Reportagem Especial

Tecnologia Social: saneamento (08'20")

08/11/2010 - 00h00

  • Tecnologia Social: saneamento (08'20")

TRILHA ("O autor da natureza")

Apenas 46% dos quase 58 milhões de domicílios brasileiros têm rede de coleta de esgoto sanitário. Esse dado alarmante está na última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, divulgada pelo IBGE.

Parte considerável dos 54% de residências sem rede regular de esgoto ainda recorre a fossas secas, valas a céu aberto ou ainda ao lançamento do esgoto diretamente em rios e córregos.

Todos esses meios primitivos de destinação do esgoto contaminam as águas subterrâneas e facilitam a proliferação de várias doenças, como verminoses e até cólera.

As fossas sépticas, aquelas em que, pelo menos, há um tratamento primário do esgoto, são usadas hoje em 7,5% dos domicílios, segundo o IBGE. Elas são bem mais eficazes do que as alternativas primitivas citadas aqui, mas também têm seus inconvenientes: as fossas sépticas podem causar mau cheiro e precisam ser esvaziadas frequentemente por meio de caminhões limpa-fossa, que têm um custo bem caro.

MÚSICA: "O autor da natureza" (de Zé Vicente da Paraíba, Passarinho do Norte e Bráulio Tavares, com Zé Ramalho)

A ciência e o conhecimento popular baseado na observação da natureza já apresentaram várias tecnologias sociais capazes de solucionar os problemas do esgoto doméstico.

O canteiro biosséptico é uma delas. Essa técnica vem sendo difundida pelo IPEC, o Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado, com sede em Pirenópolis, em Goiás. O diretor do instituto, André Luiz Soares, conta como essa técnica funciona.

"É uma tecnologia que recebe efluente líquido que está contaminado. E os organismos vivos - plantas, bactérias, fungos e insetos que vivem na terra - vão digerir todo esse material e evaporar essa água que está ali. Nada fica depois disso. Então, é como se fosse um ecossistema dentro de uma caixinha".

Para construir o canteiro biosséptico, é preciso fazer uma perfuração retangular no chão do quintal da casa ou do condomínio. As medidas do buraco vão depender da quantidade do esgoto a ser tratado naturalmente.

A fossa deve ser impermeabilizada com cimento e uma parede de tijolos para evitar infiltrações e contaminações do solo e da água subterrânea. No meio do buraco, ergue-se uma espécie de pirâmide para que o esgoto, ao cair da tubulação, seja direcionado para as laterais da fossa.

Para concluir, basta cobrir a fossa com terra e o próprio entulho da obra. Depois, devem ser plantadas, sobre a terra, bananeiras ou outras espécies vegetais que absorvam líquido.

Segundo André Luiz Soares, o canteiro biosséptico é um sistema barato e eficaz de eliminação dos resíduos do esgoto doméstico e sua concepção surgiu da simples observação da natureza.

"A natureza tem todas as respostas. E essa tecnologia foi desenvolvida a partir da observação e do respeito à natureza. Nós temos que escolher um local do terreno que vá receber esse efluente que vem da casa ou das casas de forma a usar apenas a força da gravidade, ou seja, tem que estar um pouco mais abaixo da saída de esgoto das casas".

O esgoto naturalmente tratado não polui os poços artesianos nem as áreas disponíveis para plantio nas propriedades. O IPEC já capacitou mais de 6 mil pessoas para a difusão dos canteiros biossépticos em todo o país.

No litoral do Ceará, por exemplo, eles são usados para o tratamento de esgoto numa comunidade de pescadores.

Os canteiros também garantem o saneamento básico na Ecovila Santa Branca, instalada em Terezópolis de Goiás, cidade encravada entre os dois principais municípios do estado: Goiânia e Anápolis.

O presidente da associação de moradores da ecovila, Antônio Zayerk, afirma que essa tecnologia social é plenamente aplicável tanto em áreas rurais quanto em condomínios urbanos.

"O que a gente aprendeu com essa tecnologia é que existem duas grandes bobagens. Uma é juntar o esgoto de todo mundo para depois pensar o que vai fazer com aquilo. A segunda grande bobagem é jogar no rio".

TRILHA ("O autor da natureza")

A Fundação Banco do Brasil tem incentivado a adoção de políticas públicas de saneamento e o uso particular de uma outra tecnologia social bem parecida.

Trata-se da fossa séptica biodigestora. Ela também permite o tratamento do esgoto doméstico, mas tem a vantagem de gerar, como subproduto, um adubo orgânico líquido para a plantação. Esse sistema pode economizar até 4,5 mil quilos de fertilizante por ano.

Em Vargem Bonita, onde está reunida uma das maiores comunidades de japoneses em Brasília, quase 70 chácaras da região já adotaram essa tecnologia social.

Seu Marcos Assunção, de 81 anos, é dono de uma delas e está satisfeito com a técnica que lhe proporciona fertilizante líquido vindo do tratamento biodigestor do esgoto doméstico.

"Agora estou plantando toda a chácara de mandioca e tenho o meu pomar aqui, esse arvoredo com todo tipo de fruto... banana. Aí eu jogo esse líquido nos pés. Eu só trabalho com orientação técnica. Eu sou filho de agricultor. Aqui é um lençol d’água. Você afunda 80 centímetros e dá na água. Se não tiver fossa, o que acontece? Esses lençóis aqui ficam todos poluídos. A fossa sem tratamento nem nada vai poluir toda a terra aqui, as águas, tudinho. E esse tratamento aqui é o melhor que eu acho porque trata do esgoto".

TRILHA ("Shimbalaiê")

No noroeste de Minas Gerais, a Fundação Banco do Brasil montou o primeiro Centro de Referência em Tecnologia Social do país, apelidado de Cresertão.

O local serve de espaço físico para visualização, aprendizado e difusão das tecnologias mais exitosas e com potencial de reaplicação em toda a região, também conhecida como Grande Sertão Veredas.

Uma dessas técnicas é a das barraginhas, espécie de miniaçudes construídos nas valetas naturais dos terrenos para, ao mesmo tempo, reter a água das enxurradas, impedir a erosão, aumentar o fluxo dos lençóis freáticos e revitalizar nascentes, córregos e rios mesmo em períodos de estiagem. É o que explica o gerente de monitoramento da fundação, Fernando da Nóbrega.

"É uma tecnologia que visa trabalhar os recursos hídricos de uma forma mais adequada, na medida que ela retém a quantidade de água que iria escoar, gerando um distúrbio na natureza, degradação do solo e assoreamento de rios. Isso (a água) é concentrado nesses diversos miniaçudes e a água vai infiltrar no solo, gerando a elevação do lençol freático e, consequentemente, conservando melhor a água na região".

TRILHA ("Shimbalaiê")

Essa tecnologia social simples e barata nasceu em Israel e ganhou readaptações no Brasil, graças à troca de experiências entre técnicos da Embrapa e comunidades de regiões secas.

Várias prefeituras já adotaram as barraginhas como política pública. Hoje existem mais de 150 mil delas instaladas sobretudo no semiárido brasileiro, numa prova concreta da interação de conhecimentos dos cientistas, do homem simples do campo e da natureza.

MÚSICA: "Shimbalaiê" (de Maria Gadu)
"Natureza deusa do viver
A beleza pura do nascer
Uma flor brilhando à luz do sol
Pescador entre o mar e o anzo..."

De Brasília, José Carlos Oliveira

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