Reportagem Especial

Tecnologia Social: reciclagem (08'31")

08/11/2010 - 00h00

  • Tecnologia Social: reciclagem (08'31")

TRILHA ("Vira lixo", com Ceumar, só o instrumental da introdução)

Trabalho é fundamental para a autoestima e a cidadania da população. Mas, apesar dos avanços econômicos que o Brasil conquistou nos últimos anos, o desemprego e o subemprego ainda têm índices consideráveis.

No fim de 2009, o IBGE contabilizava cerca de oito milhões e meio de desempregados no Brasil, num universo de 101 milhões de pessoas na população economicamente ativa do país.

Os números finais de 2010 só serão divulgados em meados de 2011, mas apresentam tendência de queda. As tecnologias sociais estão ajudando a reverter esse quadro, criando oportunidades e renda para quem vivia no desalento. E, muitas vezes, a solução surge da própria iniciativa popular.

MÚSICA: "Nem luxo nem lixo" (de Marina)
"Não quero luxo, nem lixo
Meu sonho é ser imortal, meu amor
Não quero luxo, nem lixo
Quero saúde pra gozar no final..."

Maria Hilda dos Santos liderou um bom exemplo de luta comunitária contra o desemprego e o subemprego. Ela trabalhava na limpeza de um dos hotéis luxuosos da Costa do Sauípe, na Bahia, quando teve uma grande ideia: criar uma cooperativa para reciclar o imenso volume de lixo produzido diariamente no complexo turístico, situado a 80 quilômetros de Salvador.

"Eu achei uma maneira de cuidar um pouco da natureza e também a preocupação de onde a Costa do Sauípe e a rede hoteleira iriam colocar todo esse lixo. No início mesmo, quando abriram as portas, eu já estava lá e comecei a observar o tanto de material que tinha, aí cheguei e dei a ideia ao pessoal de que a gente poderia trabalhar também com a parte de reciclagem. As pessoas que estão aqui hoje eram desempregadas porque a maioria dessa rede hoteleira só pega universitários. Graças a Deus, as pessoas que estão aqui se sentem felizes de poder, no fim do mês, ter o seu dinheiro para sobreviver com sua família".

Maria Hilda e um grupo de desempregados iniciaram os trabalhos de reciclagem em 2003, no Porto do Sauípe, que é uma comunidade pobre, vizinha ao paraíso turístico da Costa do Sauípe.

Eles batalharam pelo apoio técnico e financeiro de entidades públicas e privadas e hoje se orgulham com o pleno funcionamento da cooperativa, batizada de Verdecoop.

A reportagem da Rádio Câmara foi conhecer seu funcionamento e instalações, localizadas no município baiano de Entre Rios.

MÚSICA: "Vira Lixo" (de Chico César, com Ceumar)
"Tudo vira lixo
Tudo pode virar lixo
Carta de amor vira lixo
Conta pra pagar vira lixo..."

Hoje o trabalho da cooperativa está bem diversificado. Além da reciclagem do lixo recolhido no pólo turístico da Costa do Sauípe, os cerca de 50 cooperados trabalham com compostagem de resíduos sólidos, beneficiamento da casca de coco e do óleo de cozinha e limpeza de grandes eventos, como a micareta Sauípe Folia.

A experiência é tão positiva que a Verdecoop pode se tornar a primeira cooperativa de catadores de lixo no mundo a ser beneficiada com um projeto de crédito internacional de carbono.

O consultor ambiental Tiago Vilaronga presta assistência técnica à cooperativa. Ele explica que a viabilidade do projeto vem, sobretudo, da compostagem do lixo orgânico realizado pela Verdecoop, que evita a proliferação de gases tóxicos no meio ambiente.

"Quando você tem a decomposição da matéria orgânica, ela libera o gás metano e esse gás metano é 21 vezes mais poluidor do que o gás carbônico. Se você não faz a compostagem da forma aeróbica, que é o que a gente faz aqui, pega esse material e simplesmente coloca no aterro sanitário, esse material vai, sim, liberar o gás metano".

Se o projeto for aprovado pelo governo brasileiro e pela ONU, países ricos, que emitem grande quantidade de poluentes, poderão comprar os créditos de carbono da Verdecoop, garantindo assim mais recursos financeiros para a cooperativa baiana.

TRILHA ("Vira lixo", Ceumar, só o instrumental da introdução)

A Verdecoop adota várias tecnologias sociais no seu funcionamento diário, principalmente na compostagem do lixo orgânico e no beneficiamento da casca de coco e do óleo de cozinha.

E a própria cooperativa, como um todo, é considerada uma tecnologia social reaplicável em todas as regiões do país. Tiago Vilaronga recomenda que as demais cooperativas de catadores de lixo sigam o exemplo da diversificação de negócios.

"A gente trabalha dessa forma, no negócio do lixo mesmo: de coleta de orgânico, de seco, de tudo. Aí, quando você bota no final, soma tudo, dá um resultado bacana. O negócio em si, como é formado por seis negócios, se um enfraqueceu - a gente sente um pouco, claro -, mas a gente não se desestabilizou porque tinha outra coisa dando suporte. São 45 tipos de materiais, são quase 45 tipos de compradores e acaba que uma coisa vai cobrindo a outra. E hoje a cooperativa comercializa em rede e comercializa basicamente para indústria. Não tem a figura do atravessador".

MÚSICA: "Vira Lixo", de Chico César, com Ceumar

Cuiabá também desenvolveu uma tecnologia social que ajuda a reforçar a cidadania de populações carentes.

Ela está em curso no bairro Jardim Vitória, que já abrigou um lixão e chegou a ser chamado até de "favelão", na capital do Mato Grosso, devido aos baixos níveis de saneamento, infraestrutura, renda e escolaridade que apresentava. Hoje a situação está diferente graças a diversas iniciativas, principalmente da sociedade civil.

O Instituto Centro de Vida criou a tecnologia social "Conexão Cheiro Verde" em parceria com a comunidade do bairro e uma rede de supermercado local.

A ação conjunta permite que 102 toneladas anuais de resíduos orgânicos, que iriam para a lata de lixo do supermercado, se transformem em adubo de excelente qualidade para o cultivo de hortaliças orgânicas e geração de renda para famílias em situação de risco social.

O principal produto cultivado com o adubo são as cebolinhas, daí o nome de "Conexão Cheiro Verde". Mais de 10 mil maços de cebolinha são comercializados por ano, a maior parte no próprio supermercado que forneceu os restos de alimentos usados para o adubo.

Os trabalhadores, antes sem emprego nem renda, estão organizados em cooperativa. O coordenador do projeto, Erlon Bispo, fala do potencial de reaplicação dessa tecnologia em outras regiões carentes do Brasil.

"Foi pensado, então, em ter uma cooperativa para aproveitar os resíduos e também fazer a compostagem orgânica municipal. A gente não degrada o ambiente. A gente repõe. Tudo aquilo que a natureza dá, depois volta mineralizando isso, já que a gente faz essa terra vegetal. O projeto Conexão Cheiro Verde já está sendo reaplicado. Isso é muito fácil de fazer. As empresas que têm resíduos orgânicos, o que é um problema para os aterros sanitários, se quiserem, resolvem isso muito facilmente. No entorno dela, ela organiza, dá oportunidade para as pessoas. É muito simples".

Para Francisca Romana, uma das beneficiadas com o projeto, a retomada do trabalho significou autoestima e cidadania.

"Antes de eu trabalhar aqui, eu estava desempregada. Eu saía procurando serviço, fazia faxina. Então, quando tive essa oportunidade de vir trabalhar aqui, isso foi muito bom para mim porque eu parei de sair para as ruas e tenho mais tempo para os meus filhos, né".

TRILHA ("Vira Lixo", de Chico César, com Ceumar)

Os responsáveis pela implementação da "Conexão Cheiro Verde" em Cuiabá costumam dizer que, muito mais importante do que as cebolinhas, o projeto cultiva cidadania.

De Brasília, José Carlos Oliveira

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