Reportagem Especial

50 anos da pílula - A ação do medicamento e os avanços (07'10'')

04/11/2010 - 00h00

  • 50 anos da pílula - A ação do medicamento e os avanços (07'10'')

Pílula milagrosa. Assim a jornalista paraense Luzia Álvares define o medicamento que ela passou a usar na década de 60 e que representou uma guinada na sua vida.

Mas o anticoncepcional daquela época tinha uma dose de hormônios dez vezes maior do que o vendido hoje. O resultado foi uma menopausa precoce, que levou Luzia a interromper o tratamento e engravidar da sua quarta filha.

"Eu passei por uma menopausa precoce por conta do anticoncepcional, segundo meu ginecologista. Nessa situação, não sei porque, ele disse que eu tinha que fazer um tratamento. Eu fiz todo o tratamento, voltei a ovular, com a ovulação eu entrei na minha quarta filha. Graças a Deus eu sou feliz com as quatro filhas, mas foi um tempo longo, uma criança que já chegou a outra estava com seis anos. E daí em diante eu não parei de tomar o que a gente chamava de pílula milagrosa"

Em 50 anos de existência, a pílula se modernizou e já não provoca problemas como os enfrentados por Luzia Álvares, nem o temido aumento de peso.

Hoje, os anticoncepcionais orais, além de evitarem a gravidez, podem trazer outros benefícios para as mulheres, como explica o chefe do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo, Afonso Nazário.

"Todo anticoncepcional tem dois hormônios. Um que é derivado do estrogênio, outro derivado da progesterona. Tem alguns anticoncepcionais que o derivado da porgesterona tem uma ação antiandrogênica, anti-hormônio masculino. Então a ciproterona tem a capacidade de reduzir o nível de hormônio masculino circulante na mulher, e com isso melhora a pele, a oleosidade, diminui a acne. Para as pecientes que querem evitar uma gravidez e tem problemas cutâneos a gente dá preferência à prescrição desse tipo de anticoncepcional, que melhora bem a pele. Todo anticoncepcional melhora a pele, mas esse é o que melhora mais. Tem um outro tipo de anticoncepcional, usado particularmente por aquelas mulheres que incham muito quando estão pra menstruar. Tem hoje, no mercado, um anticoncepcional que tem um efeito diurético. A pílula também não é usada só pra evitar gravidez, ela é usada também pra algumas doenças"

Uma dessas doenças é a endometriose, que provoca fortes cólicas e dificuldade para engravidar. Quem tem anemia devido ao intenso fluxo menstrual também pode se beneficar com os anticoncepcionais, apontados ainda como redutores dos casos de câncer de ovário e do endométrio, que é o revestimento interno do útero.

Mas é preciso ter orientação adequada antes de começar a tomar a pílula. O diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia, Roberto Vieira, fala sobre algumas contraindicações do medicamento.

"A pílula anticoncepcional não é totalmente inofensiva. Ela pode dar um problemas vasculares na mulher, um aneurisma cerebral, ela pode dar tumor hepático, além de acelerar o câncer de mama. As pacientes que fazem parte de grupos de alto risco para câncer de mama não devem usar pílula anticoncepcional. As pacientes que têm mamas muito densas também está contraindicado usar pílula, porque você pode ter um tumor em andamento, e esse tumor, com o uso da pílula, ele vai acelerar o crescimento dele. Então, a paciente que usar a pílula deve ter um acompanhamento médico pra ver se não aparece nada na mama. E elas não devem usar por um período maior que 10 anos"

Além disso, o diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda cautela no uso por mulheres muito jovens.

"A mulher tem que saber que se ela começar muito jovem, ela pode impedir o crescimento dela, porque o anticoncepcional acelera, por exemplo, o desenvolvimento da parte óssea. Então ela deve ser orientada a tomar a pílula na época certa e saber que não é uma medicação tão inofensiva assim. A paciente deve ser pesquisada, visto se ela não tem nenhum problema clínico, se ela não faz parte de família de risco. E mesmo que não tenha nada, ela tem que ser acompanhada, pelo menos semestralmente, por um médico"

Devido ao aumento de casos de câncer de mama em mulheres abaixo dos 40 anos, a Sociedade Brasileira de Mastologia tem recomendado cautela na prescrição de anticoncepcionais hormonais a meninas menores de 18 anos.

Mas o dr. Roberto Vieira ressalta a importância da pílula, principalmente para evitar uma gravidez precoce, que acabe prejudicando, por exemplo, a frequência escolar das jovens.

O planejamento familiar é um direito de todo brasileiro, garantido pela Constituição e regulamentado em 1996. Com isso, os postos de saúde e hospitais públicos devem oferecer informações e acesso a métodos e técnicas para o controle da fertilidade.

Isso inclui os polêmicos contraceptivos de emergência, mais conhecidos como pílulas do dia seguinte, como explica a coordenadora da área técnica da saúde da mulher do Ministério da Saúde, Thereza Delamare.

"Anteriormente era só entregue nos serviços de referência para atendimento à mulher vítima de violência. E o ministério vem ampliando, disponibilizando a anticoncepção de emergência para as unidades básicas de saúde também, tendo em vista que muitas vezes a mulher chega na unidade de saúde antes de ir para a unidade de atendimento especializado em violência. Então é muito importante que na atenção básica também se tenha não só pra atender às vezes uma adolescente que chega lá falando que a camisinha furou, ou que ela não usou camisinha. Então ela pode ir na unidade e solicitar. É muito importante, porque é uma maneira de evitar a gravidez não planejada"

Mas segundo a ginecologista Albertina Duarte, as jovens têm abusado da pílula do dia seguinte. A médica alerta que além de correrem o risco de contrair uma doença sexualmente transmissível, por não usarem camisinha, essas mulheres acabam tomando uma dose muito grande de hormônios, o que pode trazer graves prejuízos à saúde.

Além disso, o contraceptivo de emergência é duramente criticado por setores da igreja, que consideram o método abortivo.

De Brasília, Mônica Montenegro

Na segunda reportagem, você vai conhecer o caminho trilhado pelo comprimido que já causou desconfortos na mulher e hoje pode ser indicado em tratamentos de pele.

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