Reportagem Especial

Tecnologia Social: cooperativismo (09'45")

08/11/2010 - 00h00

  • Tecnologia Social: cooperativismo (09'45")

TRILHA (aproveitar a própria trilha da vinheta como BG)

Seu Jaci Chagas, 65 anos, cultiva mandioca em Dantilândia, distrito de Vitória da Conquista, na Bahia. O trabalho é diário e pesado, mas você sabe quem fica com o lucro do Seu Jaci e dos outros pequenos agricultores da região?

Jaci - "140 sacos de 50 quilos por semana: 140 sacos é a média".
Repórter - "E para quem que o senhor vende, Seu Jaci?"
Jaci - "É para o atravessador. Eles levam para essas cidades aí do sertão. E um pouco para os supermercados".
Repórter - "E com o atravessador não tem como fazer preço, né? Eles fixam o preço?"
Jaci - "É, eles fixam o preço e não tem jeito. É aquele preço e aí não tem volta: R$ 38. Baixo. O ideal mesmo, para ter um bom resultado, seria R$ 60. Mas, se ficar na média de R$ 50 por saco, dá para trabalhar, ter dinheiro para comprar livros".

José de Arimatéia beneficia a castanha de caju em Bebida Velha, distrito de Pureza, no Rio Grande do Norte. Lá, o atravessador, que também agia assiduamente, está sumindo do mapa.

"Dentro do nosso contexto hoje de comercialização, o que a gente quer fazer é agregar valor ao produto, transformando-o em benefício financeiro e social para o produtor, diretamente. O atravessador vem, através do método de exploração, para o lucro próprio. E a gente quer inverter essa situação: nós trabalharmos esse produto e que tenhamos um lucro maior em relação a esse produto".

A extinção do atravessador, aquela figura nefasta que se interpõe entre o agricultor e o comerciante e fatura mais do que os dois, é um dos muitos motivos que têm levado o produtor rural a se unir em associações e cooperativas.

Juntos, os agricultores familiares estão adquirindo a plena noção da força que têm e, com a adoção de tecnologias sociais e o respaldo de ONGs e instituições públicas, vêm assumindo o protagonismo do desenvolvimento profissional e regional.

MÚSICA: "Instinto coletivo" (de O Rappa)

A Coopasub, Cooperativa dos Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia, reúne quase dois mil cooperados de 17 municípios baianos que exploram a cadeia produtiva da mandiocultura.

Juntos, eles produzem 16 toneladas de farinha por hectare, o que torna a Bahia o segundo maior produtor nacional de mandioca, atrás apenas do Pará.

O nível de organização desses pequenos agricultores levou a Fundação Banco do Brasil a investir R$ 11 milhões em assistência técnica, equipamentos e construção de casas de farinha e de uma fecularia, onde poderão ser aproveitadas as mil e uma utilidades da mandioca, como na alimentação humana, na fabricação de cola, na produção de goma para a indústria de tintas e na geração de lubrificante para a indústria petrolífera.

Nós fomos a Vitória da Conquista conferir essa mudança de perfil no desenvolvimento regional do sudoeste baiano, que também beneficia o vizinho norte de Minas Gerais.

O presidente da Coopasub, Izaltiene Gomes, ressalta o papel da cooperativa na economia local.

"A cooperativa tem o papel de organizar os produtores e a produção desses produtores. Hoje nós temos 25 casas de farinha, que irão produzir farinha diretamente para ser comercializada; uma empacotadora de farinha com capacidade de empacotar 60 mil quilos por dia; e a fecularia aqui, que tem a capacidade de beneficiamento de 100 toneladas por dia. Isso vai proporcionar uma certa estabilidade no mercado. Lógico que a gente não vai conseguir controlar preços nem para baixo nem para cima, mas a gente vai construir a estabilidade, de modo que os produtores sejam os grandes beneficiados. E toda a renda que tiver, tirando as despesas, será dos produtores e não dos atravessadores, como era antes".

Seu Jaci, que reclamou dos atravessadores no início dessa matéria, abre um largo sorriso quando começa a vislumbrar as vantagens de ser um dos cooperados.

A cooperativa baiana em si, da maneira como está organizada e com as parcerias que desenvolve, já é uma tecnologia social plenamente reaplicável em estados como Acre, Rondônia, Pará, Tocantins, Goiás, Minas e tantos outros onde a mandiocultura se desenvolve há séculos.

MÚSICA: "Instinto coletivo" (de O Rappa)

No Rio Grande do Norte, conhecemos as tecnologias sociais aplicadas à cadeia produtiva do caju. Visitamos as Associações dos Pequenos Agricultores de Bebida Velha, distrito de Pureza, e de Vila Assis Chateaubriand, distrito de Touros, ambas cidades do litoral norte potiguar e repletas de comunidades de assentados da reforma agrária.

Nada como passar uns dias ao lado de agricultores nordestinos autênticos para receber algumas lições para a vida toda.

Logo de cara, descobrimos que o verdadeiro fruto do cajueiro não é o caju, em si, mas sim a castanha, de onde se extrai a amêndoa. Do pedúnculo, que é aquele corpo meio avermelhado ou amarelado que muita gente, erradamente, chama de fruto, aproveitam-se a polpa e o suco para o consumo humano, e o bagaço, para a produção de ração animal.

Isso, sem falar em almôndega, hamburger e pizza de caju, que começam a ficar bem populares na culinária nordestina, graças à criatividade do povo.

A castanha seca pode ser usada em substituição à lenha em caldeiras. Já a castanha prensada gera uma espécie de óleo com potencial de aproveitamento nas indústrias de inseticidas, vernizes, tintas, isolantes elétricos, plastificantes e pós de fricção.

Só a Fundação Banco do Brasil investiu mais de R$ 4 milhões nas tecnologias sociais da cajucultura no Rio Grande do Norte, sobretudo na reforma ou construção de minifábricas de beneficiamento da castanha de caju, na compra de equipamentos, na implantação de estações digitais para os trabalhadores, na assistência técnica e na instalação de uma central de comercialização, a fim de acabar com a figura do atravessador nessa cadeia produtiva.

O consultor da fundação, Paulo Chacon, comemora o fato de a própria comunidade já ter assumido o protagonismo das iniciativas e ampliado o universo de atividades.

"Nós temos aqui, já em funcionamento, mais de uma tecnologia social. O próprio desenvolvimento da proposta da fábrica foi o trabalho de uma tecnologia desenvolvida pela Embrapa e os demais parceiros. No passo a passo, a própria comunidade vai despertando e vai descobrindo outras novas potencialidades, partindo de uma cadeia que está sendo apoiada. No caso aqui, nós iniciamos com a cajucultura, já estamos na caprinocultura e na ovinocultura. Estamos também na tilápia. E, pelo que estamos aqui assistindo, vamos entrar no artesanato, porque vai ter o curtimento do couro, a elaboração de peças de adereço: bolsas, cintos, sapatos. Vai ser uma nova etapa dentro dessa experiência que eles estão aqui vivenciando".

MÚSICA: "A volta da asa branca" (de Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

Diante das perspectivas de desenvolvimento da terra onde nasceu, Rodrigo Carvalho, de 22 anos, assim como vários outros jovens interioranos, resolveu entrar na contra-mão do êxodo rural.

Ele chegou a buscar melhores oportunidades de vida em Natal, a capital potiguar, mas percebeu a tempo que o seu pequeno e humilde povoado de Bebida Velha, em Pureza, lhe trazia oportunidades mais concretas de viver com dignidade e ao lado da família.

"Com um pouco até de necessidade, eu falei assim: 'Mãe, já com 18 anos, eu vou para Natal arranjar um emprego para mim. E o que eu puder ajudar, eu mando. Aí, passei dois anos lá, trabalhando como serviços gerais. O pouco dinheiro que eu ganhava, eu mandava para casa, ajudava a mãe. Aí, pronto, quando começou a se estabilizar o projeto aqui em Bebida Velha, aí eu voltei".

Pois é, mesmo sabendo que ainda existe um árduo caminho a percorrer, o jovem voltou, arregaçou as mangas ao lado da família e da comunidade, entrou para a associação e, juntos, conheceram e estudaram as novas tecnologias sociais, ajudaram a adaptá-las à realidade local e a buscar apoio para a sua implantação, viram a comunidade tomar as rédeas do desenvolvimento regional e estão ganhando renda, autoestima, autonomia e cidadania.

MÚSICA: "A volta da asa branca" (de Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

De Brasília, José Carlos Oliveira

O programa apresenta e aprofunda temas em debate na Câmara

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