18 anos de idade. Até os 26 anos, quando morreu, ele fez 259 músicas. Entre elas, estão clássicos do porte de "Feitiço da Vila", "Feitio de Oração", "Último Desejo", "Pierrot Apaixonado", "Fita Amarela", "O Orvalho vem Caindo", "Palpite Infeliz", "Pastorinhas", "Três Apitos" e "Conversa de Botequim".
MÚSICA: "Conversa de botequim" (de Noel Rosa e Vadico, com Doris Monteiro)
"Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d´água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol..."
Mas, qual é o diferencial da música de Noel Rosa? O que é que dá a ele os títulos de "filósofo do samba", de "gênio da música" e de "pai da moderna música brasileira"? Com a palavra, o crítico e pesquisador musical Sérgio Cabral.
"O Noel foi um dos criadores do que a gente conhece hoje como música popular brasileira, particularmente desse samba de consumo, desse samba que é gravado e toca no rádio. Primeiro, porque foi o Noel quem vestiu a música popular brasileira de letra. O estilo foi uma criação dele: o casamento da palavra com a música, ele fazia com extrema habilidade. Quando a gente nomeia os pais da música brasileira, sem dúvida, um pai de grande destaque foi o Noel".
Outro pesquisador musical, Ricardo Cravo Albin, também ressalta o talento de Noel Rosa para observar o cotidiano do país e retratá-lo em suas músicas.
"Eu acredito que Noel Rosa tenha sido a figura mais fulgorante de todo o começo da ´Era do Rádio´ - a era do disco elétrico substituindo o velho disco mecânico. Porque o Noel Rosa não traz apenas a grandeza da simplicidade para a música popular: ele foi, antes de qualquer coisa, um cronista de seu tempo, um cronista dos costumes e, sobretudo, um cronista dos seus próprios múltiplos amores".
MÚSICA: "Não tem tradução" (de Noel Rosa, com MPB 4)
"Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, ´alô boy´ e ´alô Johnny´
Só pode ser conversa de telefone
O cinema falado é o grande culpado da transformação..."
Mas nem tudo é elogio na obra de Noel Rosa. Recentemente, seu clássico "Feitiço da Vila" foi alvo da crítica do cantor e compositor Caetano Veloso, durante ensaio aberto para um show. Caetano reconhece Noel como um dos "pais fundadores" da MPB, mas, ao analisar verso a verso, afirma que "Feitiço da Vila" é racista.
"É um clássico que todos nós amamos muito, mas é uma canção que sempre me deixou uma pulga atrás da orelha, porque é uma canção de afirmação da classe média letrada contra os sambas do morro e próximos do candomblé. Basicamente é uma canção racista, porque ela diz assim, ó: ´Quem nasce lá na Vila / nem sequer vacila em abraçar o samba´. Era ele, que estudou em escolas boas, estava na faculdade de medicina. ´Lá em Vila Isabel, quem é bacharel´ - já começou - ´não tem medo de bamba´. ´A Vila tem um feitiço sem farofa / sem vela e sem vintém´: quer dizer, não tem nada a ver com esses feitiços de preto que botam macumba e candomblé. Não, não. Aqui é outro negócio. ´Que nos faz bem´: o outro faz mal, né. ´Tendo nome de princesa´: princesa Isabel, princesa Isabel, entendeu? ´Transformou o samba / num feitiço decente / que prende a gente´. E o Noel Rosa não só fez isso pioneiramente como arrogantemente disse essas coisas nessa grande canção. O que não faz dela uma canção menor do que é. Mas disse."
Obviamente, a crítica de Caetano Veloso ganhou contorno de polêmica. Muitos críticos a consideraram injusta. Sérgio Cabral, por exemplo, afirma que a obra de Noel Rosa tem que ser analisada de acordo com o contexto do início do século 20, em que ele viveu.
"Essa declaração, eu achei de profundo mau gosto porque ela tem um lado que representa uma certa covardia: a crítica feita por um personagem poderoso da música popular brasileira de hoje, que é o Caetano, a um garoto que, nos anos 30, quando fez ´Feitiço da Vila´, tinha 21 ou 22 anos de idade. Imagina se ele tinha a preocupação de ser politicamente correto. O mundo é outro".
O historiador Alex Varela mergulhou na vida de Noel Rosa para consolidar o enredo da escola de samba Unidos de Vila Isabel, que, neste ano, celebrou o centenário do "poeta". Varela sustenta que Noel foi pioneiro em tentar quebrar os preconceitos enraizados na sociedade carioca da época.
"O Noel era branco, filho de classe média, morador do bairro de Vila Isabel e de uma família de posses. E ele, sem nenhum pudor e sem nenhum preconceito, subiu os morros da cidade para compor com os compositores que lá viviam. Então, ele subia o morro da Mangueira para compor com Cartola, subia o morro do Estácio para compor com o Ismael Silva, subia o morro do Salgueiro para compor com o Gargalhada, ou seja, ele é um dos primeiros a fazer essa ligação entre o asfalto e o morro. E ali estava fazendo 40 ou 50 anos da libertação da escravidão, onde os preconceitos em relação aos negros ainda eram muito fortes na nossa sociedade".
MÚSICA: "Filosofia" (de Noel Rosa e André Filho, com Mário Reis)
"Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra a alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente
Que cultiva a hipocrisia..."
E vocês sabiam que não foi Vila Isabel, mas sim a Penha, o bairro mais cantado por Noel Rosa em suas músicas? O jornalista João Máximo, biógrafo de Noel, conta que, apesar de nascido e criado no bairro de classe média da zona norte do Rio, o "poeta da Vila" tinha um carinho especial pelo cenário suburbano da Penha.
"O Noel Rosa tinha um espírito suburbano, amor pelos locais afastados do centro da cidade. Para o Noel Rosa, o melhor era você ficar no subúrbio porque o subúrbio era mais autêntico, o subúrbio era menos requintado, era menos artificial, pelo menos na cabeça dele. Como ele diz em um de seus sambas admiráveis: ´Confessando sem vaidade / que o subúrbio é ambiente de completa liberdade´ ("Voltaste"). Ele acha isso. A Penha está no subúrbio e com uma tradição musical muito grande, na época".
MÚSICA: "Meu Barracão" (de Noel Rosa, com Maria Bethânia)
"Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não..."
Assim era o genial Noel de Medeiros Rosa: um boêmio, poeta e revolucionário da música que não precisou mais do que 26 anos para se tornar um mito.
MÚSICA: "Meu Barracão" (de Noel Rosa, com Maria Bethânia)
"Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão..."
De Brasília, José Carlos Oliveira